sábado, dezembro 04, 2004

Viagem à Índia (terceira parte)



O colonialismo por vezes tem coisas verdadeiramente interessantes. O colonizado admirar colonizador e procurar imitá-lo. Isto passa-se na Índia com a herança colonial inglesa. Os vestígios da presença dos Ingleses na Índia vêm-se a cada esquina, para além da condução à esquerda ou das sumptuosas casas coloniais. A imitação dos Ingleses é uma constante por parte dos Indianos e ainda mais o respeito com que falam deles. São verdadeiros ídolos.
Por curiosidade fomos visitar o principal hotel de Nova Deli. Nunca tinha visto nada assim na minha vida. Estávamos a ver a época vitoriana em todo o seu esplendor combinada com o mais rico sultanato da Índia. Se eu ficara impressionado com os porteiros do meu hotel, quando da minha chegada, aqui nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Parece que a Índia e Inglaterra se digladiaram procurando cada uma delas suplantar a outra em grandiosidade, para formar um conjunto arquitectónico único. Só para dar uma ideia, uma das salas de jantar era a reprodução fiel da selva indiana, com plantas naturais, odores e sons. Pelo meio do arvoredo espraiava-se o mobiliário inglês de estilo vitoriano. As mesas, com loiças e vidros também ingleses, estavam ornamentadas com toque oriental idílico. Qualquer coisa das Mil e Uma Noites, indescritível e inacreditável.
Passou-se comigo um episódio tão simpático, e demonstrador da cordialidade do povo indiano, que não podia deixar contar.
As lojas na Índia não têm nada haver com as nossas lojas ocidentais. São normalmente pequenos ou maiores bazares onde se vende uma miscelânea de artigos. Estando num deles, onde o meu companheiro comprava já não me lembro o quê, enquanto ele procurava o que pretendia eu dava uma vista de olhos pela loja quando me deparei com uma mesa grande cheia de livros.
Ao inspeccionar os livros verifiquei de que tratava de exemplares de dois livros, um com passagens do Bhagavad Gîtâ e outro com versos védicos, ambos ilustrados com fotografias fantásticas de Ashok Dilwali, um dos melhores fotógrafos da Índia.
Como já tinha o Bhagavad Gîtâ e não tinha nenhuma literatura védica, procurei comprar o livro dos versos védicos. Ao perguntar o preço informaram-me que os livros não eram para vender, estavam ali somente para serem embrulhados e destinados a ofertas . O dono dos livros não eram eles. Para esclarecer informo que na Índia comemoravam o Stivali, não tenho a certeza se está bem escrito, que é como o Natal no Ocidente, época de ofertar presentes, o porquê dos livros em questão.
Pedi que entrassem em contacto com o dono dos livros, solicitando que me vendesse o livro que pretendia. Concordaram, pediram o número do telefone do meu hotel, depois me informariam se seria possível ou não a compra.
Quando à noite regressei ao hotel e fui à recepção pedir a chave do quarto, o recepcionista tirou um embrulho debaixo do balcão e entregou-mo, dizendo o que o tinham deixado para mim.
Abri o embrulho e qual não é o meu espanto quando vejo o livro com um cartão do próprio Ashok Dilwali dizendo que era com todo o prazer que me ofertavam o livro. Só na Índia.
Os meus afazeres profissionais levaram-se a sair do centro da cidade e ir mais para a periferia. A Índia das imagens conhecidas estava ali. Ruas estreitas de terra batida, muito sujas, casas de dois ou três andares de construção rudimentar e em muito mal estado, valas junto às casas onde corriam os dejectos caseiros, gentes curiosas de ar pobre que nos espreitavam das janelas ou sentadas nas soleiras das portas, muitas vacas pachorrentas passeavam no meio da rua e até um elefante desdentado, com ar muito velho com o seu cornaca, desfilou diante de nós. Aqui os odores já não tão simpáticos, pois eram uma espécie de mistura de incenso com estrume de vaca que até dava náuseas. Contudo, o mesmo ar misterioso da Índia continuava a pairar.
Não sei explicar ao certo a sensação, estava fascinado com exotismo esotérico que sentia mas não compreendia. Na Índia tudo é esmagador mesmo a miséria.
Claro como não podia deixar de ser, a Índia é uma terra de grandes contrastes. No meio desta amalgama de casa pobres estava instalada uma moderna unidade fabril, linhas modernas e ocidentais, cercada por um belo jardim, com três ou quatro carros parados à porta dos quais se destacava um jaguar de modelo recente, uma espécie de oásis naquele mar de miséria. Depois de entrar percebi o motivo da localização. Todo o trabalho manual era feito pelas gentes das casa ao redor. Aqui como noutros lados fomos recebidos com toda a cortesia indiana a qual tentavam emprestar a eficiência britânica.
Uma visita de trabalho não é a mesma coisa que uma visita turística, e se bem que diligenciasse ao máximo ver tudo o que me fosse possível, muita coisa ficou por ver em Nova Deli, contudo, uma visita era indispensável, uma ida ao Taj Mahal.
Assim aconteceu no último sábado da minha estadia, já com os negócios todos tratados,
saímos do hotel cerca das seis horas da manhã, no carro alugado, para percorrer cerca de 300 quilómetros até Agra, onde fica o Taj Mahal. A viagem foi espectacular. Todo o percurso é acompanhado de casario pobre, entremeado de monumentos religiosos imponentes, montanhas de macacos, búfalos, camelos, elefantes. Os triciclos como os existentes em Nova Deli, são o único meio de transporte colectivo, mudam de aspecto conforme as terras. Numas tinham um formato noutras outro, variavam também as cores, sendo todos iguais na mesma terra.
Nas planícies que ladeavam a estrada a agricultura era mecanizada e intensiva, apresentando grandes áreas de cultivo. Por meio de um trânsito infernal de camionetas lá chegamos ao fim da manhã a Agra.
O Taj Mahal é um sepulcro que foi construído dentro de um palácio. As fotografias, os vídeos ou os filmes, não conseguem mostrar a beleza impressionante deste monumento. A finíssima arquitectura com o requinte que só a cultura islâmica sabe dar, a cor branca muito alva do seu mármore, vai mudando de cor conforme o dia decorre até ficar alaranjada no por do Sol. Os azulejos feitos à mão provenientes de toda a parte do mundo, os baixos relevos, os rendilhados, a sua abóbada cravejada de diamantes, que os ingleses saquearam, fazem deste monumento a mais bela dávida de amor.
Outra lição que os Indianos nos dão é o carinho pelos seus monumentos. No dia em que efectuei a visita estavam-no a fazer também milhares de Indianos, deslumbrados por aquela beleza alva que se destacava contra ao céu azul. Segundo me disseram a romaria era igual todos os dias.
No regresso ainda fui visitar o Forte Vermelho, também Agra. Fortaleza impressionante pelas suas dimensões. Muralhas com dez metros de largura, estendem-se por um perímetro de 2, 3 quilómetros, lembrando o esplendor do período mongol . Dentro das muralhas encontramos diversos palácios, qual o mais impressionante, mandados construir, sucessivamente, pelos seus ocupantes. Foi a morada de inúmeros marajás e do último governador inglês da Índia.
No dia seguinte, Domingo, regressei a Portugal. Durante o caminho para o aeroporto o motorista chamou-nos à atenção para a estátua de Ghandi. A estátua mais impressionante que vi até hoje. Tem alma.
Esta visita não sendo a ideal, serviu para me abrir ainda mais o desejo de lá voltar o mais breve possível.
A Índia não é uma terra de meios termos. Ou se ama ou se odeia. Eu fiquei apaixonado.





14 Comments:

Blogger Alarvo said...

estou sem palavras. a sua memória descritiva e como a põe em palavras mais vontade me dá de visitar a India. Porém acho que ainda não tenho estomago para isso. Primeiro ainda quero andar pelo mundo mais civilizado embora não turistico. Inté

5:23 da tarde  
Blogger BlueShell said...

olha, tenho visto muitos documentários na tv ....mas cm tanto "visualismo"...nem na tv. E se já tinha vontade de l~´a ir...com mais fiquei...jinhs BS

8:46 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Também eu me sinto, se possível, ainda com maior vontade de lá ir. Foi uma óptima leitura, esta tua descrição da viagem à India, que também possibilitou ver a que é que prestáste atenção, e como!
Beijo, venha mais!
Ana Maria

9:57 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Obrigada por estes posts que aumentaram a minha vontade de visitar a Índia.

hfm
http://linhadecabotagem.blogspot.com

9:01 da manhã  
Blogger Alexandre Narciso said...

Como já te devo ter dito, India é um dos meus destinos de eleição. Está para breve. Estou a gostar imenso das tuas cronicas. Um relato de facil visualização. Parabens.
Abraço

10:52 da manhã  
Blogger Luís N said...

Estes textos, e sobretudo o final deste, recordaram-me um livro que ofereceram, e que deves ter lido: Índia-um olhar amoroso, de Jean-Claude Carriére.

7:08 da tarde  
Blogger jorge said...

amigo miss!:
a india é daqueles sítios que nunca me atraíram muito,
apesar de alguns aspectos da sua cultura serem bastante interessantes. Nem os tantos relatos de amigos vários
que lá estiveram me entusiamaram grandemente, coisa que estes teus textos testemunhos estão a fazer!!
a história do livro é deliciosa!
como lidas com a extrema pobreza ali banalizada?
incomodam-me as "pequenas amostras" que por cá vão aumentando, acho que me chocaria muito ver coisas que lá são "normais".
abraço.

1:20 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O CRIME QUASE PERFEITO

Um ex-militar já falecido, deixou ao neto uns documentos que dizia serem muito importantes e só poderiam ser abertos 10 anos após a sua morte. Até lá o neto receberia por mês 800 contos, que acabariam ao fim desses 10 anos ou se os documentos fossem abertos antes.
O senhor morreu no dia 28/12/1994!
No dia 1 de cada mês era depositado o dinheiro!

Os Documentos referiam-se ao Acidente de Camarate!

Acto 1 - Perguntas Soltas

1 - Porque é que na altura do desastre Freitas do Amaral veio a correr à televisão dizer que tinha sido um acidente ?

2 - Porque é que Ramalho Eanes ordenou o cerco total ao Local do Acidente por tropas e só 3 dias depois é que os investigadores tiveram acesso aos destroços ?

3 - Porque é que andaram 5 jipes toda a noite a fazer buscas na área da pista ?

4 - Porque é que Ramalho Eanes se esqueceu das queixas que os alunos da Casa Pia lhe fizeram sobre a pedófilia, quando os visitou ?

5 - Porque é que Freitas deu uma reviravolta política na sua vida ?

6 - Porque é que Freitas não se zangou com Mário Soares quando disputou com ele a Cadeira de Belém e na última entrevista Soares chamou-lhe Fascista ?

7 - Que relação tem isto tudo com o célebre "Relatório da Linha do Estoril" - Actividade ostensiva no Palacete Leacock, divulgado pelo SIR ? Já iniciada a divulgação!

8 - Quem fazia parte da Secção V que se reunia no quarto com as iniciais LCN na porta ? Já iniciada a divulgação !

10 - Porque é que a maior parte dos políticos fez o possível e o impossível para arquivar o processo ?

Fim do resumo do 1º Acto

Acto 2 – O Padrinho chamado Eanes

1 – Algum tempo após a morte de Sá Carneiro o Governo de Maioria Absoluta é dissolvido pelo Presidente Eanes. Agora passou-se o mesmo com Sampaio. A ligá-los estará o Caso Camarate?

2 – Pinto da Costa tem como principal acusação a lavagem de dinheiro. Será que a lavagem se estendeu ao Fundo do Ultramar, cujo principal responsável foi o Eanes?

3 – Eanes foi à festa do Pinto da Costa por amizade ou por medo?

4 – O mesmo medo que o fez afirmar que desconhecia as queixas dos alunos da Casa Pia?

5 – Haverá implicações no prosseguimento da Investigação ao Atentado de Camarate com a dissolução da Assembleia?

6 - Que relação tem isto tudo com o célebre "Relatório da Linha do Estoril" - Actividade ostensiva no Palacete Leacock, divulgado pelo SIR ? Seria Eanes o Soprano da secção V? Já iniciada a divulgação!

7 – E Soares, o que sabe sobre isto? Mota Pinto morreu de ataque cardíaco por “causas externas”, segundo diz o relatório da autópsia. Que “causas externas” serão estas?


Fim do resumo do 2º Acto

Mais na sua R.I.A.P.A


www.riapa.no.sapo.pt

10:41 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá Alarvo
Se um dia for à Índia, dar-me-á razãp, tenho a certeza.
Um abraço. Augusto

Olá BlueShell
Obrigado pela visita e pelo comentário
Um abraço. Augusto

Olá Águas de Março
Ir à Índia é sairmos do materialismo e penetramos no espiritual, no exotérico.
Um abraço. Augusto

Olá Linha de Cabotagem
Vá e não se esqueça de passear no Ganges, ainda lá não fui, mas se lá voltar um dia, é a primeira coisa que farei.
Um abraço. Augusto

Olá Alexandre Narciso
Antecipe a partida o mais possível. Vai ficar encantado.
Um abraço. Augusto

Olá Luis
Não conheço Jean-Claude Carriére, obrigado pela dica, vou comprara o livro.
Um abraço. Augusto

Olá Jorge
Para se interpretar a Índia, na minha opinião, deve-se ler um pouco da sua história, cultura e religião, antes de ir, preparação fundamental para compreender aquelas gentes. Sem isso, a Índia é vista como mais um destino turístico unicamente, ficando a nossa apreciação circunscrita ao olhar.
Aí é que está, a pobreza na Índia não é banalizada, e como digo no texto, o comunismo nunca lá entrou, a alguma razão se deve.
"Amigo miss!" Como já compreendeu sou um homem, já não muito novo, prefiro classificar-me assim. O misswyoming foi uma fantasia da minha mulher quando abri o blog.
Um abraço. Augusto

12:15 da tarde  
Blogger paopbocca said...

caro Augusto continuo a diliciar-me com as suas viagens, achei curioso aquele relato da oferta do livro. inimaginável no mundo de hoje.
obrigado pelo link, tanbém já habita na minha casa:)

6:39 da tarde  
Blogger chemistry said...

Continuo a viajar contigo, pena não teres fotografias para ilustrar, mesmo tiradas por ti. Aposto que tens.
Abraço

7:00 da tarde  
Blogger jorge said...

peço já desculpa se o "amigo miss!" foi pouco feliz!
não tinha qualquer tipo de subtexto, achei piada ao jogo de géneros.
é mesmo verdade que convém mergulhar na cultura de um povo como preludio de uma visita, sobretudo quando as distâncias geográficas são metáfora para distâncias outras mais profundas...
não tenho uma atitude turistica no sentido estrito quando viajo (bem, à uns anitos houve duas semanas em maiorca mais para sentir o sol e meter os pés no mar a matar saudades do español num merecido chill out ...),
mas também lhe digo que o olhar (e há olhar e olhares...) muitas vezes não só não circunscreve como revela raízes fundas e lados vários de uma cultura...
devo confessar que (e como sagitário q sou...) a viagem é uma parte fundamental e imprescindivel da minha vida, uma necessidade, quase uma ãnsia(...). infelizmente por motivos profissionais (2 restaurantes!) nos últimos tempos não tenho conseguido viver esse lado, mas estão tempos de mudança e a vingança será deliciosa !...
abraço!
ps- você pode já não ser novo mas é jovem o q é bem mais importante...

11:43 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá paopboca
Só vou acrescentar uma palavra ao seu comentário.
A oferta do livro, inimaginável no mundo "Ocidental" de hoje.
Um abraço. Augusto

Olá wearetwo
Ter fotografias tenho, mas não sei como colocá-las no post. Vou ver se alguém me ensina para que o próximo relato possa ser ilustrado.
Um abraço. Augusto

Olá Jorge
Pelo amor de Deus não tem nada que pedir desculpas, se alguém está em falta, esse alguém sou eu com a confusão de géneros.
Mais tarde vou relater outra viagem que fiz, a outra das minhas paixões. Itália, romana e renascentista.
Um abraço. Augusto

8:54 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

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2:48 da manhã  

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