O Egipto Antigo não foi estranho ao governo de mulheres. Para além da conhecida Cleópatra ptolemaica, a rainha mais célebre foi sem sobra de dúvida Maak Ka Ra, mais conhecida como Hatshepsut, que reinou durante a XVIII dinastia no Novo Império.
Filha do faraó Tutmés I, nasceu em 1490 a.C., no palácio real de Tebas. O seu estatuto de princesa permitiu-lhe aprender a ler, escrever e todas as noções que só eram privilégio da realeza.
Era desejo de seu pai que ela fosse a futura soberana após a sua morte, mas foi o filho de um concubina que chegou ao trono com o nome de Tutmés II.
Naquela época, Tutmés II só podia legitimar o seu cargo de faraó se casasse com uma mulher da família real. E foi esta a razão que levou Hatshepsut a casar com o seu meio-irmão.
Cedo Hatshepsut tomou as rédeas do poder, pois seu marido, Tutmés II, era um homem muito débil e enfermo, mas o infortúnio quis que o marido morresse quinze anos após a sua ascensão ao trono.
Como sucessor apareceu Tutmés III, filho menor de seu marido e de uma concubina chamada Mutnefer. Este bastardo não estava destinado a reinar, pois para além da morte prematura do faraó, encontrava-se a viver no templo de Amon educando-se para ser sacerdote.
Ao saber-se que seria o futuro faraó do Egipto casaram-no com Nefru-Ras, uma das filhas da rainha, com a intenção de formar uma linha dinástica , ficando a aguardando ser faraó, uma vez que só tinha sete anos de idade, assumindo Hatshepsut a regência.
Formaram-se então dois partidos, um que defendia a sucessão ao trono de Tutmés III e outro que era partidário da regente. Isto prova que Hatshepsut transformou a regência num verdadeiro reinado.
O clero, partidário de Hatshepsut, inventou um mito, que segundo o qual, Amon lhe havia oferecido o trono, encarnando a figura de Tutmés I quando concebeu com a rainha Ahmose, a sua amada filha Hatshepsut, estando portanto legitimada a governar o Egipto.
O desenvolvimento da ideia de monarquia baseada na divindade do rei, era o reaparecimento do sistema político religioso do Império Antigo, que fazia do rei a encarnação de Ra sobre a terra, o deus vivo.
O poder real totalmente independente do homem, só dependia de deus. Portanto, a lei não pode legitimar o trono, só Amon o pode fazer.
A rainha tomou um lugar superior ao cargo que lhe era ortogado. Os documentos da época representam Hatshepsut seguida de seu sobrinho.
Ela afirmou os seus direitos pessoais de soberania fazendo-se representar como faraó, vestida como um homem e adoptando o protocolo completo, incluindo a pêra postiça, dos reis do Egipto.
Uma vez no trono, iniciou o seu reinado consolidando o domínio sobre a Núbia, comandando ela própria o exército. Posteriormente organizou algumas expedições mercantis ao país do Punt.
Toda a sua actividade governativa ficou perpetuada, por pinturas ou baixo-relevos, no templo que mandou construir em Deir el-Bahari.
O templo, obra do arquitecto Senenmut, situava-se na margem esquerda do Nilo. No seu amplo anfiteatro formado por rochas que alcançavam 130 metros de altura, situavam-se três terraços sucessivos e aos quais se podia aceder por uma grande rampa central, que termina no santuário de Amon, inteiramente esculpido na rocha.

Durante 20 anos Tutmés III viu a sua tia governar o Egipto, usurpando-lhe o trono, contando para isso com a ajuda do seu arquitecto e amante Senenmut, do supremo sacerdote de Amon e de todos os chefes dos sacerdotes do Norte e Sul, a quem ela concedeu inúmeros privilégios.
Após estar muitos anos no poder, governando em paz e erigindo monumentos para glorificar os deuses, Hatshepsut desapareceu de uma maneira estranha.
Não se sabe se morreu de morte natural ou se foi assassinada num golpe de Estado, levado a efeito pelo seu sobrinho Tutmés III.
A verdade é que desejou ser lembrada como soberana e desapareceu da história. Tutmés III quando subiu ao trono apagou todos os vestígios de Hatshepsut, mandando destruir todas as estatuas e baixos relevos que a representavam.
Ela permaneceu desaparecida por mais de 3.000 anos, até que arqueólogos descobriram o seu túmulo em Deir el-Bahari. O túmulo onde descansaria para toda a eternidade, contudo, não continha os seus restos mortais, ficando por descobrir as causas da sua morte.