A Arca de Noé
A propósito do que foi publicado num post que não vou identificar, a respeito da arca de Noé, que defendia a tese de que a epopeia desta teria ocorrido nos Estados Unidos, mais concretamente no Grande Canyon, pressuposto apostolado de alguma das muitas religiões existentes naquele país, somente seguidas por gente inculta. Contrariando os fundamentos de tal afirmação, e na procura da explicação para o que se supõe ter acontecido, passo a expor o seguinte.
Todo o fundamento bíblico do Antigo Testamento, no Pentateuco na sua parte primeira a Génisis, é proveniente de lendas originárias na Suméria.
O patriarca Abraão descrito na Bíblia era um sumério, que antes da sua partida para Canãa, vivia em Ur, no sul da Mesopotâmia. Ur era ao tempo uma próspera cidade da Suméria.
Para podermos ter uma ideia da origem dos factos descritos na Génisis, torna-se necessário debruçar-nos um pouco sobre a religião e mitologia da Suméria, a fim de podermos verificar as semelhanças.
Os Sumérios viam a origem de todas as coisas em dois princípios opostos: Apsu, princípio masculino, o princípio do bem e Tiamat, princípio feminino, o princípio do mal.
Da união destes dois princípios nasciam os deuses; em primeiro lugar, o deus do céu e a deusa da terra. Da união destes nasceram três filhos, os maiores dos deuses propriamente ditos: Anu, que reinava no céu, Ea, que reinava no mar, e Enlil que reinava na terra.
Ea tinha criado o homem a partir do barro, mas, como Enlil era o deus da terra, a Suméria e toda a humanidade estavam sob o seu poder.
Os três deuses também tinham criado o Sol, a Lua e os planetas. Diversos deuses eram associados aos corpos celestes, ideia que viria a ser retomada por civilizações posteriores, sobretudo egípcia e grega.
Enlil descontente com os homens, e com a aprovação dos outros deuses, resolveu castigá-los pelos seus pecados enviando-lhes uma terrível inundação. Mas Ea, o deus do mar, opunha-se a este projecto e deu conhecimento ao seu amigo Utnapishtim; este construiu então um barco, que o protegeu, assim como à sua família e aos seus animais. Em seguida, os outros deuses também lamentaram ter enviado o Dilúvio e alegraram-se com o facto de o género humano ter sobrevivido à inundação.
Os Sumérios faziam uma ideia muito sombria a respeito do que os esperava depois da morte. O homem, sob a forma de espírito, continuava a sua existência nos Infernos. O deus Nergal reinava nos Infernos, assistido por um grupo de espíritos maléficos. Os Infernos eram sombrios e frios; vestidos de plumas, os espíritos dos defuntos erravam e alimentavam-se de lama e poeira.
Depois da morte ninguém alcançava a felicidade. Por isso os Sumérios prestavam culto aos seus deuses sem outra esperança senão a de adquirirem bens terrestres, como a saúde, a riqueza ou a vitória. A sua fé comportava, no entanto, algumas obrigações morais: quem queria atrair o favor dos deuses para viver feliz na Terra não devia ter pecados.
Muitos dos mitos dos Sumérios tomavam uma forma poética nas lendas elaboradas a respeito de heróis semelhantes a deuses. O mais conhecido destes heróis sumérios foi Gilgamesh.
A sua epopeia, a maior criação poética anterior a Homero, revela a inquietude pela descoberta do mundo para além da morte e a preocupação face à morte.
Gilgamesh e Enkidu, seu amigo inseparável, percorrem uma vida heróica, cheia de aventuras até que Enkidu morre. Enlouquecido pela perda do amigo, Gilgamesh propõe-se conquistar a imortalidade, tentando roubar aos deuses os frutos da árvore da vida para oferecer aos homens e torná-los imortais. Após uma viagem cheia de dificuldades vai ter com Utnapishtim, pai da humanidade pós-diluviana, que lhe diz onde cresce a árvore da vida, mas adverte-o também de não ser possível a imortalidade, pois os deuses ao criarem o homem decretaram o carácter inexorável da morte. Gilgamesh, contudo, prossegue a busca da árvore, mas quando a encontra é arrebatado pela serpente.
Noé ou Utnapishtim, como lhe queiramos chamar, não passam de personagens da religião dos sumérios, aproveitada pelos que procuraram fundamentos bíblicos para justificarem a sua origem e o seu credo.
Todo o fundamento bíblico do Antigo Testamento, no Pentateuco na sua parte primeira a Génisis, é proveniente de lendas originárias na Suméria.
O patriarca Abraão descrito na Bíblia era um sumério, que antes da sua partida para Canãa, vivia em Ur, no sul da Mesopotâmia. Ur era ao tempo uma próspera cidade da Suméria.
Para podermos ter uma ideia da origem dos factos descritos na Génisis, torna-se necessário debruçar-nos um pouco sobre a religião e mitologia da Suméria, a fim de podermos verificar as semelhanças.
Os Sumérios viam a origem de todas as coisas em dois princípios opostos: Apsu, princípio masculino, o princípio do bem e Tiamat, princípio feminino, o princípio do mal.
Da união destes dois princípios nasciam os deuses; em primeiro lugar, o deus do céu e a deusa da terra. Da união destes nasceram três filhos, os maiores dos deuses propriamente ditos: Anu, que reinava no céu, Ea, que reinava no mar, e Enlil que reinava na terra.
Ea tinha criado o homem a partir do barro, mas, como Enlil era o deus da terra, a Suméria e toda a humanidade estavam sob o seu poder.
Os três deuses também tinham criado o Sol, a Lua e os planetas. Diversos deuses eram associados aos corpos celestes, ideia que viria a ser retomada por civilizações posteriores, sobretudo egípcia e grega.
Enlil descontente com os homens, e com a aprovação dos outros deuses, resolveu castigá-los pelos seus pecados enviando-lhes uma terrível inundação. Mas Ea, o deus do mar, opunha-se a este projecto e deu conhecimento ao seu amigo Utnapishtim; este construiu então um barco, que o protegeu, assim como à sua família e aos seus animais. Em seguida, os outros deuses também lamentaram ter enviado o Dilúvio e alegraram-se com o facto de o género humano ter sobrevivido à inundação.
Os Sumérios faziam uma ideia muito sombria a respeito do que os esperava depois da morte. O homem, sob a forma de espírito, continuava a sua existência nos Infernos. O deus Nergal reinava nos Infernos, assistido por um grupo de espíritos maléficos. Os Infernos eram sombrios e frios; vestidos de plumas, os espíritos dos defuntos erravam e alimentavam-se de lama e poeira.
Depois da morte ninguém alcançava a felicidade. Por isso os Sumérios prestavam culto aos seus deuses sem outra esperança senão a de adquirirem bens terrestres, como a saúde, a riqueza ou a vitória. A sua fé comportava, no entanto, algumas obrigações morais: quem queria atrair o favor dos deuses para viver feliz na Terra não devia ter pecados.
Muitos dos mitos dos Sumérios tomavam uma forma poética nas lendas elaboradas a respeito de heróis semelhantes a deuses. O mais conhecido destes heróis sumérios foi Gilgamesh.
A sua epopeia, a maior criação poética anterior a Homero, revela a inquietude pela descoberta do mundo para além da morte e a preocupação face à morte.
Gilgamesh e Enkidu, seu amigo inseparável, percorrem uma vida heróica, cheia de aventuras até que Enkidu morre. Enlouquecido pela perda do amigo, Gilgamesh propõe-se conquistar a imortalidade, tentando roubar aos deuses os frutos da árvore da vida para oferecer aos homens e torná-los imortais. Após uma viagem cheia de dificuldades vai ter com Utnapishtim, pai da humanidade pós-diluviana, que lhe diz onde cresce a árvore da vida, mas adverte-o também de não ser possível a imortalidade, pois os deuses ao criarem o homem decretaram o carácter inexorável da morte. Gilgamesh, contudo, prossegue a busca da árvore, mas quando a encontra é arrebatado pela serpente.
Noé ou Utnapishtim, como lhe queiramos chamar, não passam de personagens da religião dos sumérios, aproveitada pelos que procuraram fundamentos bíblicos para justificarem a sua origem e o seu credo.

19 Comments:
Espero que tenhas tido um bom Natal e que festejes o novo ano com muita felicidade!
Obrigado pelo esclarecimento sobre um tema que não domino.
Grande Abraço
extraordinário. as coisas que sabes. não paro de me surpreender.
fica bem.
* salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma* (poemas do velho testamento, bebedor nocturno, herberto helder) . excelente texto, o teu.
Só para te agradecer as boas festas, Augusto!
Logo virei comentar o teu Noé, com mais tempo!
Beijinho,
Ana Maria
Caro Augusto: é sempre um prazer ler-te. Aprendo muito, sabes? Muito obrigada por mais esta achega à minha educação. Beijinhos e um Feliz Ano Novo!
Não entendo nada de Noé, Bíblia e mais que adiante se verá ;). Gosto do nome Gilgamesh, onde é que já ouvi isto? ;)
Muito gosto em lê-lo, sr. Augusto.
Abraço carinhoso.
Obrigado por mais esta lição.
Um Abraço,
Bela exposição, Augusto. Oxalá tenhas tido um Natal como desejavas e que tenhas um Ano de 2005 com tudo de bom. Grande abraço.
P.S.- A proliferação de seitas religiosas nos EUA deve-se ao facto de ser um povo ignorante, nada mais (Acho eu, claro)
que as arcas que em nós trazemos se abram e delas saiam vivos os seres que somos e seremos.
abraços de um ano cheio do que mais importância tiver.
Realmente uma pessoa aqui...aprende! Obrigada. ( eu é que acabo por ficar deprimida ao dar conta que a minha ignorância é infinita....)jinho, BShell
Como diria a Blueshell, tanta sabedoria deprime-me.
Estou a brincar, adoro ler os teus escritos.
Bom Ano para ti, Augusto e que continues a escrever os teus maravilhosos textos para deleite dos teus fans ;)
O que eu aprendo a ler estes posts!!! A minha total ignorância sobre as questões da religião é uma coisa aflitiva. Sou agnóstica e sempre me acomodei a essa situação. De vez em quando lá vou dizendo que tenho de comprar uma bíblia, mas vou adiando sempre. Parece-me que estou com sorte, para iniciação estes textos são excelentes e ainda com uma vantagem, são de uma enorme clareza.
Um abraço amigo.
Bom, já li isto umas quantas vezes, perco-me a meio do caminho e lá tenho que voltar atrás! Não duvides, sai-se daqui com a cultura aumentada e descobrem-se coisas que não se sabia. Deste texto, devo portanto concluir que Noé nunca teve nada a ver a com a arca, e que esta possivelmente nem chegou a existir? É isso?
Esclarece lá, que não sei se percebi bem, certo?
Entretanto, desejo-te um ano de 2005 como deve ser, amigo!
Beijinho,
Ana Maria
Olá Hugo Madeira
Obrigado e igualmente para ti.
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Alexandre Narciso
Não tem nada que agradecer, foi um prazer.
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Paopbocca
Obrigado pelo gentil comentário.
Um beijinho com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Blimunda
É bem verdade, muitas vezes a alma afoga-se na devassidão da vida.
Um beijinho com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Anap
Obrigado pela tua visita.
Um beijinho com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá stillforty
Não conheces Gilgamesh? Olha que é tão importante como a Odisseia de Ulisses.
Beijinhos
Olá Fernando
Ora essa, não minha intenção dar lições, mas tão só partilhar os meus conhecimentos.
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Yardbird
Obrigado pela visita. Quanto às seitas americanas deve-se não só à ignorância, mas também, o que é muito pior, à estupidez.
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Jorge
Boa, gostei dessa.
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Shell
Ninguém é ignorante, cada um tem os seus saberes. Saber tudo é impossível, e alguém disse: quanto mais sei mais sei que nada sei.
Um beijinho com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Weraetwo
Gostei dessa "dos teus fans"
Um abraço com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Olá Cecília
Para um agnóstico, a religião não faz qualquer sentido, pelo que qualquer informação a respeito dela é mera curiosidade.
Olá Ana Maria
Exactamente, o Noé biblico nunca existiu, como a sua arca também não. Este episódio biblico foi copiado, assim se pode dizer, da mitologia da Suméria, ou seja invenção do homem.
Um beijinho com os votos de bom Ano Novo. Augusto
Bem, então vamos lá, Augusto.
A tua exposicão é absolutamente digna de crédito e admiração, e tirando aquelas dúvidas que sempre surgem de autor para autor (como pr.exemplo o facto desses deuses pertencerem para uns, à civilização Assirio-Babilónica, enquanto para outros esses deuses teriam vindo dos Akkades) são pormenores de somenos, porque geograficamente mais para a esquerda ou mais para a direita, o papel que tiveram não se altera com isso.
Gilgamesh é de facto o herói mais famoso da mitologia Assirio-Babilónica, "aquele que descobriu a nascente" ou " aquele que tudo viu"; Todavia perece não ter sido apenas puramente imaginario, e é por alguns aceite
como tendo sido rei da Suméria, sucedido a Dumuzi. Aliás, a história de Gilgamesh é muito interessante de ler.:)
Agora o que eu quero mesmo perguntar, é o que é que levou os autores do velho testamento a associarem o dilúvio ( que historicamente existiu) com um personagem meio mitológico, se, tendo de facto havido uma família que se safou com vida, porque não a referem com a relevância a que tem direito? Isto claro, a ser verdade a história da arca (não com a bicharada toda, valha-nos deus, mas apenas com essa ou talvez mais uma ou duas famílias), de que os arqueólogos continuam à procura - dela, e do monte Ararat...
Ou será que a arca não chegou mesmo a existir?
Querem ver que andaram a gozar comigo este tempo todo???
Beijinho,
Ana Maria
Ana Maria lá vai a minha resposta.
A região do Tigre e do Eufrades, há cerca de 3000 anos a.C foi invadida por diversas tribos que se instalaram na região, que mais tarde, denominada Acádia. Os Sírios, originários do Caucaso, instalaram-se na zona superior do Tigre. Os Sumérios, os recem-chegados com mais interesse cultural, estabeleceram-se nas embocaduras dos rios. A sua origem é desconhecida. A sua cultura parece ter as mesmas raizes que do povo, pela mesma época, fundou no vale do Indo uma sociedade altamente ecoluída.
É numa das cidades dos Sumérios, que um rei criou mais tarde o primeiro grande Estado, modelo dos futuros reinos babilónicos, assírios e persas. O seu nome era Sargão e a cidade que fundou chamava-se Acádia, designação depois dada a toda a região.
É fácil depreender que a religião originária dos sumérios, viria a ser a mesma dos Assírios e Babilónios, e nesta ordem de ideias inserimos o poema de Gilgamesh, que acaba por ter uma enorme relevância na mitologia assírio-babilónica. Quanto à lenda de Gilgamesh ter fundamento em algum rei da Suméria não sei. Talvez possa ser verdade, pois havia o costume de divinizar mitológicamente os reis.
Quanto propriamente ao relacionamento da arca de Noé com o Antigo Testamento, vou-te dar a minha resposta num post que irei publicar.
Espero ter satisfeito algumas dúvidas. O assunto é muito vasto e muito interessante, e o blog demasiado pequeno para ele.
Um beijinho. Augusto
Sim, já tinha lido, e fiquei mais esclarecida. Obrigada, Augusto. Aguardo pois o resto num próximo post.
Beijo
Cool blog, interesting information... Keep it UP »
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