sábado, novembro 06, 2004

Lembranças V

Malgrado o acidente do qual resultou o dedo partido, a recruta decorreu sem incidentes de maior. Pouco haveria mais com interesse para relatar, caso as necessidades operacionais do exército não tivessem levado à mobilização dos médicos até à idade de 45 anos.
Os médicos, apesar de já exercerem a profissão há muito tempo e alguns até grandes especialistas, foram obrigados a fazer um pequeno período de recruta para adaptação à vida militar.
A sua incorporação efectuou-se cerca de quinze dias depois da nossa. A parada do quartel, até aí tão militarmente aprumada, passou simultaneamente ao aprumo, e a mostrar a caricatura deste.
Os novos recrutas, na maior parte casados, ao contrário do que sucedeu comigo, que fui levado ao quartel pelos meus pais, alguns deles foram levados pelos filhos. Muito eu gostaria de poder assistir à despedida entre pais e filhos. Oh pai vê lá se portas bem, não deixes a malta ficar mal. Algumas das suas mulheres, possivelmente teriam recomendado: não te esqueças das ceroulas, olha que as noites são muito frias.
A idade e a vida sedentária que levavam evidenciava-se na maior parte deles numa proeminente barriga muitas vezes acompanhada com uma calvície precoce. Altos e baixos, os fatos de macaco ou ficavam muito grandes ou muito curtos. Era a companhia mais desaprumada que o exército alguma vez tinha tido.
Posicionados na parada no meio das companhias dos recrutas jovens, segundo a linguagem médica provocavam uma solução de continuidade do aprumo militar, mas era muito engraçado.
O contraste era tão grande, que era inevitável a quebra da disciplina. Os que não tinham o humor necessário para a circunstância, cedo começaram a criar atritos com os oficiais. Recusavam-se a fazer marchas em paço de corrida, alegando que o oficial era demasiado jovem, portanto com uma pujança física que eles já não possuíam. Não tinham condições físicas para o acompanhar durante a marcha.
O problema começava a agudizar-se, o que era muito mau para a disciplina militar, quando o próprio comandante da unidade, um coronel com cerca de cinquenta e cinco anos de idade, se dirigiu à parada, parou em frente da companhia dos médicos e disse: meus senhores sou mais velho que os senhores, quem vai dar a instrução hoje sou eu. Quero todos a correr atrás de mim, quem não conseguir fazer o percurso que eu vou fazer não tem licença de fim de semana.
Um silêncio de resignação abateu sobre os médicos. O coronel, homem de estatura média, físico normal para a idade, cabelo já bem grisalho iniciou a marcha com toda a formatura médica atrás dele. Ao passarem diante nós, os médicos sorridentes diziam a deus, piscavam o olho, outros faziam gestos menos decentes. Mas lá foram todos.
Quando regressámos à tarde depois da instrução, encontramos um grande alvoroço no quartel, pois a companhia dos médicos, primeira a sair para a instrução ainda não tinha regressado e mais, constava que o percurso escolhido pelo coronel além de mais longo que o habitual também era mais acidentado.
Lá vêm eles, alguém deu o aviso, todos corremos para ver a chegada escolhendo o ponto de mirone mais estratégico. Na frente vinha o coronel, vermelho que nem um tomate, ofegante, fazendo um esforço final para dar entrada no quartel com a dignidade que ainda lhe era possível. Seguiam-no cerca de uma dúzia de médicos, caprichosos em fazer boa figura, e se calhar em dar uma lição ao coronel, pois este ao escolher o caminho mais longo e acidentado de certo que não esperava que os recrutas diplomados o conseguissem fazer.
A entrada de toda a companhia demorou cerca de trinta minutos entre o primeiro e último. Coitados, vinham de rastos, amparados uns aos outros, quase não conseguiam respirar. O suor encharcou o fato de macaco tal maneira, que era difícil encontra uma parte que estivesse seca. O terço final era o mais lastimoso, eram os mais gordos, pois a barriga também pesa e muito, traziam a arma não a tiracolo mas a arrastar no chão. Engraçado, tal como o coronel, fizeram um esforço final para entrar no quartel em passo de corrida. Iam morrendo.
Após terem todos entrado fizeram na parada a formação possível, dado o estado em que se encontravam. O coronel, então em frente deles, com a voz forte que lhe restava ordenou: atenção sentido. Depois num tom de voz mais suave e com alguma malícia disse: como viram meus senhores não foi difícil, obrigado. Voltou à voz forte e ordenou de novo: atenção dispersar. Quando voltou as costas e se dirigia para o edifício, deu-se o inimaginável: os médicos desataram a bater palmas de aplauso. Todo o quartel ficou suspenso com a ousadia. O coronel parou, olhou para trás, e com um gesto teatral feito com o braço agradeceu os aplauso depois do que foi-se embora. Curioso, não me lembro de o voltar a ver na parada se não no dia do juramento de bandeira.
Duas semanas depois, com o posto de alferes, os médicos começaram a embarcar para o Ultramar onde muito trabalho esperava por eles. (continua)

9 Comments:

Blogger Fernando B. said...

Estava a ler o texto e a recordar-me da minha recruta em Mafra onde fiz o CSM.

Espero pelos episódios seguintes.

Depois dos senhores da Netcabo me terem silenciado, aqui estou de volta, para as minhas visitas diárias e para escrever alguma coisa no Fraternidade.

Um Fraterno Abraço,

1:23 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Curioso este teu Lembranças.E a saga continua.
Esta acerca dos médicos está genial.A figura do coronel também está muito bem estruturada.
Pelos vistos ainda tem continuação as "tuas" Lembranças.
Fico à espera.
Resto de bom domingo.
Abraço
Jp

2:06 da tarde  
Blogger AnaP said...

Relato interessante, Augusto. Gostei. Mas fiquei com um nózinho na garganta a pensar no muito trabalho que esperava esses médicos no Ultramar... Um beijo e boa semana*

1:19 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Fernando B
Espero que as anomalias da Netocabo estejem resolvidas e voltemos a ter as suas publicações.
Um abraço. Augusto

Olá Jp
Claro que tem continuação, ainda tenho muito para escrever da minha experiência militar.
Um abraço. Augusto

Olá AnaP
Pois é, hoje tudo foi esquecido e pior ainda tudo foi posto em causa. Mas eu vou contar.
Um abraço. Augusto

2:11 da tarde  
Blogger polittikus said...

Creio que fizes-te bem em recordar aquilo que muitos figem nunca ter existido... a guerra de Ultramar.

1:48 da tarde  
Blogger chemistry said...

Olá!

Seguir-se-á a guerra do Ultramar.
Muita gente não sabe como foi.
Conta.
Abraço.

2:31 da tarde  
Blogger Cecília said...

Muito interessantes estes relatos da 'guerra' que ainda não era mas seria em breve. Continue que há pouca gente a escrever sobre estes assuntos, o que é uma pena.
Um abraço

7:29 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá wearetwo
Vou contar.
Um abraço. Augusto

Olá Cecília
Obrigado pela visita. A história tem continuação.
Um abraço. Augusto

3:52 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bem Augusto, como mulher nascida nos tempos da ditadura, nunca tive este tipo de vivência. Contudo posso reconhecer o que dizes através de conversas ao serão com amigos que a tiveram, meus únicos pontos de referência. Estou a gostar de ler estes teus pedaços de memória, e vou igualmente ficar à espera da continuação.
Um abraço,
Ana Maria (www.aguasdemarco.blogspot.com)

11:30 da manhã  

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