quarta-feira, outubro 13, 2004

O Budismo

.

Uma das grandes estultícias do Mundo Ocidental é pensar que é capaz de compreender a mentalidade Oriental.
A tentativa de compreensão do pensamento oriental é feita pelo ocidente baseada nos seus padrões civilizacionais, tendo como resultado, essa compreensão no fim não ser mais do que uma tradução à letra sem o conteúdo da “alma” oriental.
Muitos são os ocidentais que se sentem fascinados pelo Budismo, pretensos praticantes de tão elevada linha de pensamento, recorrendo a práticas ocidentalizadas, que de certa forma nada têm a haver com a essência do Budismo.
A meditação e a introspecção budistas, não se fazem com um simples fechar de olhos, respirar fundo, tentar não pensar em nada e em alguns casos emitir os sons sagrados. A meditação budista é muito profunda e está interligada às práticas sublimadoras, que não são facilmente aceites pelos ocidentais aspirantes ao mundo budista.
Salvo raras excepções, o Budismo para os ocidentais é uma espécie de moda, por ignorarem na realidade o que é o Budismo, e só o conhecerem muitas vezes através de charlatães, hoje em dia muito frequentes, chamados de gurus.
A título de esclarecimento passo a apresentar algumas notas sobre o Budismo.

Fundado na Índia por volta do século VI a.C., e inspirado nos ensinamentos de Siddharta Gautama, cognominado o Buda, o Budismo é a denominação dada pelos ocidentais ao sistema que visa à realização plena da natureza humana e à criação de uma sociedade perfeita e pacífica. Aberto a todos os grupos sociais, etnias, culturas e nacionalidades, desenvolveu-se por todo o Extremo Oriente.
Buda convencido de que a vida é cheia de sofrimento e sacrifícios, resolveu buscar a iluminação religiosa. Torna-se um monge mendicante que rompe com o bramanismo, a religião pós védica da Índia.
A sua pregação baseava-se na crença de que a existência é um ciclo contínuo de morte e renascimento. Assim, a posição e o bem-estar na vida decorrem da conduta nas vidas anteriores. Um elo liga a vida presente à passada.
O objectivo do Budismo é alcançar o nirvana, isto é libertar o humano de ciclo da vida e da morte.
Para atingi-lo, é preciso seguir a doutrina das Quatro Nobres Verdades e da Senda Óctupla. As Quatro Nobres Verdades são: 1) a dor universal; a constatação de que o sofrimento é factor inerente a toda a forma de existência; 2) ela é causada pelos desejos que alimentam a nossa vida tecida de ilusões; de que a origem do sofrimento é a ignorância; 3) suprimindo esses desejos, eliminar-se-á a dor; de que se pode dominar o sofrimento por meio da extinção da ignorância; 4) seremos nisto ajudados pela meditação e pela piedade para com todos os seres; de que o caminho que leva ao domínio do sofrimento, caminho médio entre a automortificação. O abandono dos prazeres, consiste na Senda Óctupla. Esta abrange compreensão correcta, pensamento correcto, palavra correcta, acção correcta, modo vida correcto, esforço correcto, atenção correcta e concentração correcta. Assim se atinge o Nirvana que exige pureza de fé, de vontade, de aplicação, de memória e de meditação.

Voltando ao princípio da questão, de como o ocidental poderá entender a “alma” dos orientais, quando estes, por sua vez fizeram três interpretações diferentes do Budismo, criando três grandes correntes, assim chamadas.

O Pequeno Veículo, ou Hinaiana, considera-se o mais antigo e ortodoxo e presta culto só a Buda. Suprimindo o eu e a ilusão do universo, chega-se ao Nirvana (uma espécie de indefinido nada universal, do qual tudo devém e ao qual deve retornar no final das reencarnações). Buda disse: «A nada ames, a nada odeies, nada desejes, a fim de que, soprando sobre o mundo, tu o possas extinguir.» É praticado em Ceilão, na Birmânia, na Tailândia e no Sudeste asiático até Java.
O Grande Veículo, ou Mahaiana, assegura que o Buda encarna periodicamente na Terra para salvar os homens. Conquistou o Tibete, a China, a Mongólia, a Coreia e o Japão, retomando o princípio de «libertado que, por sua vez, liberta», de Gautama.
O Veículo de Diamante, ou Vajraiana, uma terceira corrente, bastante impregnada de erotismo e de magia xivaíta, foi influenciada pela vaga tântrica.
Este conjunto comporta impressionantes paradoxos:
1) Buda nunca se apresentou como deus, nem mesmo indirectamente. No entanto, os seus discípulos divinizaram-no e alguns deles criaram hierarquias de budas divinos. Os Tibetanos acrescentaram-lhe mesmo uma abundante demonologia.
2) Nascido nas Índias como reacção contra o induismo, o budismo será quase eliminado por este último (hoje conta apenas 200.000 praticantes na Índia. Mas fora da Índia agrupa mais de 500 milhões de fiéis)
3) Nascido nas Índias, não é verdadeiramente hindu nas suas concepções. O próprio Gautama nasceu no que é o actual Nepal e é apresentado como um estrangeiro.
4) Buda falava um dialecto e não deixou nenhum ensinamento escrito, o que não impede que exista um gigantesco cânon triplo (sânscrito-tibetano-chinês) para o Grande Veículo e o Triplo Vaso para o Pequeno.
5) Tipicamente negativo na base (nada de Deus; o mundo é uma ilusão e o eu também o é), torna-se uma receita prática, positiva, de salvação.

Como vimos o Budismo não é uma coisa tão linear assim, para que qualquer ocidental o compreenda, cultural e religiosamente influenciado por uma religião, o Cristianismo, voltada para a colectividade. O Budismo não é uma religião, mas sim, uma filosofia de vida que visa unicamente a salvação individual, baseada numa conduta de certa forma transcendental para os ocidentais.
Talvez seja mais fácil um oriental compreender a cultura ocidental, do que um ocidental compreender o pensamento oriental.



17 Comments:

Blogger Yardbird said...

Nem todo o oriental, acho eu. Um oriental seguidor do budismo, acredito perfeitamente, mas o mesmo se passará com o ocidental não seguidor dos dogmas judaico-cristãos.
Abraço, Augusto

10:38 da manhã  
Blogger Fernando B. said...

Prezado Amigo,

Deste texto sobre do Budismo, muito bem sintetizado e elaborado, retive que "A sua pregação baseava-se na crença de que a existência é um ciclo contínuo de morte e renascimento", porque é assim mesmo que eu entendo o Ciclo da Vida: Nascer. Morrer. Decomposição / Fertilização e desta (re) nascerão novas Vidas.

Colocar-se-á a questão do Espirito ou da Alma. Esse é o grande mistério que as diversas Religiões interpretam à sua maneira, assim como as várias correntes filosóficas e, na minha opinião, os seus conceito especulativos.

O Budismo não se afirma como uma religião, mas Buda, ao que sabemos, assumiu-se como um condutor de massas, tal como, segundo a Igreja Católica Apostólica Romana, Jesus Cristo, o fez, em nome de Deus.

Se Buda, com os seus ensinamentos, indicou o caminho para atingir o Nirvana, não será este um conceito de Deus?. Por isso e na minha modesta opinião, o Budismo tem mais características Religiosas do que Filosóficas.

Como todas as Religiões, criados pelo Homem, o Budismo, tem nos seus conceitos doutrinários, muita substancia dignificadora para o desenvolvimento do Ser Humano. A introspecção e a contemplação da Mãe natureza, são actos com os quais estou inteiramente de acordo. Porém, também é sua característica, tal como em outras Religiões, o conformismo e a passividade.

Muito mais haveria para dizer, mas já me alonguei demasiado.

Fraternas Saudações,

11:56 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá Fernando
Gostei muito do seu comentário, contudo vou contrapor.
Os ensinamentos de Buda na sua essência, não são uma religião, talvez sim uma filosofia de vida. Primeiro não crê num criador, segundo os seus princípios não são doutrinários.
Enquanto Cristo divulga normas de conduta colectiva relacinando-as com o Criador, Buda única e simplesmente procura formas e perceitos com que cada um, e por si próprio, atinja o estado de felicidade perfeita.
Por isso mesmo não se assume como condutor de massa, mas sim unicamente exemplo de vida.
O Nirvana não tem qualquer conexão com Deus, que é um ser Criador. O Nirvana é um estado indefinido do qual as criaturas emanam e ao qual retornam passando a fazer parte integrante dele.
A alma é uma parte emanada do grande Todo, que origina a vida ilusória, é uma espécie de individualização rebelde que é castigada com diversas incarnações até se redimir, para poder voltar a fazer parte do grande Todo.
(Esta parte é a mais complexa e necessitava de mais tempo para ser discutida e exposta)
À semelhança do que aconteceu com Cristo, os homens posteriormente vão divinizá-lo e, essa divindade é que vai ser o ponto de partida para a formação da religião.
Quem fundou a religião cristã não foi Cristo, mas sim alguns anos após a sua morte, Paulo, separando-se do judaísmo deu início à formação da Igreja Cristã.
Também não foi Buda que criou o Budismo, mas os que posteriormente o interpretaram de maneiras diferentes, conforme está exposto no meu texto.
Para terminar, o Budismo não é conformista nem passivo, mas sim um conjunto activo de acções sublimadoras.

9:34 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá yardbird
Um ocidental não seguidor dos dogmas judaico-cristãos, só pode ser ateu ou agnóstico, o que o impossibilita ter
qualquer compreensão para além do mundo dos sentidos.

10:03 da tarde  
Blogger aba said...

Interessante... como Princípio de Vida!Mas.. seja em que cultura fôr, quando a gente morre... morre mesmo! :)

Quanto ao teu comentário ao comentário do yardbird, não concordo que um agnóstico, como eu, esteja limitado à compreensão para além do mundo dos sentidos. Cada ser humano sublima a vida em função da sua espiritualidade!!
Toma! :)

6:26 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá iluminado
Gostei do "toma", evidencia a firmeza da opinião. Quanto ao resto vamos lá contrapor. Segundo o dicionário da língua portuguesa, o agnosticismo é: doutrina filosófica que declara o absoluto inacessível ao espírito humano, agnóstico é: o que ignora ou aparenta ignorar tudo quanto não caia sob o domínio dos sentidos. Correctíssimo, só mesmo um agnóstico, conforme a definição do dicionário, pode afirmar que quando se morre...morre mesmo.
E esta? não toma mas esclarece.
Um abraço. Augusto

1:16 da tarde  
Blogger AnaP said...

Eu não posso dar uma opinião porque o quero aqui dizer é que li com muito interesse este post, pois não sabia que o budismo tinha todas estas correntes. É óbvio que não pode ser linear. Que religião, corrente ideológica ou filosófica é linear?!
De qualquer modo, hoje posso dizer que aprendi alguma coisa interessante. Obrigada, Augusto!

2:08 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá AnaP

O Budismo na sua essência não tem nada a haver com o budismo que normalmente chega ao nosso conhecimento, variando conforme a sua proveniência.
Não é uma religião, mas sim como o Confuncionismo, uma filosofia de vida.

3:44 da tarde  
Blogger trintapermanente said...

Se aperfeiçoarmos o individuo, benefecia o colectivo, não? De qq forma acho muito dificil um ocidental conseguir aplicar os ensinamentos de Buda. Está muito dependente do colectivo e como tal a maior parte das vezes reage em vez de agir. Só se nos elevearmos é que conseguimos ver com perfeição a globalidade das coisas. E isso é muito dificil. A meditação talvez seja um bom caminho. Como sabes a compaixão é a grande maxima do Budismo e nenhum ocidental tem compaixão incondicionalmente, i.e. sem ter nada em troca ou se esse alguem por quem deveria ter essa compaixão não tenha tb por ele.
A tomada de consciencia do caminho correcto a seguir implica sempre uma grande abstracção pelo que nos rodeia. Só com isenção conseguimos o correcto descernimento. Beijinhos, pai :)

7:02 da manhã  
Blogger augustoM said...

Perfeito raciocínio. O mundo ocidental não consegue entender o mundo oriental. Para atingir o caminho da perfeição o mundo ocidental também tem uma receita, não necessitando recorrer a outras que lhe são completamente estranhas. "não faças aos outros aquilo que não queres que te façam, e faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem".Jesus Cristo. Como vês uma formula, muito difícil de executar, mas capaz de nos pôr a viver em verdadeira harmonia uns com os outros.
Beijinhos

10:10 da manhã  
Blogger Yardbird said...

Voltei ao comentário. Com efeito, sou agnóstico e cada vez melhor convivo com as minhas dúvidas. Estou de acordo com o que diz o Iluminado e parece-me muito redutora essa definiçãao do dicioñário. É que, e mesmo considerando-me um agnóstico, considero ter abertura de espírito suficiente para entender as linhas de pensamento do budismo. O que quis dizer, é que os dogmas, quaisquer que sejam, nos limitam o entendimento de outras filosofias de vida.
Um abraço

12:42 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá yardbir
É com prazer que vejo o seu regresso ao blog. Então vamos lá a isso.
O agnosticismo, segundo Kant, é a impossibilidade de demonstrar a existência de Deus, ou seja a incapacidade de compreender o transcendental.Estamos perante o positivismo.
Mas OK, concordo que seja um agnóstico moderado, com abertura de espírito suficiente para entender, neste caso, os princípios do Budismo, que na minha opinião são formidáveis.
Mas é uma grande contradição querer ser agnóstico e dizer "seja em cultura for, quando a gente morre...morre mesmo", que fecha todas as portas a qualquer outra hipótese, e querer ter um espírito receptivo aqualquer outra corrente de pensamento.
Se não concordar contraponha, é sempre bem vindo.Da discussão é que nasce a luz.
Um abraço. Augusto

9:20 da tarde  
Blogger Yardbird said...

Não, com essa afirmação não concordo completamente. Morre-se físicamente, isso é indubitável. O resto, cabe perfeitamente nas dúvidas que tenho. Não se trata, creio eu, de uma afirmação categórica em relação a todas as componentes do nosso "eu"
Abraço

11:56 da manhã  
Blogger AnaP said...

Não me vou aventurar numa discussão sobre filosofia, porque sinceramente nunca foi o meu forte. Seria vergonhosa a minha prestação (os meus testes de filosofia confirmam-no!), mas uma pessoa não consegue ficar indiferente a uma discussão tão interessante. Se estivessemos numa sala a conversar eu estaria a olhar para vocês muito atenta e a ouvir com muita atenção. Obrigada por esta sessão de esclarecimento. É sempre um gosto vir aqui e aprender algo de novo. Beijinhos***
(desculpem a minha sensaboria... vou tentar ser melhor para a próxima!)

12:03 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá AnaP
De sensaboria é que os seus comentários não têm nada. É muito natural haver um tema ou outro onde não nos sentimos tão seguros, mas mesmo assim devemos sempre participar.

8:51 da tarde  
Blogger lost said...

Boa tarde! É a primeira vez que venho ao seu blog, cheguei até ele através dos seus comentários no blog aguasdosul.blogspot.pt. Acho o seu blog muito interessante, concerteza começarei a ser uma visita habitual, para 'embeber' conhecimento!

Tento estar na vida num perpectiva de aprendizagem e compreensão constante. Gosto de compreender as coisas e principalmente, de me compreender a mim propria e por conseguinte, aos outros.

Consigo rever-me muito nos principios do budismo, que considero mais como uma filosofia e forma de estar na vida. Ainda estou na fase de começar a ler mais algumas sobre o assunto. Penso que me pode ajudar no crescimento interior. Gostei da sua abordagem ao assunto, e até gostaria que me aconselhasse alguns sites/livros sobre o assunto.

Obrigado e boa tarde.

4:49 da tarde  
Blogger 日月神教-任我行 said...

走光,色遊戲,情色自拍,kk俱樂部,好玩遊戲,免費遊戲,貼圖區,好玩遊戲區,中部人聊天室,情色視訊聊天室,聊天室ut,成人遊戲,免費成人影片,成人光碟,情色遊戲,情色a片,情色網,性愛自拍,美女寫真,亂倫,戀愛ING,免費視訊聊天,視訊聊天,成人短片,美女交友,美女遊戲,18禁,三級片,自拍,後宮電影院,85cc,免費影片,線上遊戲,色情遊戲,日本a片,美女,成人圖片區,avdvd,色情遊戲,情色貼圖,女優,偷拍,情色視訊,愛情小說,85cc成人片,成人貼圖站,成人論壇,080聊天室,080苗栗人聊天室,免費a片,視訊美女,視訊做愛,免費視訊,伊莉討論區,sogo論壇,台灣論壇,plus論壇,維克斯論壇,聊天室

7:14 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home