sexta-feira, dezembro 31, 2004

Apresentação

Em finais de Agosto de 2004, por insistência da minha mulher, criei um blog. O meu primeiro texto deveria ter sido a minha apresentação, para que os visitantes soubessem que tipo de leitura se poderia esperar nele.
Mas como mais vale tarde do nunca, lá vai.
Sou português, do sexo masculino, natural de Lisboa, com a idade que a balança marca, pondo o peso da idade num prato e no outro o peso da maturidade e da juventude das ideias.
No Liceu recebi a base cultural indispensável aos alunos que o frequentavam. Isso já se perdeu, e hoje é uma tristeza constatar a falta de conhecimentos que a maior parte das pessoas têm.
Querendo sempre saber mais, e encontrar as causas e as respostas para os problemas do homem, deitei mãos à obra e tornei-me numa espécie de autodidacta, orientando os meus estudos nesse sentido.
Partindo do lema que: o estudo da história ajuda-nos a compreender o presente e a vaticinar o futuro, iniciei os meus estudos recuando no tempo 6.000.000 anos, indo ao encontro do Orrorin Tugenensis, procurando as nossas origens e conhecer a nossa evolução até ao homo sapiens sapiens.
Encontrado o homo sapiens sapiens, apreciei a sua evolução passeando pela Pré-História (Paleolítico e neolítico) com ele até à sua sedentarização, e aparecimento das primeira civilizações, quer no Próximo Oriente, Médio Oriente e Extremo Oriente.
Assisti ao desenvolvimento cultural e económico das principais civilizações da Mesopotâmia, do Egipto, da Fenícia, da Índia, da China, do Japão, do Sul da Europa (Grécia, onde felicitei Péricles pela beleza de Atenas e Fídias pelo seu talento e Roma, onde ouvi Cícero discursar, e César desfilar vindo da Gália Transalpina), da Europa Central, da Europa do Norte e da Europa Oriental.
Na Europa assisti à chegada dos Indo-europeus, dei as boas vindas aos Celtas, aos Germanos, aos Eslavos, aos Fineses, aos Citas, aos Cazares e aos Pechenegos. Vi nascerem e desaparecerem impérios, a paz e a guerra entre as nações.
Também África não ficou esquecida. Visitei os principais reinos de África: O reino de Cuxe, o reino de Axum, o reino do Gana, o reino dos Malis, o reino de Songai e tantos outros, que mostram quanto foi evoluída a cultura africana na Idade Média e antes desta.
Fui companheiro de viagem dos homens que vindos da Europa atravessaram o estreito de Bering no fim da glaciação Würm, ocasião em que o nível do oceano era mais baixo e o Alasca estava ligado à Sibéria por terra firme, e começaram a colonizar a América.
Vi como eles desceram o continente americano, dando origem aos diversos povos e civilizações que tanto nos têm deslumbrado.
No extremo norte, ficaram os Esquimós, depois em clima mais temperado ficaram as culturas neolíticas do Norte da Eurási, a cultura Anasazi, com os seus “cesteiros” e os índios Pueblos. Também confraternizei com os Musklogees, Cherokees, Arapahos, Cheynnes, Comanches e muitos outros.
Continuei a descida e estive com os Olmecas, Os Maias, adorei a cidade de Teotihuacán, os Toltecas, os Astecas e fui convidado pelos Incas para visitar Machu Picchu.
Inteiramente ligada à História está a Filosofia, saber como evoluiu o pensamento humano era imprescindível. Pegando no primeiro representante da escola Jónica, Tales de Mitelo, percorri cronologicamente os Pitagóricos, os Elatas e os Sofistas. Ouvi Sócrates, frequentei a Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles passeei entre os discípulos ouvindo a palestra do mestre. Também ouvi o que tinham para dizer os adeptos do Cepticismo e do Estoicismo e os Neoplatónicos.
Assisti ao nascimento da Filosofia Cristã, com a Patrística e no Maniqueísmo ouvi Santo Agostinho a contar as suas aventuras amorosas da juventude. Gostei muito dos filósofos islâmicos dos quais destaco El-Kindi, Avicena e Averróis, que viveram no tempo da Espanha árabe, o Al-Andaluz, expoente máximo da cultura islâmica. A sombria Escolástica, o Tomismo chegando ao Humanismo e por aí diante até aos nossos dias.
Ao estudar a Filosofia era incontornável deitar uma olhadela nas religiões tão intimamente ligadas a ela. Estudei o Judaísmo e assisti à diáspora, no Islamismo acompanhei Maomé na hégira, no Cristianismo escutei Jesus e no Hinduísmo assisti à chegada dos Vedas.
São muitos e muitos anos de estudo, e um total aproximado de sete mil e quinhentas páginas escritas de apontamentos, que tenho devidamente ordenados e encadernados.
Se há paixões, esta é a minha, saber e procurar saber cada vez mais.
Detentor, sem modéstia, de um conhecimento bastante vasto, foi sempre minha preocupação, saber quais seriam os temas mais interessantes para as pessoas que me visitam.
Por vezes não é fácil escrever um texto aligeirado sobre um tema importante, e é aqui que tenho medo de falhar. Gostaria de compartilhar inúmeros conhecimentos só que não sei, pelo que vejo publicado nos outros blogs, se teriam algum interesse.
Com tantas coisas interessantes que sei, acho que vou correr o risco de não agradar, o futuro o dirá.

domingo, dezembro 26, 2004

A Arca de Noé

A propósito do que foi publicado num post que não vou identificar, a respeito da arca de Noé, que defendia a tese de que a epopeia desta teria ocorrido nos Estados Unidos, mais concretamente no Grande Canyon, pressuposto apostolado de alguma das muitas religiões existentes naquele país, somente seguidas por gente inculta. Contrariando os fundamentos de tal afirmação, e na procura da explicação para o que se supõe ter acontecido, passo a expor o seguinte.

Todo o fundamento bíblico do Antigo Testamento, no Pentateuco na sua parte primeira a Génisis, é proveniente de lendas originárias na Suméria.
O patriarca Abraão descrito na Bíblia era um sumério, que antes da sua partida para Canãa, vivia em Ur, no sul da Mesopotâmia. Ur era ao tempo uma próspera cidade da Suméria.
Para podermos ter uma ideia da origem dos factos descritos na Génisis, torna-se necessário debruçar-nos um pouco sobre a religião e mitologia da Suméria, a fim de podermos verificar as semelhanças.
Os Sumérios viam a origem de todas as coisas em dois princípios opostos: Apsu, princípio masculino, o princípio do bem e Tiamat, princípio feminino, o princípio do mal.
Da união destes dois princípios nasciam os deuses; em primeiro lugar, o deus do céu e a deusa da terra. Da união destes nasceram três filhos, os maiores dos deuses propriamente ditos: Anu, que reinava no céu, Ea, que reinava no mar, e Enlil que reinava na terra.
Ea tinha criado o homem a partir do barro, mas, como Enlil era o deus da terra, a Suméria e toda a humanidade estavam sob o seu poder.
Os três deuses também tinham criado o Sol, a Lua e os planetas. Diversos deuses eram associados aos corpos celestes, ideia que viria a ser retomada por civilizações posteriores, sobretudo egípcia e grega.
Enlil descontente com os homens, e com a aprovação dos outros deuses, resolveu castigá-los pelos seus pecados enviando-lhes uma terrível inundação. Mas Ea, o deus do mar, opunha-se a este projecto e deu conhecimento ao seu amigo Utnapishtim; este construiu então um barco, que o protegeu, assim como à sua família e aos seus animais. Em seguida, os outros deuses também lamentaram ter enviado o Dilúvio e alegraram-se com o facto de o género humano ter sobrevivido à inundação.
Os Sumérios faziam uma ideia muito sombria a respeito do que os esperava depois da morte. O homem, sob a forma de espírito, continuava a sua existência nos Infernos. O deus Nergal reinava nos Infernos, assistido por um grupo de espíritos maléficos. Os Infernos eram sombrios e frios; vestidos de plumas, os espíritos dos defuntos erravam e alimentavam-se de lama e poeira.
Depois da morte ninguém alcançava a felicidade. Por isso os Sumérios prestavam culto aos seus deuses sem outra esperança senão a de adquirirem bens terrestres, como a saúde, a riqueza ou a vitória. A sua fé comportava, no entanto, algumas obrigações morais: quem queria atrair o favor dos deuses para viver feliz na Terra não devia ter pecados.
Muitos dos mitos dos Sumérios tomavam uma forma poética nas lendas elaboradas a respeito de heróis semelhantes a deuses. O mais conhecido destes heróis sumérios foi Gilgamesh.
A sua epopeia, a maior criação poética anterior a Homero, revela a inquietude pela descoberta do mundo para além da morte e a preocupação face à morte.
Gilgamesh e Enkidu, seu amigo inseparável, percorrem uma vida heróica, cheia de aventuras até que Enkidu morre. Enlouquecido pela perda do amigo, Gilgamesh propõe-se conquistar a imortalidade, tentando roubar aos deuses os frutos da árvore da vida para oferecer aos homens e torná-los imortais. Após uma viagem cheia de dificuldades vai ter com Utnapishtim, pai da humanidade pós-diluviana, que lhe diz onde cresce a árvore da vida, mas adverte-o também de não ser possível a imortalidade, pois os deuses ao criarem o homem decretaram o carácter inexorável da morte. Gilgamesh, contudo, prossegue a busca da árvore, mas quando a encontra é arrebatado pela serpente.
Noé ou Utnapishtim, como lhe queiramos chamar, não passam de personagens da religião dos sumérios, aproveitada pelos que procuraram fundamentos bíblicos para justificarem a sua origem e o seu credo.

domingo, dezembro 19, 2004

Natal é um tempo...

...para as guerras pararem
...para fazer a paz
...para ajudar os desfavorecidos
...para acarinhar os velhos
...para perdoar
...para reconciliar
...para amar o próximo
...para dar amor
...para eternizar

Votos de Boas Festas para todos os visitantes deste blog, e um especial abraço natalício aos que têm a pachorra de o comentar.
Tudo de bom que a vida vos possa oferecer.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

O Jesus "desconhecido"



Dos quatro Evangelhos, segundo S. Mateus, S. Lucas, S. Marcos e S. João, só os dois primeiros fazem uma abordagem, não muito esclarecedora e por vezes discordante, ao nascimento e infância de Jesus, até aos 12 anos de idade.
Os dezasseis anos sequentes até o seu reaparecimento com 28 anos, são completamente omitidos no Novo Testamento, deixando em aberto, todas as conjecturas e hipóteses possíveis.
Nesta perspectiva não relego o ensejo de apresentar a minha opinião sobre esse tempo desconhecido da vida de Jesus, propondo uma hipótese, para o preenchimento desse espaço vazio, fundamental na sua vida.

Apesar da dominação política da Judeia pelos estrangeiros, o judaísmo manteve quase sempre intactas as suas instituições religiosas.
Os principais grupos organizados entre os Judeus eram o dos Saduceus e o dos Fariseus.
O primeiro, integrado por sacerdotes e aristocratas, exerciam grande influência política e económica e mantinham boas relações com Roma. Embora seguissem estritamente a lei mosaica, os Saduceus, fortemente impregnados da cultura helénica, negavam a vida após a morte e o messianismo.
Os fariseus tinham mais preocupações religiosas que políticas Faziam um esforço para manter viva a fé judaica longe de todo o contacto com a paganismo. Acreditavam na vida eterna e eram ardorosos na sua esperança messiânica.
Havia também pequenos grupos de vida mística, reunidos em comunidades de fé e trabalho. Um dos mais importantes desses grupos era a comunidade de Qum ran, radicada na margem do mar Morto, vinculada aos Essénios.
Tais comunidades observavam a lei, mantinham rituais de purificação periódica, renovavam constantemente a sua adesão à aliança com Deus e participavam de uma refeição sagrada de pão e vinho. Acreditavam no estabelecimento próximo de um reino trazido por um novo profeta.
Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, os Essénios existiam desde o ano 150 a.C. Aceitavam na imortalidade da alma e o castigo ou recompensa após a morte. Tanto João Batista como Jesus Cristo pertenceram à comunidade dos Essénios.
A influência predominante entre as camadas mais cultas da população era, contudo, a do pensamento filosófico grego. As virtudes naturais ensinadas por Sócrates, a ideia da imortalidade da alma, de Platão, a fagulha divina e o logos de Aristóteles foram algumas das ideias que moldaram o futuro pensamento cristão.

É neste contexto que vamos ao encontro de José e Maria, em Nazaré, a conversar com um velho rabino, que ficara espantado com as aptidões demonstradas por Jesus, quando da sua conversa com os doutores do Templo em Jerusalém.
Para o velho estudioso, a vida de carpinteiro que lhe estava reservada na companhia de seus pais, não estava adequada aos seus conhecimentos, que mereciam muito mais. Tentava o velho rabino convencer José e Maria a deixarem o filho ir estudar com os letrados da tribo.
Convencidos os pais, da melhor perspectiva de vida para o filho, Jesus passou os seis anos seguintes em aprendizagem com os anciãos, demonstrando cada vez mais a sua inteligência e intuição para a compreensão do pensamento grego.
Aos dezoito anos, não havendo mais nada de novo para aprender, e notabilizado pelo seu saber, os anciãos da tribo, resolvem proporcionar-lhe a continuação dos seus estudos, no maior centro cultural da época, Alexandria.

Em Alexandria, por empenhamento dos anciãos da sua tribo, entra em contacto com Fílon, o principal representante da escola filosófica de Alexandria. Fílon, filósofo judeu, eminente representante da cultura judaica helenística, tentou a harmonização dos ensinamentos do judaísmo com os princípios do pensamento grego, em especial platónico e estóico.
É junto de Fílon que Jesus passará os próximos dez anos em Alexandria, estudando os filósofos gregos, que lhe moldarão a maneira de pensar, agir e conceber o mundo.
No estoicismo encontrou o modelo ético para a sua vida. O estoicismo, foi criado por Zenão de Cítio por volta do ano 300 a.C., pela necessidade de um guia moral na época de transição da Grécia clássica para a helenística.
A capacidade do homem de pensar, projectar e falar está amplamente incorporada ao universo. A natureza cósmica ou Deus e o homem relacionam-se um com o outro, intimamente, como agentes racionais.( Deus é o pai).
Esta filosofia afirma que sabedoria reside na aceitação serena de todas as contingências da vida, vivendo em harmonia com a ordem natural das coisas.
Pelo platonismo reconhece Deus como o ser em si, ainda quer também como um ser puro, identificável com o Bem ou a Ideia das Ideias (Platão): o homem só pode chegar até Ele pelo êxtase ou intuição.
Entre Deus e o cosmos material existem «intermediários» que conservam entre si uma relação hierarquia. Imediatamente de pois de Deus está o logos, lugar das ideias que equivale à palavra ou voz de Deus que permite a formação do mundo sensível a partir das ideias inteligíveis nele contidas e que servem de modelo (concepção do Espírito Santo). Depois do Logos, situam-se a sabedoria divina, o homem divino, o espírito e os anjos.
A noção de uma fonte universal e modeladora de tudo o que existe, uma alma inteligente que se expressa na razão humana, isto é, o próprio Deus dentro de cada um.(O homem filho de Deus)
Também não lhe vão ser estranhos Sócrates, Aristóteles e Diógenes na formação do seu carácter e na contribuição do seu próprio pensamento filosófico.
Durante os dez anos que passou em Alexandria, com a influência de Fílon, faz uma simbiose do pensamento judaico com o pensamento grego, da qual resultará a sua filosofia de vida, baseada fundamentalmente no amor pelo próximo e no desaparecimento de classes sociais e na justiça social.
Aos 28 anos, homem feito, detentor do seu próprio pensamento, resolve abandonar Alexandria, regressar à Galileia, e divulgar o seu conceito de vida, completamente revolucionário para a época.
Uma vez chegado à galileia, à semelhança dos gregos, forma também a sua escola peripatética, dando início à divulgação das suas ideias.
Dirigindo-se aos mais desprotegidos, é nestes que as suas ideias encontram eco, para a formação de um sociedade mais justa. É o homem que fala para o homem, a divinação veio mais tarde.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Jesus "histórico"



Se a existência de Jesus Cristo nunca foi posta em causa por nenhum estudioso, o mesmo já não se pode dizer da sua união da divindade e da humanidade numa mesma pessoa, conforme transparece de todo o conteúdo do Novo Testamento. O Jesus “histórico”, que nasceu, viveu e morreu crucificado na Palestina, e o Cristo que expressa a transcendência divina dessa mesma pessoa, que foi ressuscitada por Deus e elevada à dignidade de Senhor do mundo.
A relação entre o Jesus “histórico” e o Cristo da fé constitui um dos maiores problemas que se propõem à teologia.
É muito difícil escrever uma biografia do Jesus “histórico”. Não se conhece qualquer fonte historiográfica neutra sobre Jesus nazareno. Os historiadores romanos Tácito e Surtório, bem como o historiador judeu Flávio Josefo, nada dizem sobre a sua pessoa.
Assim a única fonte para estabelecer uma vida de Cristo é o Novo Testamento, os Quatro Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as Cartas de Paulo. O testemunho de fé da Igreja primitiva, contido nos livros, é a única fonte existente, mas a figura ali descrita não é o Jesus “histórico”, como ele era em si mesmo, mas aquilo que Jesus significava para os que acreditavam na sua ressurreição, contudo, as discrições de homens, costumes e lugares comprovam as informações do Novo Testamento.
Deste modo, o Novo Testamento não é uma fonte histórica, mas a reunião de factos vividos por Jesus e a confissão de fé no Cristo. Não se conhece uma única frase de Jesus nem uma simples narração sobre ele que não contenham, ao mesmo tempo, a profissão de fé da comunidade crente.
O Novo Testamento foi em grande parte criado pelas primitivas comunidades cristãs, que nele colocaram as suas próprias concepções e a idealização de seus interesses, projectando-os no passado, na vida de seu fundador. Na base da fé destas primeiras comunidades estava a esperança na ressurreição de Cristo e o seu consequente retorno, apregoado por Paulo. Esta força motora da nova religião, levou sem dúvida à criação do Cristo mítico, não o que ele foi mas quilo que se queria que tivesse sido.
Esta esperança, forma a tradição cristã original de que Jesus Cristo teria sido o Salvador, o Filho de Deus feito homem com a missão de sofrer e morrer como os homens e resgatar com o seu sacrifício os pecados da humanidade. Humanizava a sua divindade, espiritualizando a humanidade.
A crença é baseada em factos, como a sepultura, túmulo vazio e as aparições após a ressurreição. Não são apresentados argumentos, mas testemunhas, que são apenas os seus seguidores. É um problema de aceitação pessoal, um problema de fé.
Nem sempre as narrações do Novo Testamento são coincidentes: Os escritos fragmentados e que são acrescentados de sucessivas adições, leva própria Igreja sentir dificuldades em encontrar os verdadeiros autores dos Evangelhos, daí a fórmula por ela adoptada: Evangelho segundo…
Mesmo recusando-lhe a divindade, Jesus foi o mais extraordinário vulto de todos os tempos. O primeiro filósofo a por em prática o mais elevado conceito de Ética.
A sua figura, feita de terrível autoridade e grande doçura, a figura do irado profeta que expulsou os vendilhões do Templo e do doce pregador do Sermão da Montanha, tornou-se famosa pelo estilo oratório simples e incisivo, pela suave força da sua doutrina quanto às relações com Deus e os semelhantes, pela fraternidade universal, pelas reacções contra o sectarismo e o ritualismo dos fariseus e sacerdotes, e, finalmente, pela exaltação dos humildes, dos bons e dos pobres.
Sendo judeu, a sua mensagem, contudo, não era a mesma dos antigos profetas.

O que tornou único o ensinamento de Jesus foi a importância suprema que Ele deu ao amor. Nunca antes o amor fora feito base de um sistema de ética, aspecto essencial da boa vontade de Deus para com os homens, e de o homem para com o homem, nem o seu sentido se mostrara tão amplo.
Pois o amor, como Jesus o entedia, fraternidade e bondade, não era um dever medido, mas uma doação alegre e total de cada acto. O verdadeiro amor não tem espaço justificado para o egoísmo e não conhece reservas, nem mesmo diante do inimigo. A afirmação do amor sem limites entre homens, “ama o próximo como a ti próprio”, desperta a consciência do valor absoluto da pessoa humana e serve para a crítica e a contestação de situações sociais injustas e para a construção de um mundo verdadeiramente fraterno.
Toda a sua doutrina pode ser resumida em: não faças aos outros o que não queres que te façam, e faz aos outros o que queres que te façam.
As ideias de Jesus Cristo, que o Império Romano do seu tempo mal escutou e que, nenhum historiador romano anotou, continuam vivas ainda no mundo actual.
Sendo o amor o primeiro e o maior dos Mandamentos, a moralidade era bem mais importante de que os ritos de culto. Uma exibição exterior de religião sem o íntimo de devoção ao princípio de caridade não passava de hipocrisia, e esta era um dos piores pecados.
Com isto quis dizer que a religião não é necessária para se praticar o bem. O que impera é a vontade inata de o fazer.



sábado, dezembro 04, 2004

Viagem à Índia (terceira parte)



O colonialismo por vezes tem coisas verdadeiramente interessantes. O colonizado admirar colonizador e procurar imitá-lo. Isto passa-se na Índia com a herança colonial inglesa. Os vestígios da presença dos Ingleses na Índia vêm-se a cada esquina, para além da condução à esquerda ou das sumptuosas casas coloniais. A imitação dos Ingleses é uma constante por parte dos Indianos e ainda mais o respeito com que falam deles. São verdadeiros ídolos.
Por curiosidade fomos visitar o principal hotel de Nova Deli. Nunca tinha visto nada assim na minha vida. Estávamos a ver a época vitoriana em todo o seu esplendor combinada com o mais rico sultanato da Índia. Se eu ficara impressionado com os porteiros do meu hotel, quando da minha chegada, aqui nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Parece que a Índia e Inglaterra se digladiaram procurando cada uma delas suplantar a outra em grandiosidade, para formar um conjunto arquitectónico único. Só para dar uma ideia, uma das salas de jantar era a reprodução fiel da selva indiana, com plantas naturais, odores e sons. Pelo meio do arvoredo espraiava-se o mobiliário inglês de estilo vitoriano. As mesas, com loiças e vidros também ingleses, estavam ornamentadas com toque oriental idílico. Qualquer coisa das Mil e Uma Noites, indescritível e inacreditável.
Passou-se comigo um episódio tão simpático, e demonstrador da cordialidade do povo indiano, que não podia deixar contar.
As lojas na Índia não têm nada haver com as nossas lojas ocidentais. São normalmente pequenos ou maiores bazares onde se vende uma miscelânea de artigos. Estando num deles, onde o meu companheiro comprava já não me lembro o quê, enquanto ele procurava o que pretendia eu dava uma vista de olhos pela loja quando me deparei com uma mesa grande cheia de livros.
Ao inspeccionar os livros verifiquei de que tratava de exemplares de dois livros, um com passagens do Bhagavad Gîtâ e outro com versos védicos, ambos ilustrados com fotografias fantásticas de Ashok Dilwali, um dos melhores fotógrafos da Índia.
Como já tinha o Bhagavad Gîtâ e não tinha nenhuma literatura védica, procurei comprar o livro dos versos védicos. Ao perguntar o preço informaram-me que os livros não eram para vender, estavam ali somente para serem embrulhados e destinados a ofertas . O dono dos livros não eram eles. Para esclarecer informo que na Índia comemoravam o Stivali, não tenho a certeza se está bem escrito, que é como o Natal no Ocidente, época de ofertar presentes, o porquê dos livros em questão.
Pedi que entrassem em contacto com o dono dos livros, solicitando que me vendesse o livro que pretendia. Concordaram, pediram o número do telefone do meu hotel, depois me informariam se seria possível ou não a compra.
Quando à noite regressei ao hotel e fui à recepção pedir a chave do quarto, o recepcionista tirou um embrulho debaixo do balcão e entregou-mo, dizendo o que o tinham deixado para mim.
Abri o embrulho e qual não é o meu espanto quando vejo o livro com um cartão do próprio Ashok Dilwali dizendo que era com todo o prazer que me ofertavam o livro. Só na Índia.
Os meus afazeres profissionais levaram-se a sair do centro da cidade e ir mais para a periferia. A Índia das imagens conhecidas estava ali. Ruas estreitas de terra batida, muito sujas, casas de dois ou três andares de construção rudimentar e em muito mal estado, valas junto às casas onde corriam os dejectos caseiros, gentes curiosas de ar pobre que nos espreitavam das janelas ou sentadas nas soleiras das portas, muitas vacas pachorrentas passeavam no meio da rua e até um elefante desdentado, com ar muito velho com o seu cornaca, desfilou diante de nós. Aqui os odores já não tão simpáticos, pois eram uma espécie de mistura de incenso com estrume de vaca que até dava náuseas. Contudo, o mesmo ar misterioso da Índia continuava a pairar.
Não sei explicar ao certo a sensação, estava fascinado com exotismo esotérico que sentia mas não compreendia. Na Índia tudo é esmagador mesmo a miséria.
Claro como não podia deixar de ser, a Índia é uma terra de grandes contrastes. No meio desta amalgama de casa pobres estava instalada uma moderna unidade fabril, linhas modernas e ocidentais, cercada por um belo jardim, com três ou quatro carros parados à porta dos quais se destacava um jaguar de modelo recente, uma espécie de oásis naquele mar de miséria. Depois de entrar percebi o motivo da localização. Todo o trabalho manual era feito pelas gentes das casa ao redor. Aqui como noutros lados fomos recebidos com toda a cortesia indiana a qual tentavam emprestar a eficiência britânica.
Uma visita de trabalho não é a mesma coisa que uma visita turística, e se bem que diligenciasse ao máximo ver tudo o que me fosse possível, muita coisa ficou por ver em Nova Deli, contudo, uma visita era indispensável, uma ida ao Taj Mahal.
Assim aconteceu no último sábado da minha estadia, já com os negócios todos tratados,
saímos do hotel cerca das seis horas da manhã, no carro alugado, para percorrer cerca de 300 quilómetros até Agra, onde fica o Taj Mahal. A viagem foi espectacular. Todo o percurso é acompanhado de casario pobre, entremeado de monumentos religiosos imponentes, montanhas de macacos, búfalos, camelos, elefantes. Os triciclos como os existentes em Nova Deli, são o único meio de transporte colectivo, mudam de aspecto conforme as terras. Numas tinham um formato noutras outro, variavam também as cores, sendo todos iguais na mesma terra.
Nas planícies que ladeavam a estrada a agricultura era mecanizada e intensiva, apresentando grandes áreas de cultivo. Por meio de um trânsito infernal de camionetas lá chegamos ao fim da manhã a Agra.
O Taj Mahal é um sepulcro que foi construído dentro de um palácio. As fotografias, os vídeos ou os filmes, não conseguem mostrar a beleza impressionante deste monumento. A finíssima arquitectura com o requinte que só a cultura islâmica sabe dar, a cor branca muito alva do seu mármore, vai mudando de cor conforme o dia decorre até ficar alaranjada no por do Sol. Os azulejos feitos à mão provenientes de toda a parte do mundo, os baixos relevos, os rendilhados, a sua abóbada cravejada de diamantes, que os ingleses saquearam, fazem deste monumento a mais bela dávida de amor.
Outra lição que os Indianos nos dão é o carinho pelos seus monumentos. No dia em que efectuei a visita estavam-no a fazer também milhares de Indianos, deslumbrados por aquela beleza alva que se destacava contra ao céu azul. Segundo me disseram a romaria era igual todos os dias.
No regresso ainda fui visitar o Forte Vermelho, também Agra. Fortaleza impressionante pelas suas dimensões. Muralhas com dez metros de largura, estendem-se por um perímetro de 2, 3 quilómetros, lembrando o esplendor do período mongol . Dentro das muralhas encontramos diversos palácios, qual o mais impressionante, mandados construir, sucessivamente, pelos seus ocupantes. Foi a morada de inúmeros marajás e do último governador inglês da Índia.
No dia seguinte, Domingo, regressei a Portugal. Durante o caminho para o aeroporto o motorista chamou-nos à atenção para a estátua de Ghandi. A estátua mais impressionante que vi até hoje. Tem alma.
Esta visita não sendo a ideal, serviu para me abrir ainda mais o desejo de lá voltar o mais breve possível.
A Índia não é uma terra de meios termos. Ou se ama ou se odeia. Eu fiquei apaixonado.