domingo, novembro 21, 2004

Lembranças VI

Como não há bem que sempre dure e mal que não acabe, a recruta acabou por chegar ao fim. Após o juramento de bandeira, dia em que foi servido rancho melhorado, foi indicado aos recrutas os futuros destinos onde iriam tirar as respectivas especialidades do curso de cabos milicianos. Para quem não sabe, um cabo miliciano era uma espécie de sargento barato. Enquanto permanecesse na metrópole tinha o posto de cabo, e recebiam uma miséria de pré, mas fazia o serviço de sargento. Só quando embarcavam para o Ultramar é que lhe davam as divisas de furriel, primeiro grau na hierarquia dos sargentos, e lhe pagavam em conformidade.
A distribuição decorreu no meio de uma justificada ansiedade, pois a especialidade de atirador, era a menos desejada, por ser a de maior risco. Estava a ouvir a distribuição quando para a especialidade de enfermagem ouvi chamar pelo meu nome, desculpem, pelo meu número, pois na tropa somos todos anónimos. Nem queria acreditar, estava safo de ir para atirador.
Contudo, passado o primeiro momento de euforia, a ideia de ir para enfermagem começou a causar-me um mal-estar. Com tantas especialidades, logo me havia de calhar esta. Não vou ter estômago para aguentar. Não suporto o cheiro a éter quanto mais ver feridas e dar injecções.
Mas como as ordens na tropa não dão direito a reclamações, não houve outro remédio senão ir tirar o curso de enfermagem, e com esse fim deram-me a guia de marcha, para me apresentar no Hospital Militar Principal, situado em Lisboa no Largo da Estrela. Por ironia do destino, o hospital fica mesmo ao pé da casa onde nasci.
Na altura não fazia ideia de como iriam ser os meus próximos três anos de tropa e como ,de certa maneira, marcariam a minha vida.
Muito se tem escrito acerca da guerra do Ultramar, nesta ou naquela província, neste ou naquele local, mas o que eu vou relatar talvez seja a visão mais global e aterradora de toda a guerra. Num só sítio, vivi em indirecto a guerra em todas as frentes com todos os seus maiores dramas. Talvez seja esta a guerra que falta ser escrita, assim eu tenha habilidade para prestar com esta narração, a minha homenagem a todos aqueles que no cumprimento do dever morreram ou ficaram estropiados, e que hoje em dia são esquecidos ou pior ainda, renegados. Bem hajam todos os que não renegaram a Pátria quando os chamou, independentemente de acreditarem ou não nos motivos do chamamento. A Pátria não se discute, é o bem maior de qualquer povo.
Após as despedidas, por entre umas cervejas na messe, e ter entregue ao amanuense o equipamento que tinha recebido à chegada, excepto o fardamento, mas sem o odiado fato macaco, voltei as costas a Mafra sem saudades, e lá fui a caminho do hospital. (continua)

9 Comments:

Blogger chemistry said...

Conta toda a Verdade, penso que haverá muita coisa a descobrir, para gerações e gerações de "ignorantes", porque ninguém se interessou em contar a verdadeira história, mesmo após o 25 de Abril.
Abraço

7:08 da tarde  
Blogger Yardbird said...

Nunca te comentei estes posts sobre a tropa, porque é tempo que nem quero lembrar. Digo-te agora que, muitas dessas tuas recordações, também são minhas. Um abraço
Victor

9:49 da tarde  
Blogger stillforty said...

Eu cá estou bem, e tu estás a tratar bem dos gatos? ;-)
"Nós por cá todos bem, adeus e até ao meu regresso", frase tão nossa conhecida, lembras-te?
As lembranças cada vez estão melhores.
Beijinho

5:00 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá wearetwo
A muitas pessoas do presente, realmente não interessa falar da Guerra do Ultramar.
Não é fácil para vocês, mais jovens, compreenderem o que se passou na minha geração, vou tentar contar o melhor possível. É preciso é ler os textos com atenção.
Um abraço. Augusto

Olá Yardbird
Não sei em que ano entraste para a tropa, se antes ou depois de mim, mas eu não quero esquecer, pelo contrário, quelo lembrar-me e bem, para contar à malta jovem que o meu ou o nosso tempo, não sei, não foi o que andam por aí a pregoar.
Um abraço. Augusto

Olá stilforty
Essa frase tão nossa conhecida, é uma das mais importantes do período da guerra, deveria ser considerada histórica.
Beijinhos

9:41 da tarde  
Blogger polittikus said...

De certo uma bela história, mas fico feliz por não ter ido há tropa... hehehehe

11:05 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá polittikus
Foi uma grande sorte.
Um abraço. Augusto

11:52 da manhã  
Blogger olhardemim said...

Vejam só o que vim descobrir, um blog que conta a história que eu queria que os meus pais me tivessem contado.Muito se tem escrito acerca da guerra do Ultramar, nesta ou naquela província, neste ou naquele local, mas o que eu vou relatar talvez seja a visão mais global e aterradora de toda a guerra.
Fico à espera.
seteminutos.blogspot.com

7:16 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá streetguru
O que eu vou em muitos próximos textos contar, não é guerra consequente das acções militares, mas a guerra na óptica dos resultados das acções militares. Obrigado pela visita, volte sempre.
Um abraço. Augusto

10:33 da tarde  
Blogger 日月神教-任我行 said...

AV,無碼,a片免費看,自拍貼圖,伊莉,微風論壇,成人聊天室,成人電影,成人文學,成人貼圖區,成人網站,一葉情貼圖片區,色情漫畫,言情小說,情色論壇,臺灣情色網,色情影片,色情,成人影城,080視訊聊天室,a片,A漫,h漫,麗的色遊戲,同志色教館,AV女優,SEX,咆哮小老鼠,85cc免費影片,正妹牆,ut聊天室,豆豆聊天室,聊天室,情色小說,aio,成人,微風成人,做愛,成人貼圖,18成人,嘟嘟成人網,aio交友愛情館,情色文學,色情小說,色情網站,情色,A片下載,嘟嘟情人色網,成人影片,成人圖片,成人文章,成人小說,成人漫畫,視訊聊天室,性愛,性感影片,正妹,聊天室,情色論壇

7:15 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home