quarta-feira, novembro 10, 2004

Discordando de Cícero

Marco Túlio Cícero é considerado o maior prosador da língua latina , e um dos mais importantes filósofos da Roma da Antiguidade. Vítima da intriga política, proscrito por Marco António, acaba por ser assassinado, em 43 a.C., quando tentava fugir para a Macedónia.
Cícero passou os últimos anos da sua vida a escrever; atingindo o ponto máximo da sua obra filosófica nas duas obras: Sobre os Deveres e Sobre a Velhice.
Em Sobre a Velhice, Cícero faz a apologia da velhice, descrevendo uma conversa (reportada a 150 a.C.) entre o velho Marco Pórcio Catão e dois jovens amigos, um dos quais se tornaria mais tarde o célebre Cipião-o-Africano, o Moço.
Catão, com 84 anos, é apresentado como um velhote feliz a quem os anos não puderam curvar. Para ele a velhice não é um período de inutilidade, uma idade vazia e sem alegria, mas o tempo da maturidade, da meditação serena, uma preparação para o eterno repouso, que ele encara sem angústia.
Este perfil de Catão mostra-nos a velhice, segundo Cícero, como a época da vida em que o homem atinge na Terra o seu mais alto desenvolvimento.
Catão na sua conversa passa em revista as censuras feitas à velhice.
Em primeiro lugar, pretende-se que ela torna as pessoas inaptas para o trabalho. Quem tal afirma é tão estúpido como aqueles que dizem que um timoneiro a bordo de um navio é inútil porque não sobe ao mastro. É verdade que as forças físicas decrescem com o Outono da vida, mas será motivo para nos lamentar-mos? «quanto à falta de vigor físico juvenil, não o invejo agora, como não invejava, quando adolescente, a força de um touro ou de um elefante. Importa fazer uso do que se tem e agir em qualquer caso de acordo com as suas forças».
Segue-se a censura que se faz à velhice ao pretender-se que é desprovida de prazeres. «Belo presente da idade se realmente nos tira o que a juventude tem de mais censurável! E como a natureza ou qualquer divindade não deu ao homem nada de mais belo do que o pensamento, esta divina dádiva não tem pior inimigo do que a voluptuosidade. Na realidade, quando domina a voluptuosidade, não há lugar para a temperança e de uma maneira geral não há lugar para a virtude».
Não devemos, pois, queixar da velhice, mas estar-lhe reconhecidos por conservar a nossa alma pura de toda a mancha. A maior felicidade da alma é conhecer, enfim, a calma e levar uma vida voltada para o interior, depois de durante anos ter servido o amor, a ambição, a sede de dominar, o ódio e todas as outras paixões!
Há ainda uma última acusação: um velho deve aguardar a chegada da morte a todo o instante. Em primeiro lugar, o facto é válido para todas as idades. Além disso, é mais penoso morrer na Primavera da vida do que no seu Outono. A morte é uma felicidade para quem acredita na imortalidade da alma.
«Não me cabe a mim lamentar a vida, como o fizeram muitos homens, mesmo cultos (…) saio da vida como de uma pousada e não como da minha verdadeira casa (…). Oh que bom dia será esse em que me hei-de dirigir a essa assembleia divina constituída pela reunião das almas, quando deixar a multidão corrompida deste mundo!»

Discordando.
A apologia da velhice de Cícero é compreensível, se tomarmos em conta que quando a escreveu já não estava na flor da idade. Contudo, se o residual da vida nos favorece a experiência e esta por sua vez beneficia a sabedoria, o contraste entre a deterioração física e a juventude das ideias, só pode ser traduzido em sofrimento.
Oculto por detrás do espelho, o espírito permanece numa juventude enganadora que o corpo há muito perdeu. Desilusão dolorosa quando tenta que o corpo reaja como nessa juventude.
Perdido na ilusão do tempo, são as lembranças do passado que não deixam admitir a realidade do presente, ser velho. Essas são, na maior parte das vezes, enaltecidas levando-o a fazer juízos de valor comparativos que não correspondem à realidade.
Desvaloriza o que fez no passado por já não ser possível fazer no presente. As paixões são sublimadas.
O ego super valorizado e a razão infalível, são as armas intelectuais da velhice para se opor à juventude. É o que lhe resta.
No reflexo do espelho, o seu maior inimigo, toma consciência da realidade e na solidão já não consegue enganar-se a si próprio. Então chora.
Sente a vida fugir-lhe lentamente por entre a vontade. A morte por vezes é pensada, mas sempre veemente rejeitada pela esperança íntima de viver.
A condição fundamental para morrer é estar vivo, pensa o velho, tentativa egoísta para igualar a juventude. Mas sabe que ela lhe está mais próxima.
O pior que lhe pode acontecer é a rejeição. Confirma a velhice.


“Não fosse a lembrança da mocidade, não se ressentiria a velhice. Toda doença consiste em não se saber fazer mais o que se soube fazer outrora. Pois o velho, em seu género, é decerto uma criatura tão perfeita como o moço na sua”. – Georg Lichtenberg (1742-1799), Aforismos.

10 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Das duas uma, Miss Wyoming: ou ainda é muito "nova" e não compreende as virtudes da velhice, ou então ainda não fez nada de perdurável na vida - uma casa, um livro, um filho. Um dia há-de compreender.
Um cota/velho.

2:41 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá anónimo cota
A virtude da velhice, realmente só pode ser apreciada por um velho, qualquer novo não está interessado nela.
Quanto ao fazer algo perdurável na vida, - uma casa não fiz, um livro não escrevi, um filho fiz e plantei uma árvore, mas não me parece que qualquer destas coisas dêm virtude à velhice, mas sim satisfação de algo que se fez bem feito.
De cota para cota. Um abraço. Augusto

5:29 da tarde  
Blogger chemistry said...

Mais que excelente este texto, tem cuidado com os erros ortográficos que isto agora anda mau.
Não sou cota, mas como afirmas que és então devo-te dizer que quando for "crescido" quero ser como tu e ter o descernimento necessário para escrever como tu escreves.
Mais uma vez parabens.
Abraço
Paulo

5:42 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Paulo
Muito obrigado pelo amável comentário. Não sou ainda muito cota, pelo menos nas ideias, faço um esforço por manter a cabeça o mais fresco possível. No meu Lembranças, dá para ter uma ideia da minha idade.
A única vantagem que a idade nos oferece é a experiência de vida, mas chega a uma altura que não queremos ter experiência nenhuma.
Um abraço. Augusto

1:38 da tarde  
Blogger polittikus said...

Muito para além de ser um grande intelectual. Cícero deixou um enorme legado sobre política nas suas obras sobre a democracia e o despotismo...

5:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A velhice é coisa de alma, é a alma que se cansa e fica cheia de cicatrizes, não importa a idade física...

dinah

1:08 da manhã  
Blogger trintapermanente said...

Os velhos são sabios e não deveriam ser marginalisados. Infelizmente é o que sucede nos nossos dias, são postos à margem esperando a morte. Não tendo já um papel activo na sociedade esta também não lhe reconhece outro. Mas quem é que diz que a sociedade que vivemos é perfeita? O mundo tambem não o é. Cabe a cada um , sentindo-se ainda valido tirar o melhor partido da vida e esta premissa é valida para todas as idades. No NOSSO mundo mandamos nós.

9:55 da manhã  
Blogger AnaP said...

Olá, Augusto! Mais uma vez um texto que faz pensar... Quando o li lembrei-me dos meus avós. A minha Avó Laura, que morreu com 74 anos de um derrame cerebral fulminante, mas que já tinha problemas de coração, uma hérnia, os dedos dos pés todos encavalitados e estava dobrada sobre si mesma, fazendo com que a caixa toráxica pressionasse o coração... mas ainda assim, cozinhava como mais ninguém conseguiu, apesar de seguir as receitas que ela fazia. O meu avô Manuel que morreu aos 72, depois de anos e anos a sofrer com a terrível doença de Parkinson. Não conseguia falar sem se cansar, não conseguia andar sem se cansar... e no entanto, lutou contra a morte até ao fim. O meu avô José, que sofrendo de angina de peito, foi morrer depois de ter tido sucessivos AVC's... e no entanto, enquanto foi vivo e já com muita dificuldade em andar, tinha um sentido de humor invejável. A minha avó Maria, que ainda está viva, mas que vive num mundo muito dela devido a uma arteroesclerose terrível. Foi uma senhora muito forte e determinada até há uns 3 anos atrás.
Tudo isto serve para dizer que a natureza nos trata muito mal e que tenho pena de ter perdido estas 4 pessoas de forma tão cruel. Sofreram tanto e para quê?...
A avó Maria ainda vive, é certo... e também é certo que não sofre... Mas, porque não podiam todos eles ser levados aos 100 anos durante um sono plácido e sem perder a sua dignidade?...
Beijos Augusto!

1:59 da tarde  
Blogger stillforty said...

Um post cheio de sabedoria ;), Augusto! Tu lá sabes...eu ainda nem pensei nisso :).
Uma vida voltada para o interior, sim, mas olhando tudo o que está à nossa volta, e, porque não, aprender com os mais jovens.
Eles também possuem a sua sabedoria.
Eu gosto, de gente mais jovem.
Beijo
Still

2:08 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá polittikus
OK está certíssimo.
Um abraço. Augusto

Olá Dinah
Realmente há quem fique velho de espírito prematuramente, independentemente da deterioração física.
Um abraço. Augusto

Olá Trintapermanente
"Os velhos são sábios e não deveriam ser marginalizados" Exactamente, o pior que pode acontecer a um velho é ser rejeitado.
Beijinhos

Olá Anap
A morte dos nossos entes queridos parece-nos sempre prematura, mas é a lei da vida. Resta-nos perpetuá-los na nossa memória.
Um abraço. Augusto

Olá Stillforty
Burro velho já não aprende línguas.
Beijinhos

9:50 da tarde  

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