Viagem à Índia (segunda parte)
As pessoas andam nas ruas com ligeireza, com ar bem disposto e sorridentes. Os homens usam normalmente uma calça e camisa com a fralda por fora, ou calça com uma túnica comprida a três quartos, muitos turbantes, bigodes e barbas. As mulheres usam o sari com cores muito variadas o que empresta um colorido especial às ruas.
Nota-se perfeitamente que estamos num país em que as pessoas têm fracos recursos. Mas se isso não invalida que levem uma vida equilibrada, dentro dos seus padrões de rendimentos, claro, muito longe dos padrões da sociedade consumista ocidental, mas também não invalida a existência de uma camada da população que vive na maior das misérias. Isso é verificado pelos inúmeros pedintes, crianças são muitas e adultos, e até fiquei na dúvida se não alguns leprosos. Esta pobreza nos primeiros momentos é um choque pelo aspecto dos pedintes, andrajosos ou quase nus, muito sujos e com o ar de quem passa fome.
Uma coisa aprendi na Índia, a pobreza deles é encarada de maneira diferente da nossa. A pobreza, total falta de bens materiais, faz parte de um ciclo de vida, por isso aceite como um fatalismo. Sendo um país dos mais pobres, não é impunemente que o comunismo nunca lá entrou.
Também podemos ver muitos personagens vestidos ou quase nus, pintados das maneiras mais diversas, normalmente ornamentados com objectos, que lembram o faquir do nosso imaginário.
Muitos adivinhos. É relativamente fácil encontrá-los, muito bem vestidos a rigor indiano, com belos turbantes. Com um ar muito solene e persuasivo, oferecem os seus préstimos num belíssimo inglês, o que torna convite irresistível. A experiência foi fascinante e sobretudo intrigante. Após, não sei explicar como, contarem-nos o nosso passado mais íntimo, técnica para angariar credibilidade, começam a vaticinar o futuro, usando para tal um sistema do qual nunca tinha ouvido falar. Por exemplo: para responder à pergunta se vou casar, ele abre a mão do meu companheiro para verificarmos que nada contêm, depois pede que a feche. Em seguida, já com a mão fechada, ele mostra uma pequena flor, e diz: se isso vier a acontecer esta flor estará dentro da sua mão, após o que deita a flor ao vento com uma sopradela. Passados uns segundo pede para abrir a mão, o meu companheiro que era solteiro, tinha a flor dentro da mão. Tudo isto se passa sobre o meu olhar super atento, mas fiquei sem explicação. Usando sempre o mesmo sistema, as respostas foram-se sucedendo às perguntas, ficando a mão vazia quando a resposta era negativa.
Por cada pergunta pagava-se o que se queria, mas se fosse pouco refilava logo. Um incauto nas mãos destes adivinhos deixa lá a camisa podem crer.
Há diversos mercados de rua, que se encontram com facilidade. Uns serão mais generalistas na oferta, roupa, bijutaria de fazer andar à roda a cabeça das mulheres ocidentais, artigos de decoração, jóias etc. Outros há que são especializados num determinado produto.
Visitei um destes que só vendia tapetes, cobertas e almofadas de uma riqueza de trabalho manual e cores ímpares. A rua era pequena e as vendedoras estavam todas alinhadas com os seus artigos, num só lado da rua. Com a nossa chegada, ocidentais com dinheiro na algibeira e apetência para comprar, o mercado agitou-se com uma algazarra infernal de gritos de oferta e aceno de mercadorias. Não sabíamos para onde nos voltarmos, queríamos ver tudo primeiro, mas as vendedoras penduravam-se em nós não nos deixando quase andar. Quando por fim parámos junto de uma delas e começamos a perguntar os preços, todo o barulho parou. As restantes vendedoras suspenderam a ruidosa oferta, para não perturbar o negócio, aguardando o seu desfecho. Fiquei impressionado pela lição de respeito pelo semelhante. Concretizada a compra, no meu caso umas lindíssimas almofadas, a algazarra da oferta voltou de novo a se ouvir, talvez com mais intensidade ainda, pois já tínhamos provado que estávamos ali não só ver mas para comprar também.
Na Índia também faz parte da cultura regatear o preço. Mas velhota a quem comprei as almofadas estava de cócoras, descalça, com o rosto muito enrugado pelos anos ao Sol, já sem parte dos dentes, cabelo muito grisalho e desalinhado, com um sari escuro, muito velho e roto e com uma cara e modos tão simpáticos, que furei o protocolo, não regateei e paguei logo à primeira o que ela me pediu. No nosso dinheiro o preço era irrisório, ir regatear para quê?
Outro mercado que também me impressionou muito, era uma espécie de centro comercial subterrâneo. Aqui a venda era feita em pequenas lojas só com uma porta sem montras, todas juntas umas às outras de ambos os lados dos estreitos corredores, com os seus artigos expostos no exterior, o que tornava difícil transitar entre elas. O aspecto do conjunto era fascinantemente exótico e embriagante os cheiros muito activos, por ser um recinto fechado, que pairavam no ar. Dentro das lojas, com excepção das de jóias, não havia balcão, todo o negócio era feito sentado no chão sobre um tapete. Para compráramos uma coisa eles insistiam em mostra cinquenta, mas de uma maneira muito personalizada e descritiva. Para muitos talvez fosse uma grande chatice, mas para mim foi delirante.
