segunda-feira, maio 23, 2005

Sesimbra (Parte l)


Vista de Sesimbra, nos começos do século XX, antes de ser construída a avenida marginal e o porto de abrigo.


Vista de Sesimbra actualmente.



Hoje em dia quando me desloco a Sesimbra, não é sem um doloroso confrangimento, que vejo como a “modernidade” ao serviço do laser, descaracterizou impiedosamente, uma das vilas costeiras mais bonitas de Portugal.
Com o confrangimento fazem coro as saudades de um tempo querido, que eu vivi nos anos 50, quando nessa vila passei várias férias grandes escolares, com a duração de dois meses cada.
É esta Sesimbra, que se perdeu no tempo, que a maior parte das pessoas que a visitam hoje não conhecem, que eu quero relembrar , pelas palavras da memória da criança que fui.
Como introdução vamos espreitar um pouco da sua história ao longo dos séculos, que embora não pareça tem muito para contar.

A História


O castelo de Sesimbra


Implantada numa reentrância da orla atlântica do maciço da Arrábida, conheceu o seu primeiro habitante, há cerca de um milhão de anos, o Homo Erectus, quando este chegou proveniente de África.
Foi palco da evolução humana durante todo o Paleolítico e Neolítico. É deste período que se podem encontrar evidências da formação das primeiras sociedades humanas, com rituais funerários e pequenos povoados que viviam da emergente agricultura.
No período da Era dos Metais, é visitada pelas civilizações do mundo mediterrânico, Gregos, Fenícios e Cartagineses, com quem estabeleceu contactos.
Também por ela passaram, no período das grandes conquistas, que começaram no século II a.C., os Romanos, depois no século V durante as invasões Germânicas, desde os Vândalos aos Visigodos, terminando no século VIII com a invasão dos Árabes vindos do Norte de África, que construíram o primeiro castelo para abrigar o povoado.
Objecto de diversas tentativas de conquista por D. Afonso Henriques, o castelo árabe, é totalmente destruído por um califa, vindo a ser reconstruído, quando foi definitivamente conquistado por D. Sancho I, auxiliado pelos cruzados francos, aquém foi doado o povoado.
Em 1236, com a doação do concelho de Sesimbra à Ordem de Santiago, a população expande-se para fora das muralhas, criando a povoação da Ribeira de Sesimbra. Mais tarde em 1536, é então criada a vila de Sesimbra, no local que lhe conhecemos hoje, cuja população participou de modo activo na expansão ultramarina.
Com a perca da independência em 1580, o desenvolvimento da vila começa a regredir com a falta de homens e sobretudo com os ataques de piratas que afectam negativamente o seu crescimento.
Sesimbra só principiou a sua recuperação no reinado de D. João IV que edificou uma linha de fortificações costeiras, entre as quais se conta a fortaleza de S. Tiago no centro da baía de Sesimbra, que ainda hoje está em bom estado de conservação. Contudo as fortificações não foram suficientes para evitar os ataques marítimos dos corsários berberes em 1665 e 1721.
Com a queda dos Duques de Aveiro, últimos representantes da Ordem de Santiago no século XVIII, as terras de Sesimbra, passaram para a tutela real.
No século XIX, a vila vai sofrer imensas vicissitudes, desde a conquista napoleónica até à guerra civil de 1834-1836, que levou ao desmantelamento de vários pontos militares costeiros.
No final do século XIX e princípio do século XX, assistimos ao renovar da vila de Sesimbra, tornando-se um dos mais importantes e pitorescos portos pesqueiros.
É em meados do século XX que eu faço o meu encontro com Sesimbra, ou melhor com o que dela ainda subsistia das suas tradições como vila piscatória. Durante as minhas férias ficava em casa de uns tios avós maternos, que era habitada também por outros familiares, do ramo da tia avó. Todos os homens eram pescadores com a excepção do tio avô, que era leiloeiro na lota, local onde se vendia o peixe.

O peixe e a lota



Após os meus pais me deixarem em casa dos tios, e regressarem a Lisboa, a primeira coisa que fazia era descalçar os sapatos para só os tornar a calçar dois meses depois. Descalço e em calção de banho de manhã à noite, com liberdade completa de movimentos, era a criança mais feliz que se possa imaginar. O mundo era todo meu.
Este mundo era o mundo do mar e do peixe. Hoje com a escassez que existe é difícil de imaginar a quantidade de peixe que todos os dias era descarregado na praia para venda.
Na praia sim, na que fica à direita do forte se estivermos voltados para o mar e de costas para a vila.



O peixe era colocado na praia geometricamente ordenado, fazendo lotes específicos para venda, como no caso do peixe espada, da albacora, dos safios e das chaputas. Os pargos, gorazes, as corvinas e as pescadas, tinham direito a destaque. Eram colocados em cima de montículos de areia feitos para esse fim.
O carapau, a sardinha, a sarda e a cavala, eram colocados em caixas de madeira próprias e tradicionais, ou vendidos a granel dentro das próprias embarcações. O espadarte, as toninhas e outros peixes de maior porte eram vendidos individualmente.
As baleias nunca soube onde eram vendidas, já não eram da minha época. Não sabiam que em Sesimbra já se caçou às baleias, quando elas viajavam ao longo da costa portuguesa?
Havia, imaginem, duas lotas por dia. A primeira começava por volta das seis da manhã até cerca do meio dia. A da tarde iniciava-se às seis horas e não tinha hora de terminar, enquanto estivesse a chegar peixe ela não parava, prolongando-se por vezes até às duas da manhã. A lota da manhã era abastecida pela pesca nocturna, a do fim do dia vendia o peixe pescado de tarde. Diariamente passam toneladas e toneladas de peixe fresco pela lota.
Das duas lotas a que mais gostava de participar era na da tarde. Na da manhã limitava-me a ir levar o pequeno almoço ao meu tio por volta das oito horas, uma leiteira e um pão com manteiga.
A lota da tarde, além de mais longa, tinha um encanto muito especial para mim. Depois de cair a noite, por falta de luz artificial, era iluminada com a luz de archotes. É aqui que entrava a minha intervenção. Os archotes eram seguros pelos rapazes da vila, onde eu me incluía, apesar dos protestos do meu tio. Com os pés dentro de água, iluminava-mos a descarga a troco de uma mão cheia de peixe. Eu não precisava do peixe para nada, pois era coisa que não faltava em casa, mas dava-me um prazer enorme ver o meu trabalho recompensado, fazia-me sentir como se fosse um deles.
O peixe à medida que era vendido, era retirado da praia o mais rápido possível, para dar lugar ao que se seguia. Praia cheia, praia vazia durante horas, enquanto durava a descarga do peixe.
O peixe vendido era transportado dentro de caixas, por burros com umas cangalhas especiais para o efeito. Da praia , os burros subiam por uma rampa até o largo da vila sobranceiro ao mar, onde as camionetas dos comerciantes esperavam para serem carregadas.

A rampa com algumas barcas da armação

Ao largo ficavam os barcos de pesca, de que falarei mais adiante, que transbordavam o peixe para pequenas embarcações, as típicas aiolas, que o traziam para terra onde a azáfama era enorme. As aiolas a varar na praia, puxadas pelos homens com as calças arregaçadas, aproveitando o auxílio das ondas, a descarga, o alinhamento do peixe na lota, a venda e por fim a corrida dos burros, que ganhavam ao trajecto.
A música de fundo, protagonizada pelos barítonos pregoeiros, era um imenso e inconfundível coro de vozes e gritos dos participantes desta labuta diária. Tudo isto, sublimemente odorizado, com o cheiro do peixe fresco e da maresia de um mar tão generoso.
(continua)

Fotografias retiradas da Net.

sábado, maio 07, 2005


A Fragata D.Fernando e Glória

Para recomeçar as minhas publicações, que vão ser unicamente dedicadas ao Mar, escolhi a história do último exemplar “vivo” da nossa marinha, quando esta, romanticamente, navegava ao sabor do vento. A Fragata D. Fernando
A Fragata "D. Fernando II e Glória", o último grande navio à vela da Marinha Portuguesa e também a última "Nau" a fazer a chamada "Carreira da Índia", durante mais de 3 séculos, fez a ligação entre Portugal e aquela antiga colónia. Foi o último grande navio que os estaleiros do antigo Arsenal Real de Marinha de Damão construíram para a nossa Marinha. A Fragata recebeu o nome de "D.Fernando II e Glória", não só em homenagem a D.Fernando Saxe Coburgo Gota, marido da Rainha D.Maria II, mas também por ter sido entregue à protecção de Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os goeses.
O navio embora construído pelos planos duma fragata de 50 peças, foi de início preparado para receber 60 bocas de fogo, tendo em 1863 / 65 sido transformado para receber só 50, 22 no convés e 28 na bateria. A lotação do navio variava consoante a missão a desempenhar, indo do mínimo de 145 homens na viagem inaugural ao máximo de 379 numa viagem de representação.


A bateria

A Fragata tinha boas qualidades náuticas e de habitabilidade, designadamente no que se refere a desafogo das instalações, aspecto este de suma importância numa época em que ainda se faziam viagens, sem escala, de 3 meses, com 650 pessoas a bordo, incluindo passageiros.
A viagem inaugural, de Goa para Lisboa, teve lugar em 1845, com largada em 2 de Fevereiro e chegada ao Tejo, em 4 de Julho. Desde então, foi utilizada em missões de vários tipos até Setembro de 1865, data em que substituiu a Nau Vasco da Gama, como Escola de Artilharia, tendo ainda, em 1878, efectuado uma viagem de instrução de Guarda-Marinhas aos Açores, que foi a sua última missão no mar, onde teve a oportunidade de salvar a tripulação da barca americana "Laurence Boston" que se incendiara.
Durante os 33 anos em que navegou, percorrendo cerca de 100 mil milhas, correspondentes a quase 5 voltas ao Mundo, a "D.Fernando", como era conhecida, provou ser um navio resistente e de grande utilidade, tendo efectuado numerosas viagens à Índia, a Moçambique e a Angola para levar àqueles antigos territórios portugueses unidades militares do Exército e da Marinha ou colonos e degredados, estes últimos normalmente acompanhados de familiares. Chegou até a levar emigrados políticos espanhóis para os Açores.


Sala de jantar dos oficiais

De entre as missões que lhe foram confiadas, destacam-se a participação como navio-chefe de uma força naval na ocupação de Ambriz, em Angola, que em 1855 se revoltara por instigação da Inglaterra, e, ainda, a colaboração na colonização de Huíla em que, como navio de guerra, teve a insólita e curiosa missão de transportar ovelhas, cavalos e éguas do Cabo da Boa Esperança para Moçamedes (Angola), numa real missão de serviço público. Colaborou, ainda, com o grande sertanejo António Silva Porto, transportando, em 1855, os seus 13 pombeiros da ilha de Moçambique para Benguela, depois destes terem completado a travessia de África, de Benguela à costa de Moçambique.
Em 1889 sofreu profundas alterações para melhor servir como Escola de Artilharia Naval, substituindo-se a antiga e airosa mastreação por três deselegantes mastros inteiriços, com vergas de sinais e construindo-se dois redutos a cada bordo para colocação de peças de artilharia modernas, para instrução, utilização que cessou em 1938.


Uma vista do convés, roda do leme

Em 1940, não estando já em condições de ser utilizada pela Marinha, iniciou uma nova fase da sua vida, fundeada no Tejo, passou a servir como sede da "Obra Social da Fragata D. Fernando", criada para recolher rapazes oriundos de famílias de fracos recursos económicos, que ali recebiam instrução escolar e treino de marinharia, até que, em 1963, um violento incêndio a destruiu em grande parte. Este belo veleiro, que durante anos foi um verdadeiro ex-libris do Tejo e serviu de modelo a muitos pintores, como o Rei D.Carlos, esteve no estuário deste rio encalhado e adornado sobre bombordo, durante 3 décadas, teimando em mostrar que o desgaste natural do tempo se devia sobrepor ao esquecimento dos homens


O resto do casco ardido

Em Janeiro de 1992 o casco do navio foi removido do local onde se encontrava e transportado, em Setembro de 1992, numa doca flutuante para o estaleiro da "Ria-Marine", em Aveiro, para efectuar o restauro estrutural. Estes trabalhos que foram dados por concluídos, em 08 de Abril de 1997, com o lançamento à água da D.Fernando Esta seguiu, depois a reboque, para o Arsenal do Alfeite onde foi feito o aprestamento e o apetrechamento museológico, última fase do projecto de recuperação da Fragata, que foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada em 28 de Abril de 1998. A "D. Fernando" foi entregue ao Museu de Marinha e figura, em cais próprio, na Expo'98, no ano que marca a chegada de Vasco da Gama à Índia, por mar. Como museu vivo que se pretende que seja, a Fragata "D.Fernando II e Glória", para além do apetrechamento próprio de um veleiro do séc. XIX e da reconstituição de cenas da vida de bordo dessa época, vai poder ser utilizada como local de exposições temporárias, de concertos e conferências, utilizando-se para isso o convés, a coberta e a bateria do navio. Serão privilegiadas para a utilização destes espaços as entidades, organismos e empresas que, com o seu contributo financeiro ou de outra natureza, ajudaram a tornar possível este projecto.
A Fragata "D.Fernando" irá ser pois um testemunho eloquente da brilhante história marítima portuguesa, orgulho para as gerações actuais e um exemplo para as gerações futuras.


Texto da Comissão Fragata D. Fernando da autoria de Jorge Pinto e Tiago Andrade e Silva
Fotografias recolhidas na Net