segunda-feira, novembro 29, 2004

Viagem à Índia (segunda parte)



As pessoas andam nas ruas com ligeireza, com ar bem disposto e sorridentes. Os homens usam normalmente uma calça e camisa com a fralda por fora, ou calça com uma túnica comprida a três quartos, muitos turbantes, bigodes e barbas. As mulheres usam o sari com cores muito variadas o que empresta um colorido especial às ruas.
Nota-se perfeitamente que estamos num país em que as pessoas têm fracos recursos. Mas se isso não invalida que levem uma vida equilibrada, dentro dos seus padrões de rendimentos, claro, muito longe dos padrões da sociedade consumista ocidental, mas também não invalida a existência de uma camada da população que vive na maior das misérias. Isso é verificado pelos inúmeros pedintes, crianças são muitas e adultos, e até fiquei na dúvida se não alguns leprosos. Esta pobreza nos primeiros momentos é um choque pelo aspecto dos pedintes, andrajosos ou quase nus, muito sujos e com o ar de quem passa fome.
Uma coisa aprendi na Índia, a pobreza deles é encarada de maneira diferente da nossa. A pobreza, total falta de bens materiais, faz parte de um ciclo de vida, por isso aceite como um fatalismo. Sendo um país dos mais pobres, não é impunemente que o comunismo nunca lá entrou.
Também podemos ver muitos personagens vestidos ou quase nus, pintados das maneiras mais diversas, normalmente ornamentados com objectos, que lembram o faquir do nosso imaginário.
Muitos adivinhos. É relativamente fácil encontrá-los, muito bem vestidos a rigor indiano, com belos turbantes. Com um ar muito solene e persuasivo, oferecem os seus préstimos num belíssimo inglês, o que torna convite irresistível. A experiência foi fascinante e sobretudo intrigante. Após, não sei explicar como, contarem-nos o nosso passado mais íntimo, técnica para angariar credibilidade, começam a vaticinar o futuro, usando para tal um sistema do qual nunca tinha ouvido falar. Por exemplo: para responder à pergunta se vou casar, ele abre a mão do meu companheiro para verificarmos que nada contêm, depois pede que a feche. Em seguida, já com a mão fechada, ele mostra uma pequena flor, e diz: se isso vier a acontecer esta flor estará dentro da sua mão, após o que deita a flor ao vento com uma sopradela. Passados uns segundo pede para abrir a mão, o meu companheiro que era solteiro, tinha a flor dentro da mão. Tudo isto se passa sobre o meu olhar super atento, mas fiquei sem explicação. Usando sempre o mesmo sistema, as respostas foram-se sucedendo às perguntas, ficando a mão vazia quando a resposta era negativa.
Por cada pergunta pagava-se o que se queria, mas se fosse pouco refilava logo. Um incauto nas mãos destes adivinhos deixa lá a camisa podem crer.
Há diversos mercados de rua, que se encontram com facilidade. Uns serão mais generalistas na oferta, roupa, bijutaria de fazer andar à roda a cabeça das mulheres ocidentais, artigos de decoração, jóias etc. Outros há que são especializados num determinado produto.
Visitei um destes que só vendia tapetes, cobertas e almofadas de uma riqueza de trabalho manual e cores ímpares. A rua era pequena e as vendedoras estavam todas alinhadas com os seus artigos, num só lado da rua. Com a nossa chegada, ocidentais com dinheiro na algibeira e apetência para comprar, o mercado agitou-se com uma algazarra infernal de gritos de oferta e aceno de mercadorias. Não sabíamos para onde nos voltarmos, queríamos ver tudo primeiro, mas as vendedoras penduravam-se em nós não nos deixando quase andar. Quando por fim parámos junto de uma delas e começamos a perguntar os preços, todo o barulho parou. As restantes vendedoras suspenderam a ruidosa oferta, para não perturbar o negócio, aguardando o seu desfecho. Fiquei impressionado pela lição de respeito pelo semelhante. Concretizada a compra, no meu caso umas lindíssimas almofadas, a algazarra da oferta voltou de novo a se ouvir, talvez com mais intensidade ainda, pois já tínhamos provado que estávamos ali não só ver mas para comprar também.
Na Índia também faz parte da cultura regatear o preço. Mas velhota a quem comprei as almofadas estava de cócoras, descalça, com o rosto muito enrugado pelos anos ao Sol, já sem parte dos dentes, cabelo muito grisalho e desalinhado, com um sari escuro, muito velho e roto e com uma cara e modos tão simpáticos, que furei o protocolo, não regateei e paguei logo à primeira o que ela me pediu. No nosso dinheiro o preço era irrisório, ir regatear para quê?
Outro mercado que também me impressionou muito, era uma espécie de centro comercial subterrâneo. Aqui a venda era feita em pequenas lojas só com uma porta sem montras, todas juntas umas às outras de ambos os lados dos estreitos corredores, com os seus artigos expostos no exterior, o que tornava difícil transitar entre elas. O aspecto do conjunto era fascinantemente exótico e embriagante os cheiros muito activos, por ser um recinto fechado, que pairavam no ar. Dentro das lojas, com excepção das de jóias, não havia balcão, todo o negócio era feito sentado no chão sobre um tapete. Para compráramos uma coisa eles insistiam em mostra cinquenta, mas de uma maneira muito personalizada e descritiva. Para muitos talvez fosse uma grande chatice, mas para mim foi delirante.

quinta-feira, novembro 25, 2004

Viagem à Índia (primeira parte)



A Índia está a comemorar este ano o tricentésimo quinquagésimo aniversário do seu mais emblemático monumento, e um dos mais belos do Mundo: o Taj-Mahal. O monumento mandado erigir por um marajá de credo islâmico, situado nos arredores da cidade de Agra, é um tributo de amor à sua amada esposa falecida.
Aproveitando a oportunidade da efeméride vou falar um pouco da visita que efectuei à Índia em Outubro de 2000.
Desde muito cedo que a Índia exerceu um grande fascínio sobre mim. A filosofia, a religião, os homens santos, as construções religiosas, as gentes e o seu modo de encara a vida, as cores, os perfumes, as vestes, os turbantes siks, as barbas, tudo me fazia imaginar um mundo à parte, incompreensível e esotérico.
Na escola primária, quando o professor dava a História de Portugal e falava da chegada de Vasco da Gama à Índia, o nome Calecut tinha para mim uma sonoridade mágica, fascinava o meu imaginário de criança.
Sempre fui muito interessado pela cultura e história da Índia e, quanto mais procurava enriquecer os meus conhecimentos, maior era o desejo de visitá-la.
A oportunidade surgiu quando por razões profissionais tive de me deslocar a Nova Deli.
A viagem de avião de Paris para Nova Deli demorou cerca de 15 horas, o que é tempo demais para estar dentro de um avião. Não foi um tormento total, porque no avião criaram um espaço furtivo para os fumadores poderem satisfazer o vício. Ia ser muito desesperante estar 15 horas sem fumar.
No avião já se sentia um cheirinho a Índia, pois muitos dos passageiros eram indianos e uma parte deles, embora vestidos ocidentalmente usavam o turbante e as mulheres mais conservadores, o sari e a pinta vermelha na testa.
À medida que as horas passavam e nos aproximávamos da Índia, o meu espírito começou a ser assaltado por uma ansiedade. Será que a Índia é mesmo como eu imaginava, ou iria ser uma decepção.
Por fim cerca das 2 horas da manhã aterramos em Nova Deli. Após as formalidades de entrada, dirigimo-nos para a saída, onde uma multidão esperava os passageiros. A primeira impressão ao olhar para todas aquelas pessoas, foi neutra, ou porque estava cansado ou porque estava à espera não sei bem do quê. Apanhámos um táxi para o hotel O carro muito velho, não devia estar em muito bom estado, pois pareceu-me ter problemas com a direcção.
Durante o percurso, como noite estava muito escura e as luzes nas ruas eram mortiças, não conseguia ver muito bem o trajecto nem as casas que o circundavam. Não tinha a noção de estar num lugar exótico, bem mais me pareciam as ruas de uma vila qualquer.
Mas eis que entra numa avenida, larga com óptima iluminação, e logo vejo uma belíssima mesquita toda iluminada pela luz de projectores. Ainda não refeito da surpresa já o táxi parava em frente ao meu hotel que ficava logo a seguir.
No hotel fiquei de boca aberta, quando um dos porteiros com um aprumo militar impecável, vestido a rigor à indiana com turbante e barba, me abriu a porta do táxi e me cumprimentou num fleumático inglês; good mornig sir, welcome to the Índia.
Parecia um saloio a olhar para o homem, e até devo confessar, com um pouco falta de à vontade. As nossa raízes colonialistas, nunca foram premiadas com esta educação britânica. Fomos mais práticos, para nós um lacónico boa noite era o suficiente.
O sono era tanto que além dos porteiros não reparei em mais nada do hotel, só queria dormir.
No dia seguinte acordei cedo e procurando dominar a excitação desci do quarto para ir tomar o pequeno almoço, mas não sem antes ir primeiro até à porta para rever os porteiros. Até parece infantil mas tinha de confirmar a visão da madrugada. Com o mesmo aprumo militar, com uma farda que faziam lembrar os sipaios do filme Os Lanceiros da Índia, sorridentes, mal me viram voltaram a cumprimentar, good morgning sir. May I help you? Não obrigado só vim cá fora para te ver, pensei eu para comigo.
Satisfeita a curiosidade, voltei a entrar e procurei o meu companheiro de viagem com quem me tinha deslocado à Índia e, por entre good mornings sir à esquerda e à direita lá fomos comer. Um pequeno almoço divinal. Café com leite e um buffet de bolos à descrição, que após o primeiro olhar desconfiado verificamos serem uma maravilha.
Depois saímos, à nossa espera estava um carro com motorista que tínhamos contratado para a nossa estadia. Um velho táxi inglês. É completamente impossível deslocarmo-nos para onde quer que seja sem carro com motorista.
Dentro do carro que nos iria levar ao centro da cidade, onde teria lugar a nossa primeira reunião de negócios, vivemos a primeira experiência na Índia. O trânsito.
O trânsito além de uma intensidade inimaginável é completamente caótico. As avenidas estão repletas de carros, camionetas, bicicletas, triciclos e tudo anda numa velocidade diabólica, passam pela direita, pela esquerda, param, atravessam-se à frente uns dos outros, tudo isto ao som de um barulho infernal de businadelas. Mas insultos ou maus modos, nada. Todos sorriem. Para nós que julgamos ter muito trânsito, podem crer que viajar nas artérias de Nova Deli é uma autêntica aventura.
Por motivos financeiros e dificuldades de importação, os carros são muito velhos, já reconstruídos e reparados vezes sem conta, mas andam que é o fundamental para eles. Alguns são velhas relíquias coloniais herdadas dos ingleses. As camionetas não fogem à regra, velhinhas, velhinhas, todas muito decoradas com pinturas que lhe cobrem toda a carroçaria.
A lotação dos carros não tem limite, enquanto couberem é entrar, entrar, quantos mais levar mais barato fica a viagem. As camionetas também não têm limite de carga quer em peso quer em volume.
Os triciclos na sua maior parte são táxis, e o que era previsto levar dois passageiros, leva quatro e cinco não contando com as crianças de colo.
As bicicletas, essas são os irreverentes do trânsito, viram à esquerda viram à direita, não olham, não fazem qualquer sinal, quem se sentir perturbado neste caos harmonioso que pare.
Está muito calor, perto de 40 graus, no ar existe uma névoa de poluição poeirenta que ajuda a filtrar os raios solares e ao mesmo tempo dá uma cor de ocre ao envolvimento atmosférico, que fica com um ar etéreo. Os cheiros exóticos imperam por toda a parte.

domingo, novembro 21, 2004

Lembranças VI

Como não há bem que sempre dure e mal que não acabe, a recruta acabou por chegar ao fim. Após o juramento de bandeira, dia em que foi servido rancho melhorado, foi indicado aos recrutas os futuros destinos onde iriam tirar as respectivas especialidades do curso de cabos milicianos. Para quem não sabe, um cabo miliciano era uma espécie de sargento barato. Enquanto permanecesse na metrópole tinha o posto de cabo, e recebiam uma miséria de pré, mas fazia o serviço de sargento. Só quando embarcavam para o Ultramar é que lhe davam as divisas de furriel, primeiro grau na hierarquia dos sargentos, e lhe pagavam em conformidade.
A distribuição decorreu no meio de uma justificada ansiedade, pois a especialidade de atirador, era a menos desejada, por ser a de maior risco. Estava a ouvir a distribuição quando para a especialidade de enfermagem ouvi chamar pelo meu nome, desculpem, pelo meu número, pois na tropa somos todos anónimos. Nem queria acreditar, estava safo de ir para atirador.
Contudo, passado o primeiro momento de euforia, a ideia de ir para enfermagem começou a causar-me um mal-estar. Com tantas especialidades, logo me havia de calhar esta. Não vou ter estômago para aguentar. Não suporto o cheiro a éter quanto mais ver feridas e dar injecções.
Mas como as ordens na tropa não dão direito a reclamações, não houve outro remédio senão ir tirar o curso de enfermagem, e com esse fim deram-me a guia de marcha, para me apresentar no Hospital Militar Principal, situado em Lisboa no Largo da Estrela. Por ironia do destino, o hospital fica mesmo ao pé da casa onde nasci.
Na altura não fazia ideia de como iriam ser os meus próximos três anos de tropa e como ,de certa maneira, marcariam a minha vida.
Muito se tem escrito acerca da guerra do Ultramar, nesta ou naquela província, neste ou naquele local, mas o que eu vou relatar talvez seja a visão mais global e aterradora de toda a guerra. Num só sítio, vivi em indirecto a guerra em todas as frentes com todos os seus maiores dramas. Talvez seja esta a guerra que falta ser escrita, assim eu tenha habilidade para prestar com esta narração, a minha homenagem a todos aqueles que no cumprimento do dever morreram ou ficaram estropiados, e que hoje em dia são esquecidos ou pior ainda, renegados. Bem hajam todos os que não renegaram a Pátria quando os chamou, independentemente de acreditarem ou não nos motivos do chamamento. A Pátria não se discute, é o bem maior de qualquer povo.
Após as despedidas, por entre umas cervejas na messe, e ter entregue ao amanuense o equipamento que tinha recebido à chegada, excepto o fardamento, mas sem o odiado fato macaco, voltei as costas a Mafra sem saudades, e lá fui a caminho do hospital. (continua)

sábado, novembro 20, 2004

Pergunta virtual?

Que espécie de país é este em que vivemos, quando o governo acompanhado por parte da oposição, o que é mais grave ainda, vem questionar a população sobre um assunto de primeira importância para ela, com uma pergunta que ninguém entende, e em que pelo menos 90% da população, não faz a menor ideia de que assunto se trata?
Será que se pode chamar a isto uma pergunta virtual, para uma resposta virtual, sobre um assunto que possivelmente lhes interesse que seja virtual?

terça-feira, novembro 16, 2004

Confronto

Confrontado diariamente com notícias ligadas ao mundo islâmico, melhores ou piores, conforme a óptica ocidental, achei oportuno dizer alguma coisa sobre o Islamismo.
Para nós cristãos, e no caso particular dos católicos, a maior parte não praticante, em que o único vínculo à religião é a tradição, não conseguimos compreender o que é uma profunda fé em Deus, nem tão pouco a observância rigorosa dos preceitos religiosos.
O Islão vive da convicção religiosa dos seus adeptos, orientados por líderes religiosos, que fazem parte do próprio povo, por isso mesmo respeitados e obedecidos, enquanto o Cristianismo criou a Igreja, um Estado temporal, individualizado da sociedade, muitas vezes mais político do que espiritual.
O acto religioso dos islamitas é voluntariosamente observado, tornando-se parte integrante da sua vida, e não circunstanciado como acontece na maior parte do Cristianismo católico.
Os valores religiosos, em ambas as religiões impostos pela força, no Islão sempre foram acompanhados de alguma benevolência religiosa, contrastando com a total intolerância característica do Cristianismo.
O Cristianismo ao impor a sua intolerância ao Islão, o caso contrário não aconteceu tão veementemente, provocou, desde o princípio, um confronto civilizacional.
Hoje o confronto mantêm-se, dando a intolerância religiosa do Ocidente lugar aos interesses, o que nos leva a assistira agora, não a um confronto civilizacional, mas sim a um confronto entre interesses e princípios.
Para o mundo ocidental materialista é completamente imperceptível o mundo espiritual oriental, daí ficarmos chocados com os meios utilizados na luta pelo Islão.
Rezar a Alá e morrer pelo seu ideal religioso é coisa tão difícil de compreender como o haraquiri japonês. Não é que a vida para eles tenha menos importância do que para nós, só que a sua espiritualidade, chamada por nós de fanatismo, é mais forte do que a nossa, levando a que eles releguem a vida para segundo plano em relação à fé.
Esta é que é a grande diferença entre o mundo do Cristianismo e o mundo Islamismo, apesar de na sua primeira essência serem muito semelhantes. Tentarmos imiscuirmo-nos nas suas tradições impondo a nossa cultura é tão difícil como “um camelo passar pelo buraco da agulha”.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Discordando de Cícero

Marco Túlio Cícero é considerado o maior prosador da língua latina , e um dos mais importantes filósofos da Roma da Antiguidade. Vítima da intriga política, proscrito por Marco António, acaba por ser assassinado, em 43 a.C., quando tentava fugir para a Macedónia.
Cícero passou os últimos anos da sua vida a escrever; atingindo o ponto máximo da sua obra filosófica nas duas obras: Sobre os Deveres e Sobre a Velhice.
Em Sobre a Velhice, Cícero faz a apologia da velhice, descrevendo uma conversa (reportada a 150 a.C.) entre o velho Marco Pórcio Catão e dois jovens amigos, um dos quais se tornaria mais tarde o célebre Cipião-o-Africano, o Moço.
Catão, com 84 anos, é apresentado como um velhote feliz a quem os anos não puderam curvar. Para ele a velhice não é um período de inutilidade, uma idade vazia e sem alegria, mas o tempo da maturidade, da meditação serena, uma preparação para o eterno repouso, que ele encara sem angústia.
Este perfil de Catão mostra-nos a velhice, segundo Cícero, como a época da vida em que o homem atinge na Terra o seu mais alto desenvolvimento.
Catão na sua conversa passa em revista as censuras feitas à velhice.
Em primeiro lugar, pretende-se que ela torna as pessoas inaptas para o trabalho. Quem tal afirma é tão estúpido como aqueles que dizem que um timoneiro a bordo de um navio é inútil porque não sobe ao mastro. É verdade que as forças físicas decrescem com o Outono da vida, mas será motivo para nos lamentar-mos? «quanto à falta de vigor físico juvenil, não o invejo agora, como não invejava, quando adolescente, a força de um touro ou de um elefante. Importa fazer uso do que se tem e agir em qualquer caso de acordo com as suas forças».
Segue-se a censura que se faz à velhice ao pretender-se que é desprovida de prazeres. «Belo presente da idade se realmente nos tira o que a juventude tem de mais censurável! E como a natureza ou qualquer divindade não deu ao homem nada de mais belo do que o pensamento, esta divina dádiva não tem pior inimigo do que a voluptuosidade. Na realidade, quando domina a voluptuosidade, não há lugar para a temperança e de uma maneira geral não há lugar para a virtude».
Não devemos, pois, queixar da velhice, mas estar-lhe reconhecidos por conservar a nossa alma pura de toda a mancha. A maior felicidade da alma é conhecer, enfim, a calma e levar uma vida voltada para o interior, depois de durante anos ter servido o amor, a ambição, a sede de dominar, o ódio e todas as outras paixões!
Há ainda uma última acusação: um velho deve aguardar a chegada da morte a todo o instante. Em primeiro lugar, o facto é válido para todas as idades. Além disso, é mais penoso morrer na Primavera da vida do que no seu Outono. A morte é uma felicidade para quem acredita na imortalidade da alma.
«Não me cabe a mim lamentar a vida, como o fizeram muitos homens, mesmo cultos (…) saio da vida como de uma pousada e não como da minha verdadeira casa (…). Oh que bom dia será esse em que me hei-de dirigir a essa assembleia divina constituída pela reunião das almas, quando deixar a multidão corrompida deste mundo!»

Discordando.
A apologia da velhice de Cícero é compreensível, se tomarmos em conta que quando a escreveu já não estava na flor da idade. Contudo, se o residual da vida nos favorece a experiência e esta por sua vez beneficia a sabedoria, o contraste entre a deterioração física e a juventude das ideias, só pode ser traduzido em sofrimento.
Oculto por detrás do espelho, o espírito permanece numa juventude enganadora que o corpo há muito perdeu. Desilusão dolorosa quando tenta que o corpo reaja como nessa juventude.
Perdido na ilusão do tempo, são as lembranças do passado que não deixam admitir a realidade do presente, ser velho. Essas são, na maior parte das vezes, enaltecidas levando-o a fazer juízos de valor comparativos que não correspondem à realidade.
Desvaloriza o que fez no passado por já não ser possível fazer no presente. As paixões são sublimadas.
O ego super valorizado e a razão infalível, são as armas intelectuais da velhice para se opor à juventude. É o que lhe resta.
No reflexo do espelho, o seu maior inimigo, toma consciência da realidade e na solidão já não consegue enganar-se a si próprio. Então chora.
Sente a vida fugir-lhe lentamente por entre a vontade. A morte por vezes é pensada, mas sempre veemente rejeitada pela esperança íntima de viver.
A condição fundamental para morrer é estar vivo, pensa o velho, tentativa egoísta para igualar a juventude. Mas sabe que ela lhe está mais próxima.
O pior que lhe pode acontecer é a rejeição. Confirma a velhice.


“Não fosse a lembrança da mocidade, não se ressentiria a velhice. Toda doença consiste em não se saber fazer mais o que se soube fazer outrora. Pois o velho, em seu género, é decerto uma criatura tão perfeita como o moço na sua”. – Georg Lichtenberg (1742-1799), Aforismos.

sábado, novembro 06, 2004

Lembranças V

Malgrado o acidente do qual resultou o dedo partido, a recruta decorreu sem incidentes de maior. Pouco haveria mais com interesse para relatar, caso as necessidades operacionais do exército não tivessem levado à mobilização dos médicos até à idade de 45 anos.
Os médicos, apesar de já exercerem a profissão há muito tempo e alguns até grandes especialistas, foram obrigados a fazer um pequeno período de recruta para adaptação à vida militar.
A sua incorporação efectuou-se cerca de quinze dias depois da nossa. A parada do quartel, até aí tão militarmente aprumada, passou simultaneamente ao aprumo, e a mostrar a caricatura deste.
Os novos recrutas, na maior parte casados, ao contrário do que sucedeu comigo, que fui levado ao quartel pelos meus pais, alguns deles foram levados pelos filhos. Muito eu gostaria de poder assistir à despedida entre pais e filhos. Oh pai vê lá se portas bem, não deixes a malta ficar mal. Algumas das suas mulheres, possivelmente teriam recomendado: não te esqueças das ceroulas, olha que as noites são muito frias.
A idade e a vida sedentária que levavam evidenciava-se na maior parte deles numa proeminente barriga muitas vezes acompanhada com uma calvície precoce. Altos e baixos, os fatos de macaco ou ficavam muito grandes ou muito curtos. Era a companhia mais desaprumada que o exército alguma vez tinha tido.
Posicionados na parada no meio das companhias dos recrutas jovens, segundo a linguagem médica provocavam uma solução de continuidade do aprumo militar, mas era muito engraçado.
O contraste era tão grande, que era inevitável a quebra da disciplina. Os que não tinham o humor necessário para a circunstância, cedo começaram a criar atritos com os oficiais. Recusavam-se a fazer marchas em paço de corrida, alegando que o oficial era demasiado jovem, portanto com uma pujança física que eles já não possuíam. Não tinham condições físicas para o acompanhar durante a marcha.
O problema começava a agudizar-se, o que era muito mau para a disciplina militar, quando o próprio comandante da unidade, um coronel com cerca de cinquenta e cinco anos de idade, se dirigiu à parada, parou em frente da companhia dos médicos e disse: meus senhores sou mais velho que os senhores, quem vai dar a instrução hoje sou eu. Quero todos a correr atrás de mim, quem não conseguir fazer o percurso que eu vou fazer não tem licença de fim de semana.
Um silêncio de resignação abateu sobre os médicos. O coronel, homem de estatura média, físico normal para a idade, cabelo já bem grisalho iniciou a marcha com toda a formatura médica atrás dele. Ao passarem diante nós, os médicos sorridentes diziam a deus, piscavam o olho, outros faziam gestos menos decentes. Mas lá foram todos.
Quando regressámos à tarde depois da instrução, encontramos um grande alvoroço no quartel, pois a companhia dos médicos, primeira a sair para a instrução ainda não tinha regressado e mais, constava que o percurso escolhido pelo coronel além de mais longo que o habitual também era mais acidentado.
Lá vêm eles, alguém deu o aviso, todos corremos para ver a chegada escolhendo o ponto de mirone mais estratégico. Na frente vinha o coronel, vermelho que nem um tomate, ofegante, fazendo um esforço final para dar entrada no quartel com a dignidade que ainda lhe era possível. Seguiam-no cerca de uma dúzia de médicos, caprichosos em fazer boa figura, e se calhar em dar uma lição ao coronel, pois este ao escolher o caminho mais longo e acidentado de certo que não esperava que os recrutas diplomados o conseguissem fazer.
A entrada de toda a companhia demorou cerca de trinta minutos entre o primeiro e último. Coitados, vinham de rastos, amparados uns aos outros, quase não conseguiam respirar. O suor encharcou o fato de macaco tal maneira, que era difícil encontra uma parte que estivesse seca. O terço final era o mais lastimoso, eram os mais gordos, pois a barriga também pesa e muito, traziam a arma não a tiracolo mas a arrastar no chão. Engraçado, tal como o coronel, fizeram um esforço final para entrar no quartel em passo de corrida. Iam morrendo.
Após terem todos entrado fizeram na parada a formação possível, dado o estado em que se encontravam. O coronel, então em frente deles, com a voz forte que lhe restava ordenou: atenção sentido. Depois num tom de voz mais suave e com alguma malícia disse: como viram meus senhores não foi difícil, obrigado. Voltou à voz forte e ordenou de novo: atenção dispersar. Quando voltou as costas e se dirigia para o edifício, deu-se o inimaginável: os médicos desataram a bater palmas de aplauso. Todo o quartel ficou suspenso com a ousadia. O coronel parou, olhou para trás, e com um gesto teatral feito com o braço agradeceu os aplauso depois do que foi-se embora. Curioso, não me lembro de o voltar a ver na parada se não no dia do juramento de bandeira.
Duas semanas depois, com o posto de alferes, os médicos começaram a embarcar para o Ultramar onde muito trabalho esperava por eles. (continua)