quinta-feira, novembro 25, 2004

Viagem à Índia (primeira parte)



A Índia está a comemorar este ano o tricentésimo quinquagésimo aniversário do seu mais emblemático monumento, e um dos mais belos do Mundo: o Taj-Mahal. O monumento mandado erigir por um marajá de credo islâmico, situado nos arredores da cidade de Agra, é um tributo de amor à sua amada esposa falecida.
Aproveitando a oportunidade da efeméride vou falar um pouco da visita que efectuei à Índia em Outubro de 2000.
Desde muito cedo que a Índia exerceu um grande fascínio sobre mim. A filosofia, a religião, os homens santos, as construções religiosas, as gentes e o seu modo de encara a vida, as cores, os perfumes, as vestes, os turbantes siks, as barbas, tudo me fazia imaginar um mundo à parte, incompreensível e esotérico.
Na escola primária, quando o professor dava a História de Portugal e falava da chegada de Vasco da Gama à Índia, o nome Calecut tinha para mim uma sonoridade mágica, fascinava o meu imaginário de criança.
Sempre fui muito interessado pela cultura e história da Índia e, quanto mais procurava enriquecer os meus conhecimentos, maior era o desejo de visitá-la.
A oportunidade surgiu quando por razões profissionais tive de me deslocar a Nova Deli.
A viagem de avião de Paris para Nova Deli demorou cerca de 15 horas, o que é tempo demais para estar dentro de um avião. Não foi um tormento total, porque no avião criaram um espaço furtivo para os fumadores poderem satisfazer o vício. Ia ser muito desesperante estar 15 horas sem fumar.
No avião já se sentia um cheirinho a Índia, pois muitos dos passageiros eram indianos e uma parte deles, embora vestidos ocidentalmente usavam o turbante e as mulheres mais conservadores, o sari e a pinta vermelha na testa.
À medida que as horas passavam e nos aproximávamos da Índia, o meu espírito começou a ser assaltado por uma ansiedade. Será que a Índia é mesmo como eu imaginava, ou iria ser uma decepção.
Por fim cerca das 2 horas da manhã aterramos em Nova Deli. Após as formalidades de entrada, dirigimo-nos para a saída, onde uma multidão esperava os passageiros. A primeira impressão ao olhar para todas aquelas pessoas, foi neutra, ou porque estava cansado ou porque estava à espera não sei bem do quê. Apanhámos um táxi para o hotel O carro muito velho, não devia estar em muito bom estado, pois pareceu-me ter problemas com a direcção.
Durante o percurso, como noite estava muito escura e as luzes nas ruas eram mortiças, não conseguia ver muito bem o trajecto nem as casas que o circundavam. Não tinha a noção de estar num lugar exótico, bem mais me pareciam as ruas de uma vila qualquer.
Mas eis que entra numa avenida, larga com óptima iluminação, e logo vejo uma belíssima mesquita toda iluminada pela luz de projectores. Ainda não refeito da surpresa já o táxi parava em frente ao meu hotel que ficava logo a seguir.
No hotel fiquei de boca aberta, quando um dos porteiros com um aprumo militar impecável, vestido a rigor à indiana com turbante e barba, me abriu a porta do táxi e me cumprimentou num fleumático inglês; good mornig sir, welcome to the Índia.
Parecia um saloio a olhar para o homem, e até devo confessar, com um pouco falta de à vontade. As nossa raízes colonialistas, nunca foram premiadas com esta educação britânica. Fomos mais práticos, para nós um lacónico boa noite era o suficiente.
O sono era tanto que além dos porteiros não reparei em mais nada do hotel, só queria dormir.
No dia seguinte acordei cedo e procurando dominar a excitação desci do quarto para ir tomar o pequeno almoço, mas não sem antes ir primeiro até à porta para rever os porteiros. Até parece infantil mas tinha de confirmar a visão da madrugada. Com o mesmo aprumo militar, com uma farda que faziam lembrar os sipaios do filme Os Lanceiros da Índia, sorridentes, mal me viram voltaram a cumprimentar, good morgning sir. May I help you? Não obrigado só vim cá fora para te ver, pensei eu para comigo.
Satisfeita a curiosidade, voltei a entrar e procurei o meu companheiro de viagem com quem me tinha deslocado à Índia e, por entre good mornings sir à esquerda e à direita lá fomos comer. Um pequeno almoço divinal. Café com leite e um buffet de bolos à descrição, que após o primeiro olhar desconfiado verificamos serem uma maravilha.
Depois saímos, à nossa espera estava um carro com motorista que tínhamos contratado para a nossa estadia. Um velho táxi inglês. É completamente impossível deslocarmo-nos para onde quer que seja sem carro com motorista.
Dentro do carro que nos iria levar ao centro da cidade, onde teria lugar a nossa primeira reunião de negócios, vivemos a primeira experiência na Índia. O trânsito.
O trânsito além de uma intensidade inimaginável é completamente caótico. As avenidas estão repletas de carros, camionetas, bicicletas, triciclos e tudo anda numa velocidade diabólica, passam pela direita, pela esquerda, param, atravessam-se à frente uns dos outros, tudo isto ao som de um barulho infernal de businadelas. Mas insultos ou maus modos, nada. Todos sorriem. Para nós que julgamos ter muito trânsito, podem crer que viajar nas artérias de Nova Deli é uma autêntica aventura.
Por motivos financeiros e dificuldades de importação, os carros são muito velhos, já reconstruídos e reparados vezes sem conta, mas andam que é o fundamental para eles. Alguns são velhas relíquias coloniais herdadas dos ingleses. As camionetas não fogem à regra, velhinhas, velhinhas, todas muito decoradas com pinturas que lhe cobrem toda a carroçaria.
A lotação dos carros não tem limite, enquanto couberem é entrar, entrar, quantos mais levar mais barato fica a viagem. As camionetas também não têm limite de carga quer em peso quer em volume.
Os triciclos na sua maior parte são táxis, e o que era previsto levar dois passageiros, leva quatro e cinco não contando com as crianças de colo.
As bicicletas, essas são os irreverentes do trânsito, viram à esquerda viram à direita, não olham, não fazem qualquer sinal, quem se sentir perturbado neste caos harmonioso que pare.
Está muito calor, perto de 40 graus, no ar existe uma névoa de poluição poeirenta que ajuda a filtrar os raios solares e ao mesmo tempo dá uma cor de ocre ao envolvimento atmosférico, que fica com um ar etéreo. Os cheiros exóticos imperam por toda a parte.

14 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Gostei desta leitura que me prendeu dum país que tenha a visitar. Vou continuar atenta leitora.

hfm
http://linhadecabotagem.blogspot.com

10:51 da manhã  
Blogger Águas de Março said...

Olá Almaro! Você tem um blog interessantíssimo que me tem vindo a dar prazer acompanhar, e hoje aqui estou.
Da Índia, conheço apenas o que tenho lido, visto em documentários e ouvido, o que me despertou há muito tempo a vontade de ir conhecer a sua multiplicidade, a um tempo crua e fascinante. A minha economia ainda não o permitiu, mas a vontade permanece cá dentro. Fico pois com muito interesse à espera da sua continuação.
Bom fim de semana,
Ana Maria

3:41 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

gosto dos teus textos, venho aqui regularmente... é bom ler-te...

11:23 da tarde  
Blogger AnaP said...

Gostei do teu texto, Augusto. Sinceramente a Índia nunca me fascinou. As imagens de miséria não me fazem pensar em ir conhecer tão exótica paragem. Talvez eu seja um pouco cobardolas... Beijos***

1:24 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Augusto, claro, não Almaro.
:))

5:28 da tarde  
Blogger olhardemim said...

Contas tudo tão bem que é como se estivessemos lá. Já visitei muitos países, mas ainda não fui à India.
Talvez para o ano.
Gosto muito de te ler Augusto
Ad

11:02 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá linhadecabotagem
Obrigado pela visita. Volte sempre.
Bom domingo. Augusto

Olá Ana Maria
O engano no nome não tem importância. Fico contente por a ter como leitora dos meus posts.
Um abraço e bom domingo. Augusto

Olá anonymous
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Bom domingo. Augusto

Olá streetguru
Se tiveres possibilidade de ir à Índia, não a percas, vais gostar muito de certeza.
Um abraço. Augusto

11:17 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá Anap
Realmente as imagens de miséria são à primeira vista chocantes para nós, mas fazem parte de um todo envolvente, incompreensível para nós. A "miséria" para eles não representa o mesmo que a nossa miséria para nós, é um Karma, por tal aceite tal qual ela é, fundamento principal da sua religião.
Podes crer, que a Índia sem aquela "miséria", nunca seria a India, fascinante, misteriosa, esotérica, que tanto fascina o Ocidente.
Um abraço. Augusto

11:30 da manhã  
Blogger trintapermanente said...

Havemos de lá ir os dois, pai.
Beijocas

11:47 da manhã  
Blogger Alarvo said...

este relato é impressionante. conheço algumas pessoas que estiveram algum tempo a viajar pela indía. disseram-me que temos de ter estomago, pois o choque com a miséria em que vive aquele povo pode-nos deixar deprimidos por algum tempo. bom, vou continuar a ler o seu blog, pois é a minha primeira vez aqui e estou a gostar!

1:48 da tarde  
Blogger paopbocca said...

venho pela primeira vez visitar o seu blog. gostei de tudo o que li, em especial esta viagem à India. há muito tempo que planeio uma viagem até lá. entretanto vou lendo as suas experiências.
An

8:59 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Outras terras, outras gentes. Gostei da 1ª. parte. Cá estarei para acompanhar as seguintes.

Um Abraço,

10:48 da tarde  
Blogger polittikus said...

Gostei do odor de outros cheiros e culturas... Quem já esteve dentro do T. diz que é a obra da humanidade mais bela realizada até hoje.

12:39 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá trintapermanente
Espero que não sejam só promessas.
Beijinhos do pai.

Olá alarvo
Obrigado pela sua visita. Lá isso é verdade, especialmente para quem não conhece a cultura indiana.
Um abraço. Augusto

Olá An
Obrigado pela visita. Quando poder vá, é uma viagem inesquecível
Um abraço. Augusto

Olá Fernando
Viva, seja bem vindo, a viagem vai continuar
Um abraço. Augusto

Olá polittikus
O interior do Taj Mahal é realmente de uma grande beleza.
Um abraço. Augusto

9:41 da tarde  

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