quarta-feira, dezembro 08, 2004

Jesus "histórico"



Se a existência de Jesus Cristo nunca foi posta em causa por nenhum estudioso, o mesmo já não se pode dizer da sua união da divindade e da humanidade numa mesma pessoa, conforme transparece de todo o conteúdo do Novo Testamento. O Jesus “histórico”, que nasceu, viveu e morreu crucificado na Palestina, e o Cristo que expressa a transcendência divina dessa mesma pessoa, que foi ressuscitada por Deus e elevada à dignidade de Senhor do mundo.
A relação entre o Jesus “histórico” e o Cristo da fé constitui um dos maiores problemas que se propõem à teologia.
É muito difícil escrever uma biografia do Jesus “histórico”. Não se conhece qualquer fonte historiográfica neutra sobre Jesus nazareno. Os historiadores romanos Tácito e Surtório, bem como o historiador judeu Flávio Josefo, nada dizem sobre a sua pessoa.
Assim a única fonte para estabelecer uma vida de Cristo é o Novo Testamento, os Quatro Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo. O testemunho de fé da Igreja primitiva, contido nos livros, é a única fonte existente, mas a figura ali descrita não é o Jesus “histórico”, como ele era em si mesmo, mas aquilo que Jesus significava para os que acreditavam na sua ressurreição, contudo, as discrições de homens, costumes e lugares comprovam as informações do Novo Testamento.
Deste modo, o Novo Testamento não é uma fonte histórica, mas a reunião de factos vividos por Jesus e a confissão de fé no Cristo. Não se conhece uma única frase de Jesus nem uma simples narração sobre ele que não contenham, ao mesmo tempo, a profissão de fé da comunidade crente.
O Novo Testamento foi em grande parte criado pelas primitivas comunidades cristãs, que nele colocaram as suas próprias concepções e a idealização de seus interesses, projectando-os no passado, na vida de seu fundador. Na base da fé destas primeiras comunidades estava a esperança na ressurreição de Cristo e o seu consequente retorno, apregoado por Paulo. Esta força motora da nova religião, levou sem dúvida à criação do Cristo mítico, não o que ele foi mas quilo que se queria que tivesse sido.
Esta esperança, forma a tradição cristã original de que Jesus Cristo teria sido o Salvador, o Filho de Deus feito homem com a missão de sofrer e morrer como os homens e resgatar com o seu sacrifício os pecados da humanidade. Humanizava a sua divindade, espiritualizando a humanidade.
A crença é baseada em factos, como a sepultura, túmulo vazio e as aparições após a ressurreição. Não são apresentados argumentos, mas testemunhas, que são apenas os seus seguidores. É um problema de aceitação pessoal, um problema de fé.
Nem sempre as narrações do Novo Testamento são coincidentes: Os escritos fragmentados e que são acrescentados de sucessivas adições, leva própria Igreja sentir dificuldades em encontrar os verdadeiros autores dos Evangelhos, daí a fórmula por ela adoptada: Evangelho segundo…
Mesmo recusando-lhe a divindade, Jesus foi o mais extraordinário vulto de todos os tempos. O primeiro filósofo a por em prática o mais elevado conceito de Ética.
A sua figura, feita de terrível autoridade e grande doçura, a figura do irado profeta que expulsou os vendilhões do Templo e do doce pregador do Sermão da Montanha, tornou-se famosa pelo estilo oratório simples e incisivo, pela suave força da sua doutrina quanto às relações com Deus e os semelhantes, pela fraternidade universal, pelas reacções contra o sectarismo e o ritualismo dos fariseus e sacerdotes, e, finalmente, pela exaltação dos humildes, dos bons e dos pobres.
Sendo judeu, a sua mensagem, contudo, não era a mesma dos antigos profetas.

O que tornou único o ensinamento de Jesus foi a importância suprema que Ele deu ao amor. Nunca antes o amor fora feito base de um sistema de ética, aspecto essencial da boa vontade de Deus para com os homens, e de o homem para com o homem, nem o seu sentido se mostrara tão amplo.
Pois o amor, como Jesus o entedia, fraternidade e bondade, não era um dever medido, mas uma doação alegre e total de cada acto. O verdadeiro amor não tem espaço justificado para o egoísmo e não conhece reservas, nem mesmo diante do inimigo. A afirmação do amor sem limites entre homens, “ama o próximo como a ti próprio”, desperta a consciência do valor absoluto da pessoa humana e serve para a crítica e a contestação de situações sociais injustas e para a construção de um mundo verdadeiramente fraterno.
Toda a sua doutrina pode ser resumida em: não faças aos outros o que não queres que te façam, e faz aos outros o que queres que te façam.
As ideias de Jesus Cristo, que o Império Romano do seu tempo mal escutou e que, nenhum historiador romano anotou, continuam vivas ainda no mundo actual.
Sendo o amor o primeiro e o maior dos Mandamentos, a moralidade era bem mais importante de que os ritos de culto. Uma exibição exterior de religião sem o íntimo de devoção ao princípio de caridade não passava de hipocrisia, e esta era um dos piores pecados.
Com isto quis dizer que a religião não é necessária para se praticar o bem. O que impera é a vontade inata de o fazer.



23 Comments:

Blogger Alarvo said...

"...a vontade inata de o fazer" - não podia estar mais de acordo
pena que o dinheiro se sobreponha sempre a algo tão simples como fazer o bem
Inté!

9:34 da tarde  
Blogger jorge said...

você é tramado!!!:
belo texto! totalmente de acordo!
talvez seja contraditório que eu seja agnóstico e simultaneamente acredite nessa transcendência (nao direi divina pronto!), expressa por cristo em vida.
foi realmente talvez A maior figura de todos os tempos.
o maior poeta, o maior politico, o melhor homem...
já á uns bons anos li um livro precisamente sobre a questão q levanta: O cristo e jesus de nazaré, o homem e o filho de deus. já por várias vezes me tentei lembrar do autor ou titulo do livro (a minha memória tem uma selectividade irritante...) e agora daria jeito para lho recomendar pois é muito interessante. apesar do escritor ser também não crente, a homenagem prestada ao lado transcendente da figura é de uma beleza rara...
abraço!

12:04 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Na minha opinião, essas análises feitas por não crentes são por vezes as mais credíveis, posto que são feitas a partir dos factos concretos que se conhecem, despidos de sentimentalismos e filosofias extáticas. Desde que feitas com seriedade, claro.
Esqueceste-te de mencionar os textos apócrifos, Augusto, que embora não reconhecidos, também trazem uma pequena contribuição, não?
Quanto ao resto, estou de acordo com o que referes. E sobretudo a tua conclusão: A religião não é necessária para se practicar o bem. O que impera é a vontade inata de o fazer.
Beijo,
Ana Maria

2:42 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Prezado Augusto,

Como sempre, um magnifico texto para reflectir.

Para não estar a repetir, subscrevo os comentários dos três Amigos que me antecederam.

Um grande Abraço,

7:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Fernando Pessoa

8:29 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

oops, esqueci-me de assinar, o poema Ulisses do Pessoa é da minha reponsabilidade.
dinah

8:30 da tarde  
Blogger olhardemim said...

Ó Deus ignoto, Deus sempre encoberto,
Diz-me, Senhor,
Poque criaste a gente?
Porque foi que o melhor
Morreu crucificado,
Se a vida não melhora!...Se o mundo é sempre igual!?
Diz-me, Senhor,
Porque criaste a gente?

Porque estranha vaidade?
Para teres alguém,
Alguém que te adulasse,
Só porque a solidão já te pesasse?
Pára de ser amado
E ama tu próprio um pouco!

Deixo-te esta rima que não tem, talvez, muito a ver com o teu texto, ou talvez tenha tudo...
Bom fim de semana, Augusto.
st

7:11 da tarde  
Blogger stillforty said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

12:18 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Alarvo
Nem sempre o dinheiro é condição fundamental para se fazer o bem.
Um bom fim de semana. Augusto

Olá Jorge
Tramado eu? Então aqui fica o convite para ver o meu próximo post. Depois conversamos.
Um bom fim de semana. Augusto

Olá Águas de Março
Efectivamente também os textos apócrifos, que escritos depois da época dos acontecimentos, tais como os outros, não passam de mera especulação, para servir interesses. Não perca o próximo texto
Um bom fim de semana. Augusto

Olá Fernando
Para quando mais Caminhos da Suástica? Estamos à espera.
Um bom fim de semana. Augusto

Olá Dinah
Um poema lindíssimo e oportuno de Fernando Pessoa, para comentar o meu post. Obrigado
Um bom fim de semana. Augusto

Olá Streetguru
Pelo contrário tem muito a haver. O meu texto é uma tentativa, indirecta, de responder aos anseios do poema, aliás muito bem conseguido. Parabéns.
Um bom fim de semana. Augusto

3:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Há pouco tempo vi um excelente documentário na televisão sobre o tema de Jesus histório e de Jesus "evanlégico". Acho um tema aliciante. Tenho pena de não possuir conhecimentos para poder acrescentar algo. Mas todos os dias são dias de aprender. Um abraço.

Alves Fernandes
(o do blog dos botões)

7:53 da tarde  
Blogger BlueShell said...

As coisas que este rapaz sabe...
Mas sim, é um bom texto para reflexão...Bjs: BS

3:40 da tarde  
Blogger chemistry said...

Evidentemente, concordo contigo quando dizes que a religião não é fundamental para se praticar o bem, embora toda a religião dita católica, ou a sua doutrina, nos pregue o fazer o bem sem olhar a quem.
Jesus é uma figura incontornável a que não podemos fugir, acima de tudo foi um democrata, ou um socialista, entre aspas, a igualdade, fraternidade foi a sua doutrina, mais tarde seria deturpada pelos seus auto-proclamados seguidores. Mas isso são outras histórias.
Boa semana de trabalho.

1:25 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá BlueShell
Cá o rapaz sabe umas coisas sim senhor.
Um abraço. Augusto

Olá Wearetwo
Jesus foi acima de tudo, um homem cuja a doutrina se baseia no amor pelo próximo.
Um abraço. Augusto

9:11 da tarde  
Blogger polittikus said...

Peço imensa desculpa mas não vou proferir qualquer palavra acerca do assunto, pois como agnóstico tenho alguma dificuldade em compreender crenças religiosas. (mais uma vez peço desculpa)

5:22 da tarde  
Blogger augustoM said...

O meu texto é sobretudo um texto agnóstico que procura uma explicação para lá da crença religiosa.
Um abraço. Augusto

9:06 da tarde  
Blogger oasis dossonhos said...

Olá Augusto!Bem Haja pela partilha de mais este texto.Não me importo de repetir: gosto de ler o seu blog.As noites, depois de um dia de trabalho e antes de mais algumas horas a preparar uma tese em regime eremita são mais energéticas depois de visitarmos estes sítios onde a alma se lava e voa.
Abraço
Luís

10:13 da tarde  
Blogger oasis dossonhos said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

10:13 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Já vi que sim...
Venho apenas agradecer as simpáticas palavras deixadas no comentário...e claro, vinha ver se havia Mais...Jinhos, BShell

5:41 da tarde  
Blogger polifonias said...

Li algures que o maior problema que se coloca à teologia é o facto de jesus ter ou não intestinos. O salvador obrava ou não? Tinha boca, comia, tinha estomago, tinha intestinos...obrava....

e deus? aquele velhote de barba branca(e não falo do Pai Natal) tinha intestinos? obrava?

abraço
JQ

ps- apareçe no polifonias, é preciso alguem para fazer comentários dignificantes. www.polifonias.blogspot.com

12:07 da tarde  
Blogger Ivani said...

Afinal, Jesus Cristo é uma figura histórica ou não? Do ponto de vista da fé isso pouco importa. De fato, ele existe e funciona muito bem na vida dos crentes. Do ponto de vista da História ele só existe na história da Igreja e na História Universal. Entretanto, isso não é o bastante para afirmá-lo como uma figura histórica. Por quê? Essa polêmica é antiga e os detratores do Cristianismo muito se ocuparam em buscar contradições na história cristã, ao invés de se concentrarem propriamente na História. O problema está na origem, quando os gregos tentaram fazer da fé História, criando um problema ético de difícil solução. A História Universal nasceu assim, para confirmar a cultura cristã. Nada acontece sem uns bons motivos e a história de Jesus Cristo não é exceção.

12:02 da tarde  
Blogger Ivani said...

Afinal, Jesus Cristo é uma figura histórica ou não? Do ponto de vista da fé isso pouco importa. De fato, ele existe e funciona muito bem na vida dos crentes. Do ponto de vista da História ele só existe na história da Igreja e na História Universal. Entretanto, isso não é o bastante para afirmá-lo como uma figura histórica. Por quê? Essa polêmica é antiga e os detratores do Cristianismo muito se ocuparam em buscar contradições na história cristã, ao invés de se concentrarem propriamente na História. O problema está na origem, quando os gregos tentaram fazer da fé História, criando um problema ético de difícil solução. A História Universal nasceu assim, para confirmar a cultura cristã. Nada acontece sem uns bons motivos e a história de Jesus Cristo não é exceção.

12:02 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bruno Bauer (1809-1882), filósofo, teólogo e historiador alemão, licenciado em teologia lecionava na universidade de Bonn. Por ser um investigador minucioso e um estudioso intelectualmente honesto, depois de investigar as fontes do Novo Testamento chegou à conclusão de que este livro era mais grego do que judeu e que Jesus Cristo era um mito criado no segundo século. Por causa disso perdeu o emprego de professor. O emérito historiador e professor da Sorbonne, Henri Irénèe Marrou (1904-1977), aconselhou aos futuros historiadores: “O historiador não avança sozinho ao encontro do passado. Aborda-o como representante do seu grupo.” Evidentemente, digo que ele “aconselhou” como uma forma eufêmica, porque desde o quarto século da nossa Era a versão religiosa da história universal tornou-se obrigatória. A razão disso é que o cristianismo nunca foi uma simples religião, como se imagina. O cristianismo já nasceu como uma cultura religiosa. Uma religião como a umbanda, por exemplo, nunca deteve o poder civil, o cristianismo já. Tecnicamente o cristianismo se chama a nova cultura, em relação à cultura do mundo antigo. A preocupação número um de uma cultura que se impõe é com a educação e conseqüentemente com o ensino. Todos os historiadores conhecidos são apaixonados cristãos, especialmente àqueles que se dedicaram à história da educação. Toda documentação histórica encontra-se desde o quarto século sob a guarda da nova cultura que fez dela o que bem quis. Depois de dois mil anos, é incrível que nada além de Tácito, Plínio o Jovem, Suetônio e Flávio Josefo (reconhecidamente adulterado) puderam ser apresentados? O Talmude é uma obra tardia cuja preocupação era falar mal de Jesus para proteger o judeu menos culto da catequese cristã. Não existe nada a respeito de Jesus nem sobre o chamado cristianismo judeu fora da história cristã. A defesa do Jesus histórico é na verdade o prosseguimento a um favorecimento ideológico. Como não existem argumentos históricos, argumentos os filosóficos sobram no meio acadêmico confundindo os inexperientes. Não são os historiadores engajados que dão historicidade a personagem algum, sim as evidências da sua passagem por esse mundo. Bruno Bauer era só uma andorinha, mas o verão não se discute.

3:15 da tarde  
Blogger Ivani Medina said...

Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não gosta de indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas respostas que o meio acadêmico insiste ignorar.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

11:32 da manhã  

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