sexta-feira, outubro 22, 2004

Lembranças IV

Baixei o tom de voz e sussurrando perguntei. E se esta guerra não for justa, achas que vale esse sacrifício todo? A resposta foi imediata: não me digas que és daqueles que pensam que devemos devolver as terras aos pretos. Tomámos conta de África há cerca de cinco séculos, quando aquele continente era o que se sabe, um amontoado de tribos que se guerreavam e que viviam da forma mais primitiva. Se esse tempo todo não nos legitima em relação a África então o que havemos de dizer dos Americanos, dos Australianos, Nova Zelândia etc. É tudo uma grande hipocrisia. O que eles querem é ficar com o que é nosso.
Ouvi e calei, a conversa era demasiado perigosa para a altura. Nunca se sabe onde está o bufo. Como é o teu nome?, perguntou ele com uma voz mais simpática, aqui têm a mania de nos pôr números, e esquecemos dos nossos nomes. Augusto, informei. Descobri uma coisa gira, agora ele estava com a voz bem disposta, lá fora como sabes é proibido ser comunista mas aqui dentro não, somos todos camaradas.
Rindo encaminhamo-nos para a escadaria de duzentos degraus, que para além de servir de complemento ao exercício físico servia também para abrir o apetite, ao encontro do rancho da noite.
Não fiz amigos na recruta, o único, e não passou da categoria de conhecido de beliche, foi o Barreiros, do qual nunca soube mais nada depois de sair de Mafra. Vivíamos a semana a pensar na licença de fim de semana, que começava cerca das onze horas de sábado depois da revista para ver a apresentação dos soldados não fossem eles dar uma má imagem do exército. Botas a brilhar, farda com os botões polidos, emblema do bivaque reluzente, barba impecável o cabelo não conta porque ainda não teve tempo de crescer depois da carecada higiénica. A licença terminava no Domingo seguinte com apresentação à porta de armas até às 21 horas.
Menos de um dia e meio, pois temos de contar com o tempo da viajem ida e volta, era pouco tempo para matar as saudades, especialmente com a namorada. Uma semana sem dar um beijo pelo menos, merecia uma licença maior.
Nunca tive a menor vocação para militar, mas compreendo que havendo necessidade de haver exército o problema maior que este tem de resolver é o da disciplina, catalizador fundamental da instituição, sem a qual não é possível haver exército. É a disciplina que é base do comando, porque só há comando quando existe quem obedeça, e a obediência é a condição fundamental da disciplina.
O treino militar, pelo menos fisicamente falando, era muito duro, assim era necessário para enfrentar a guerra que nos esperava. Contudo, o moral era muito elevado, e todos os recrutas aceitavam de boa vontade os exercícios, procurando até emprestar o melhor que podiam na sua execução.
A recruta ia correndo menos mal, caso não fosse atingido pelo o corpo de um camarada com cerca de cem quilos que caiu de um muro abaixo, mais precisamente em cima do meu pé direito, fracturando-me o dedo maior do referido pé.
Apesar das botas serem muito rijas, o que servia de talas para o dedo ferido, as dores eram muitas quando marchava ou pior ainda quando corria. Dar baixa à enfermaria, o que seria a opção mais evidente, estava posto fora de causa, pois isso implicava a perca da licença de fim de semana, e lá se iam por água a baixo os beijos tão ardentemente esperados.
O dedo inchou muito e tinha de recorrer à ajuda do Barreiros para descalçar a bota quando regressávamos ao fim do dia da instrução. Para calçar a bota de manhã usava um técnica especial. Sentava-me na cama do Barreiros, que ficava por cima da minha, enfiava o pé na bota até onde podia e depois deixava-me cair ficando a gravidade e o meu peso encarregues de colocar o pé completamente dentro da bota. Era uma dor do caraças, mas era uma dor só, depois atacava a bota da melhor maneira possível. (continua)

15 Comments:

Anonymous Anónimo said...

E o que não se faz por causa de uns beijos ardentemente esperados...aposto que ficaste com o dedo aleijado pró resto da vida.
Amazing estas tuas crónicas.
Marta

6:52 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Marta
Pois fiquei, foi o preço dos beijos.
Um abraço.Augusto

8:37 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Marta
Pois fiquei, foi o preço dos beijos.
Um abraço.Augusto

8:37 da tarde  
Blogger AnaP said...

Espero ao menos que tenha valido a pena sacrificar o dedo do pé... (na altura vale sempre a pena... o que eu espero é que ainda hoje sintas que valeu a pena). Beijinhos***

12:16 da tarde  
Blogger chemistry said...

Este teu diário da tropa fascina-me, é tão interessante que estamos sempre a querer saber mais.
Essa mentalidade de a África ser nossa é que não consigo engolir,e a existência de bufos, será que não os há agora, também?
Boa semana para ti
Abraço
P

3:29 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Estas Lembranças fazem-me lembrar um pouco as minhas, penso que deveremos ser mais ou menos da mesma idade.
Aquela geração que foi marcada pela guerra do Ultramar.
Já li as suas anteriores lembranças. Devia tentar, se não é o caso, passá-las para livro.
Cordialmente
António

5:38 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá AnaP
Penso que sim, pois ainda contino a sacrificar o dedo do pé pela mesma pessoa.
Um abraço. Augusto

Olá António
Obrigado pela sugestão, mas penso que dificilmente encontraria alguém interessado em publicá-lo
Um abraço. Augusto

Olá wearetwo
A mentalidade era a de muita, mesmo muita gente naquela altura. Para vocês é muito difícil compreender um povo que durante décadas foi obrigado a aceitar, desde a escola primária, os princípios fundamentais impostos pelo regime; Pátria, família e Deus, e na Pátria estavam incluidas as colónias.
Quanto aos bufos penso que é uma epidemia para aqual ainda não há vacina.
A respeito do diário, ainda agora a procissão vai no átrio.
Um abraço. Augusto

8:12 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Amigo Augusto,
Também iniciei a minha tropa em Mafra, em 1964. Curso de Sargentos Milicianos. Depois fui para Sacavém tirar a especialidade de Mecânico Auto. Seguiu-se o Trem Auto, já como cabo miliciano, Tomar, no RI 15, de onde fui mobilizado para Angola, numa Companhia de Artilharia, o RAAF, em Queluz. Partimos para Angola em 16 de Outubro de 1965 e regressámos em 22 de Dezembro de 1967.Eu já sabia, pois já tinha estado preso 6 meses pela Pide, que a "bufaria" estava espalhada por todo o lado, neste caso nos quartéis, onde alguns camaradas nossos se prestavam a executar esse trabalho sujo.Para acabar, pois o comentário já vai longo, quero informa-lo que desde a passada, quinta-feira, tenho tido dificuldades de acesso à Net. Daí o meu silêncio.Fraternas Saudações,

10:18 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Fernando B.
Quase nos cruzavamos em Mafra. Aquilo é que era um quartel, a fina flor do militarismo português. Não sei quais as suas impressões a respeito de Mafra, mas eu não fiquei com saudades.
Um abraço. Augusto

8:08 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A guerra não foi justa, sem sombra de dúvida.Gostei muito de ler as Lembranças IV, gostei particularmente das frases : lá fora como sabes é proibido ser comunista mas aqui dentro não, somos todos camaradas.E:
Nunca tive a menor vocação para militar, mas compreendo que havendo necessidade de haver exército o problema maior que este tem de resolver é o da disciplina, catalizador fundamental da instituição, sem a qual não é possível haver exército.
Um abraço Augusto
JP

3:40 da tarde  
Blogger trintapermanente said...

Muito descritivo. Já pensaste em escrever um romance?

7:26 da manhã  
Blogger aba said...

Olá, amigo!
já te disse que o link que deixas nos comentários... não vai parar a lado nenhum?!penso que tem a ver com os hifens...

Pena não teres desenvolvido o primeiro parágrafo... é um tema interessante, que podíamos discutir... independentemente das memórias, que são narrativas!
Um abraço!

6:52 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá iluminado
O tema em questão, vai sendo desenvolvido ao longo da narração, conforme as situações. Ele é objecto de uma controvérsia geracional, pelo que só o vou apresentar na óptica dos personagens daquele tempo. O problema não é tão só descutir o tema, mas sim discutir o pensar de uma geração.
Quanto ao link não sei o que se passa, vou verificar.
Um abraço. Augusto

8:17 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá tintapermanente
Escrever um lívro está fora de questão, não tenho capacidade para tal.
Beijinhos. Augusto

8:21 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Quero agradecer pela visita que fez ao meu blog e por ter gostado dele.
Depois de ler o seu, não tive outra alternativa senão passar a ser um "cliente habitual", até já o adicionei aos favoritos.
Continue com os seus e a história da recruta, que está a ser fenomenal.
Abraço


Tafan http://www.tafan.weblog.com.pt/

12:31 da manhã  

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