quarta-feira, dezembro 15, 2004

O Jesus "desconhecido"



Dos quatro Evangelhos, segundo S. Mateus, S. Lucas, S. Marcos e S. João, só os dois primeiros fazem uma abordagem, não muito esclarecedora e por vezes discordante, ao nascimento e infância de Jesus, até aos 12 anos de idade.
Os dezasseis anos sequentes até o seu reaparecimento com 28 anos, são completamente omitidos no Novo Testamento, deixando em aberto, todas as conjecturas e hipóteses possíveis.
Nesta perspectiva não relego o ensejo de apresentar a minha opinião sobre esse tempo desconhecido da vida de Jesus, propondo uma hipótese, para o preenchimento desse espaço vazio, fundamental na sua vida.

Apesar da dominação política da Judeia pelos estrangeiros, o judaísmo manteve quase sempre intactas as suas instituições religiosas.
Os principais grupos organizados entre os Judeus eram o dos Saduceus e o dos Fariseus.
O primeiro, integrado por sacerdotes e aristocratas, exerciam grande influência política e económica e mantinham boas relações com Roma. Embora seguissem estritamente a lei mosaica, os Saduceus, fortemente impregnados da cultura helénica, negavam a vida após a morte e o messianismo.
Os fariseus tinham mais preocupações religiosas que políticas Faziam um esforço para manter viva a fé judaica longe de todo o contacto com a paganismo. Acreditavam na vida eterna e eram ardorosos na sua esperança messiânica.
Havia também pequenos grupos de vida mística, reunidos em comunidades de fé e trabalho. Um dos mais importantes desses grupos era a comunidade de Qum ran, radicada na margem do mar Morto, vinculada aos Essénios.
Tais comunidades observavam a lei, mantinham rituais de purificação periódica, renovavam constantemente a sua adesão à aliança com Deus e participavam de uma refeição sagrada de pão e vinho. Acreditavam no estabelecimento próximo de um reino trazido por um novo profeta.
Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, os Essénios existiam desde o ano 150 a.C. Aceitavam na imortalidade da alma e o castigo ou recompensa após a morte. Tanto João Batista como Jesus Cristo pertenceram à comunidade dos Essénios.
A influência predominante entre as camadas mais cultas da população era, contudo, a do pensamento filosófico grego. As virtudes naturais ensinadas por Sócrates, a ideia da imortalidade da alma, de Platão, a fagulha divina e o logos de Aristóteles foram algumas das ideias que moldaram o futuro pensamento cristão.

É neste contexto que vamos ao encontro de José e Maria, em Nazaré, a conversar com um velho rabino, que ficara espantado com as aptidões demonstradas por Jesus, quando da sua conversa com os doutores do Templo em Jerusalém.
Para o velho estudioso, a vida de carpinteiro que lhe estava reservada na companhia de seus pais, não estava adequada aos seus conhecimentos, que mereciam muito mais. Tentava o velho rabino convencer José e Maria a deixarem o filho ir estudar com os letrados da tribo.
Convencidos os pais, da melhor perspectiva de vida para o filho, Jesus passou os seis anos seguintes em aprendizagem com os anciãos, demonstrando cada vez mais a sua inteligência e intuição para a compreensão do pensamento grego.
Aos dezoito anos, não havendo mais nada de novo para aprender, e notabilizado pelo seu saber, os anciãos da tribo, resolvem proporcionar-lhe a continuação dos seus estudos, no maior centro cultural da época, Alexandria.

Em Alexandria, por empenhamento dos anciãos da sua tribo, entra em contacto com Fílon, o principal representante da escola filosófica de Alexandria. Fílon, filósofo judeu, eminente representante da cultura judaica helenística, tentou a harmonização dos ensinamentos do judaísmo com os princípios do pensamento grego, em especial platónico e estóico.
É junto de Fílon que Jesus passará os próximos dez anos em Alexandria, estudando os filósofos gregos, que lhe moldarão a maneira de pensar, agir e conceber o mundo.
No estoicismo encontrou o modelo ético para a sua vida. O estoicismo, foi criado por Zenão de Cítio por volta do ano 300 a.C., pela necessidade de um guia moral na época de transição da Grécia clássica para a helenística.
A capacidade do homem de pensar, projectar e falar está amplamente incorporada ao universo. A natureza cósmica ou Deus e o homem relacionam-se um com o outro, intimamente, como agentes racionais.( Deus é o pai).
Esta filosofia afirma que sabedoria reside na aceitação serena de todas as contingências da vida, vivendo em harmonia com a ordem natural das coisas.
Pelo platonismo reconhece Deus como o ser em si, ainda quer também como um ser puro, identificável com o Bem ou a Ideia das Ideias (Platão): o homem só pode chegar até Ele pelo êxtase ou intuição.
Entre Deus e o cosmos material existem «intermediários» que conservam entre si uma relação hierarquia. Imediatamente de pois de Deus está o logos, lugar das ideias que equivale à palavra ou voz de Deus que permite a formação do mundo sensível a partir das ideias inteligíveis nele contidas e que servem de modelo (concepção do Espírito Santo). Depois do Logos, situam-se a sabedoria divina, o homem divino, o espírito e os anjos.
A noção de uma fonte universal e modeladora de tudo o que existe, uma alma inteligente que se expressa na razão humana, isto é, o próprio Deus dentro de cada um.(O homem filho de Deus)
Também não lhe vão ser estranhos Sócrates, Aristóteles e Diógenes na formação do seu carácter e na contribuição do seu próprio pensamento filosófico.
Durante os dez anos que passou em Alexandria, com a influência de Fílon, faz uma simbiose do pensamento judaico com o pensamento grego, da qual resultará a sua filosofia de vida, baseada fundamentalmente no amor pelo próximo e no desaparecimento de classes sociais e na justiça social.
Aos 28 anos, homem feito, detentor do seu próprio pensamento, resolve abandonar Alexandria, regressar à Galileia, e divulgar o seu conceito de vida, completamente revolucionário para a época.
Uma vez chegado à galileia, à semelhança dos gregos, forma também a sua escola peripatética, dando início à divulgação das suas ideias.
Dirigindo-se aos mais desprotegidos, é nestes que as suas ideias encontram eco, para a formação de um sociedade mais justa. É o homem que fala para o homem, a divinação veio mais tarde.

11 Comments:

Blogger Alexandre Narciso said...

Excelente trabalho de investigação e de divulgação. Os meus Parabens!
Abraço

9:09 da manhã  
Blogger chemistry said...

Faço minhas as palavras do Alexandre: excelente trabalho de pesquisa. Vê-se que és um estudioso na matéria.
O homem que fala para o homem és tu.
Parabéns por mais este excelente trabalho.

5:10 da tarde  
Blogger paopbocca said...

por acaso já tinha pensado nesses dezasseis anos mesteriosamente omitidos. a explicação que daz do que poderão ter sido esses anos é deveras interessante, aprecio imenso a tua dialéctica e oteu conhecimento.
deveras impressionante.
admiro bastante a tua escrita.
tens aqui um admirador.
parabéns!

5:38 da tarde  
Blogger jorge said...

venho para a bicha dos abraços deixar o meu!: texto muito muito interessante. parece-me que você está embalado no tema portanto vou voltando à procura de boas novas! outro abraço.

1:05 da manhã  
Blogger Águas de Março said...

Pois Augusto... que posso dizer?
É possível que de facto esses 16 anos possam ter sido preenchidos dessa maneira, sobretudo se pensarmos que a possibilidade de continuar o aprendizado tenha sido subsidiada pelos anciãos, já que, ao que sabemos, Jose como carpinteiro não teria possibilidades para tal. Assim sendo, tudo é possível. Possível, mas infelizmente permanecendo improvável..
Todavia a linha que o Augusto segue apresenta um trajecto bastante lógico. Quem sabe até, com algumas alterações aqui e ali, não tenha sido mesmo assim?
Belo texto!
Beijo,
Ana Maria

11:21 da manhã  
Blogger AnaP said...

Pois... Jesus e a sua vida hão-de permanecer sempre envoltos numa aura de mistério. Mas por vezes penso que muitos dos segredos de Jesus podem ser encontrados a partir de um conhecimento da história do seu tempo e da sua cultura. Há dogmas que nos são impostos e que vão contra a natureza social da época. Porque, que eu saiba, Jesus foi punido por defender ideias muito pouco populares ainda hoje. Mas nada diz que ele fosse um homem completamente alienado das suas referências sócio-culturais. Ele defendeu pontos de vista revolucionários e, nessa perspectiva, foi então um homem notável. Morreu por aquilo em que acreditava, como muitos outros homens morreram ao longo da história. Mas, tal como muitos homens e mulheres que nos deixaram a sua marca, terá vivido dentro dos preceitos culturais. Bem... não sei se estou a fazer muito sentido, Augusto. Mas olha... aqui fica a minha modésta opinião. Beijinhos e um Natal muito feliz :-) (p.s. já agora o Natal apenas é um nome dado a um festejo que tem lugar há muitos séculos na Europa... mas como eram festejos pagãos, toma lá o menino jesus, o pai natal e as prendas... acho que agora está mais pagão do que antes... Beijos)***

10:15 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Antes de mais nada, Muito Obrigado por mais esta partilha.

Para ler os teus textos, necessito tomar fôlego, para não perder uma única palavra.

Um grande Abraço,

11:50 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Como assim? Eu sempre GOSTEI dos teus comentários. Qualquer ideia contrária só pode ser um enorme equívoco... BEIJO amigo, BSell (a concha que por ser azul...não existe, ou existe?) heheeh, 'tou a brincar...

5:48 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Alexandre Narciso
Obrigado pela visita e comentário. Aproveito a oportunidade para lhe dizer que gosto muito do seu blog.
Um abraço. Augusto

Olá Wearetwo
Se eu sou o homem que fala para o homem, vocês todos que me honram com a vosso visita e comentário são o HOMEM para quem eu falo.

Olá paopbocca
Penso que a omissão é propositada, por isso a minha hipótese se basei num Jesus que fez a sua aprendizagem filosófica, o que contraria completamente a figura sagrada que criaram dele.
Um abraço. Augusto

Olá Jorge
Por agora, a respeito de Jesus vou ficar por aqui, mas prometo voltar ao assunto mais tarde. Apresentei estes textos agora porque penso que se enquadram na quadra.
Um abraço. Augusto

Olá Águas de Março
É apenas uma hipótese, Ana Maria, e até pode estar completamente errada, mas que ele fez alguma aprendizagem, isso fez. Não devemos esquecer de que ele era um homem como nós, por isso não nasceu ensinado.
Um abraço. Augusto

Olá Anap
Viva, bons olhos a leiam, há já algum tempo que não tinha o prazer da sua visita.
O que diz no seu comentário faz muito sentido, é abase do meu texto.
O que interessa é o significado do Natal. O espírito natalício é um legado daquele que é celebrado, pena é que o tenham adulterado.
Um abraço. Augusto

Olá Fernando
Eu sei que os textos não são muito pequenos, mas se não explicamos o nosso raciocínio, este fica uma coisa sem pés nem cabeça.
Um abraço. Augusto

Olá BlueShell
As conchas como coisas belas que são, podem ter todas as cores da nossa imaginação.
Um abraço. Augusto

6:30 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bem, busque saer se na biblioteca havia algum texto oriental ou coisa do tipo! Uma vez que Jesus pronunciou a mesma frase pronunciada 500 anos antes por Sidharta Gautama: SE te tapiarem numa das faces, ofereça a outra!

8:19 da tarde  
Anonymous Demerval said...

Começamos a edificação do mundo ideal pensado por Filon e Jesus atravéz de gestos simples como esta sua iniciativa de projetar uma realidade histórica, digamos eternizada porque factuosa...

Demerval Mendes Ferreira (estudante de filosofia/Uberlandia-MG/BR)

9:08 da manhã  

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