quarta-feira, outubro 06, 2004

Lembranças III

Após um dia de instrução, regressávamos à caserna, um banho quente para limpar a lama, trocar de roupa, e dar um pouco à perna pelo quartel para conhecer todos os cantos, preferiam uns, outros com espírito menos turístico, preferiam ficar na caserna deitados nos beliches, jogando cartas, ou conversando esperando o rancho da noite.
Estava a mudar de roupa quando reparei que o fulano que partilhava o beliche comigo e ficava na parte de cima, e com o qual ainda não tinha trocado uma única palavra se quer, estava a coxear.
Como foi isso? Aleijaste-te na instrução? Não, respondeu ele com um ar muito sério, sou mesmo assim, tenho uma perna mais curta que a outra desde nascença. Tens uma perna mais curta que a outra e foste apurado para a tropa? Exclamei eu, pensando ao mesmo tempo para comigo mesmo, porra nem os aleijados escapam. Fui apurado porque eu quis, explicou ele com um ar a passar de sério para zangado. Sou tão capaz de vir para a tropa como qualquer outro e fazer tudo o que vocês fazem. Achei melhor que a conversa ficasse por ali, não queria estar a criar conflito por uma coisa de nada. Acabei por saber que se chamava Barreiros e que no final da recruta foi destacado para atirador.
O Barreiros era uma pessoa reservada, pouco falador, o que não era exclusivo dele, pois eu também não falava praticamente com ninguém, a jovialidade dos outros sempre me pareceu um pouco a despropósito nas circunstâncias em que estávamos ali. Há sempre uns chicos espertos que gostam de se evidenciar com as suas graçolas, por vezes de muito mau gosto. Provinham das mais diferentes partes do país e de diferentes estratos sociais, formando uma amalgama de pessoas, com níveis de educação muito diferentes, que não faziam muito o meu gosto. Tínhamos de estar juntos na recruta durante três meses e o que havia a fazer era passar este período, que parecia nunca mais terminar, da melhor forma possível.
Uma vez, durante uma marcha em paço de corrida, verifiquei que o Barreiros começou a ficar para traz com dificuldades físicas devido à sua deficiência, e que teimosamente continuava a tentar acompanhar o pelotão. Aproximei-me dele e ofereci-me para transportar a sua arma para que pudesse correr melhor. Rejeitou a oferta com um palavrão e começou a correr mais depressa, não sei bem como o podia fazer a coxear da maneira que coxeava, juntou-se ao pelotão e chegou com ele ao fim da marcha.
Ao fim da tarde quando nos encontramos na caserna, falei com ele. Desculpa lá, mas só queria ajudar-te, pareceu-me que estavas com dificuldades. Não preciso da vossa ajuda quando vim para a tropa já sabia o que me esperava, respondeu irritado.
Mas se sabias que a recruta não é pêra doce porque vieste para a tropa? Toda a gente quer ficar livre e tu que tens essa possibilidade queres vir dar o corpo ao manifesto.
Olhou para mim por uns segundos e depois com a voz sem irritação mas dura, justificou. Os outros não são mais do que eu ou eu não sou menos que os outros. Não quero ser considerado um inválido, sou tão homem como vocês. Se toda a gente vai para a guerra porque não posso ir eu também. Não estou interessado em ficar a passar os dias no café lá da terra, tratado como um coitado aleijado, enquanto os outros andam aos tiros em África. Para mais concordo plenamente com a guerra, acho que devemos defender o que é nosso.
Foi a minha vez de ficar calado algum tempo, pensando ou o gajo está marado da cabeça e não passa de um complexado ou é alguém que merece a nossa admiração pela força de vontade enorme com que tenta ultrapassar a partida que a natureza lhe pregou.
(continua)

5 Comments:

Blogger aba said...

Olá!
Fizeste-me remexer no baú... para me recordar a minha recruta em Tancos:
O meu pelotão, como penso que de um modo geral acontece, era muito diversificado; o meu companheiro de beliche, todos os dias às 7:00 acendia um charro para começar bem o dia... começava ele e os companheiros mais próximos...
havia um outro cromo, com quem ainda hoje me encontro de quando em vez - já lá vão 20 anos, chegava ao domingo à noite num mercedes branco, descapotável (!) e tirava da bagageira um saco com garrafas de Gordon`s e Maltes com 12 anos para distribuir pelo povo!
Grandes Noites!

1:37 da tarde  
Blogger AnaP said...

Pois é... e porque olhamos para os que por alguma razão estão fisicamente diminuídos com pena e comiseração, depois há umas quantas dessas pessoas que vão até ao limite onde nenhum ser humano "normal" quer ir para provarem que são apenas seres humanos. Espero que esse Barreiros tenha sobrevivido. Beijos***

5:19 da tarde  
Blogger chemistry said...

Cada vez gosto mais de vir aqui ler as tuas histórias, aquilo é que era a "tropa", agora já não há disso.
Bom fim de semana.

6:06 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gosto imenso das tuas lembranças. Quando é que seguem?
Lena

7:04 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá iluminado
Na tropa a mistura é tão grande que acabamos sempre por encontrar personagens um pouco surrealistas.
Um abraço. Augusto

Olá AnaP
Não sei se ele sobreviveu à guerra, espero bem que sim, a determinação e a coragem dele valiam a sobrevivência.
Um abraço. Augusto

Olá wearetwo
Olhe que a tropa naquela época, como poderá verificar mais à frente, não era nada simpática.
Um abraço. Augusto

Lena
Obrigado pela sua visita. Em princípio todas as semanas publico um capítulo.
Um abraço. Augusto

8:19 da tarde  

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