quinta-feira, outubro 28, 2004

Todos iguais... e tão diferentes...

No nosso dia a dia somos confrontados com comportamentos humanos, que não só nos indignam, como a sua própria existência nos deixa perplexos.
Pela comunicação social tomamos frequentemente conhecimento de actos brutais, por vezes de uma crueldade indescritível, que coloca os humanos, pelo menos uma parte deles, no patamar mais baixo entre os animais.
O nosso quotidiano é espectador de todas as formas de egoísmo, em muitos dos casos de tal maneira gratuitas, que não podem passar de irracionais. Porquê alguns humanos têm de estar sempre competindo entre si, por situações justificáveis ou não, utilizando para tal o que os seus instintos têm de mais negativo “Eu quero, o resto que se lixe”.
Também nestes humanos a solidariedade humana dá lugar à curiosidade mórbida de ver o sofrimento dos outros, como se isso apaziguasse qualquer apetite secreto, ou ainda o alheamento voluntário em relação ao seu semelhante que eventualmente possa estar numa situação desesperada. “Ele que se lixe, quero lá saber”.
E quando estes humanos, fazem uso das tecnologias, usam-nas na mesma forma de como se comportam, isto é irracionalmente. Um dos resultados é a “incompreensível” sinistralidade automóvel que todos conhecemos.
A comunicabilidade é quase inexistente, eles só vivem para o seu egoísmo. Fechados no seu mundo de cupidez, todos os outros são potenciais inimigos. Vivem anos lado a lado com os seus vizinhos e nunca lhes deram as boas tardes ou as boas noites, pois isso era no entender deles, não uma mera rotina de boa educação, mas sim o permitir alguma cumplicidade que eles não querem.
Reflectindo sobre a sociedade em que vivemos, onde fisicamente todos somos iguais, e aparentamos um intelecto semelhante, pergunto; como é possível uns serem tão pouco evoluídos em relação aos outros?
Será que contrariamente ao que os paleontólogos afirmam, o Homem de Neandertal, mais atrasado evolutivamente que o Homo sapiens sapiens, não se extinguiu e perpetuou-se conjuntamente com este, vivendo em conjunto com as suas diferenças evolutivas?
Com a veracidade ou não desta hipótese, procurei sucintamente, tentar compreender o mecanismo evolutivo causador destas disparidades de comportamento, que passo a expor.

O instinto é o comportamento espontâneo, inato, inconsciente, irracional, próprio do homem e dos animais, que actua independentemente de aprendizado.
É uma espécie de inteligência rudimentar, sem raciocínio, que dirige os seres vivos nas suas acções, à revelia da sua vontade, e que reage com actos tendentes a conservar a vida individual e a perpetuar a espécie
O instinto e a inteligência muitas vezes se confundem. Mas, muito bem se podem distinguir os actos que decorrem do instinto dos que são da inteligência.
Exagerando as necessidades, o humano afasta-se da simplicidade e estrutura o mecanismo de instinto de posse e, com o instinto de posse, cria os reflexos do egoísmo, do orgulho, da vaidade e do medo.
A sobreexcitação dos instintos materiais, abafa, por assim dizer, o senso moral, como o desenvolvimento do senso moral enfraquece pouco a pouco as faculdades puramente animais.
Sendo a inteligência a faculdade que permite a adaptação e o domínio de novas situações, manifestando-se na compreensão, aplicação, interpretação e estabelecimento de relações e de conexões que tenham sentido, a razão é a faculdade de distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal
O instinto é condicionado pela conduta racional e pelas experiências vividas.
A sobreexcitação do instinto pessoal por vezes é contagiosa levando à sobreexcitação do colectivo, transformando as massas em grupos de actuação alucinante, primando por total uma ausência da razão.
Com a utilização da razão aparecem as qualidades morais que no indivíduo constituem, a honra, a bondade, a integridade de carácter, a sobreposição do interesse colectivo ao egoísmo subjectivo.
Como consequência das qualidades morais, manifesta-se a sensibilidade , faculdade de sentir ou experimentar prazer e dor, sensações e sentimentos.
Os sentimentos provocam o amor e o afecto, e estes dão origem à emoção que por sua vez leva à comoção, o sentir mais nobre do homem.
Em suma, o homem é uma soma de instintos, que o caracterizam como animal, e razão, que o distingue das demais criaturas. O que se requer é equilíbrio, harmonia entre os dois factores, e a racionalidade deve preponderar sobre instintos que se tenham tornado dispensáveis e que precisem ser dominados. Se não fosse a racionalidade, possivelmente, o homem já estaria extinto..
A razão tem avanços e retrocessos, dependendo de como geração é educada pela que a precedeu, mas é preciso que nunca decline a ponto de ser ofuscada pelos instintos.

Termino deixando em aberto, ao leitor deste post, a justificação sobre os porquês do comportamento tão instintivo de alguns humanos.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Lembranças IV

Baixei o tom de voz e sussurrando perguntei. E se esta guerra não for justa, achas que vale esse sacrifício todo? A resposta foi imediata: não me digas que és daqueles que pensam que devemos devolver as terras aos pretos. Tomámos conta de África há cerca de cinco séculos, quando aquele continente era o que se sabe, um amontoado de tribos que se guerreavam e que viviam da forma mais primitiva. Se esse tempo todo não nos legitima em relação a África então o que havemos de dizer dos Americanos, dos Australianos, Nova Zelândia etc. É tudo uma grande hipocrisia. O que eles querem é ficar com o que é nosso.
Ouvi e calei, a conversa era demasiado perigosa para a altura. Nunca se sabe onde está o bufo. Como é o teu nome?, perguntou ele com uma voz mais simpática, aqui têm a mania de nos pôr números, e esquecemos dos nossos nomes. Augusto, informei. Descobri uma coisa gira, agora ele estava com a voz bem disposta, lá fora como sabes é proibido ser comunista mas aqui dentro não, somos todos camaradas.
Rindo encaminhamo-nos para a escadaria de duzentos degraus, que para além de servir de complemento ao exercício físico servia também para abrir o apetite, ao encontro do rancho da noite.
Não fiz amigos na recruta, o único, e não passou da categoria de conhecido de beliche, foi o Barreiros, do qual nunca soube mais nada depois de sair de Mafra. Vivíamos a semana a pensar na licença de fim de semana, que começava cerca das onze horas de sábado depois da revista para ver a apresentação dos soldados não fossem eles dar uma má imagem do exército. Botas a brilhar, farda com os botões polidos, emblema do bivaque reluzente, barba impecável o cabelo não conta porque ainda não teve tempo de crescer depois da carecada higiénica. A licença terminava no Domingo seguinte com apresentação à porta de armas até às 21 horas.
Menos de um dia e meio, pois temos de contar com o tempo da viajem ida e volta, era pouco tempo para matar as saudades, especialmente com a namorada. Uma semana sem dar um beijo pelo menos, merecia uma licença maior.
Nunca tive a menor vocação para militar, mas compreendo que havendo necessidade de haver exército o problema maior que este tem de resolver é o da disciplina, catalizador fundamental da instituição, sem a qual não é possível haver exército. É a disciplina que é base do comando, porque só há comando quando existe quem obedeça, e a obediência é a condição fundamental da disciplina.
O treino militar, pelo menos fisicamente falando, era muito duro, assim era necessário para enfrentar a guerra que nos esperava. Contudo, o moral era muito elevado, e todos os recrutas aceitavam de boa vontade os exercícios, procurando até emprestar o melhor que podiam na sua execução.
A recruta ia correndo menos mal, caso não fosse atingido pelo o corpo de um camarada com cerca de cem quilos que caiu de um muro abaixo, mais precisamente em cima do meu pé direito, fracturando-me o dedo maior do referido pé.
Apesar das botas serem muito rijas, o que servia de talas para o dedo ferido, as dores eram muitas quando marchava ou pior ainda quando corria. Dar baixa à enfermaria, o que seria a opção mais evidente, estava posto fora de causa, pois isso implicava a perca da licença de fim de semana, e lá se iam por água a baixo os beijos tão ardentemente esperados.
O dedo inchou muito e tinha de recorrer à ajuda do Barreiros para descalçar a bota quando regressávamos ao fim do dia da instrução. Para calçar a bota de manhã usava um técnica especial. Sentava-me na cama do Barreiros, que ficava por cima da minha, enfiava o pé na bota até onde podia e depois deixava-me cair ficando a gravidade e o meu peso encarregues de colocar o pé completamente dentro da bota. Era uma dor do caraças, mas era uma dor só, depois atacava a bota da melhor maneira possível. (continua)

sábado, outubro 16, 2004

Se...

Se escolheres um lugar escuro, senta-te, respira fundo, esvazia os pensamentos, sê só tu, olha para o céu, cavalga um cometa, salta de estrela em estrela, e solta a imaginação.

Se a Natureza te privou da visão, apura o ouvido, encontra uma suave melodia, e solta a imaginação.

Se também a audição te foi negada, inspira um doce perfume, e solta a imaginação.

Se o olfacto perdeste, relembra um sabor apetecível, e solta a imaginação.

Se só te resta o tacto, tacteia o que mais de suave a matéria tenha, e solta a imaginação.

Se todos os sentidos te foram negados, e só te resta o pensamento, procura-te a ti próprio, que o resto é imaginação.

quarta-feira, outubro 13, 2004

O Budismo

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Uma das grandes estultícias do Mundo Ocidental é pensar que é capaz de compreender a mentalidade Oriental.
A tentativa de compreensão do pensamento oriental é feita pelo ocidente baseada nos seus padrões civilizacionais, tendo como resultado, essa compreensão no fim não ser mais do que uma tradução à letra sem o conteúdo da “alma” oriental.
Muitos são os ocidentais que se sentem fascinados pelo Budismo, pretensos praticantes de tão elevada linha de pensamento, recorrendo a práticas ocidentalizadas, que de certa forma nada têm a haver com a essência do Budismo.
A meditação e a introspecção budistas, não se fazem com um simples fechar de olhos, respirar fundo, tentar não pensar em nada e em alguns casos emitir os sons sagrados. A meditação budista é muito profunda e está interligada às práticas sublimadoras, que não são facilmente aceites pelos ocidentais aspirantes ao mundo budista.
Salvo raras excepções, o Budismo para os ocidentais é uma espécie de moda, por ignorarem na realidade o que é o Budismo, e só o conhecerem muitas vezes através de charlatães, hoje em dia muito frequentes, chamados de gurus.
A título de esclarecimento passo a apresentar algumas notas sobre o Budismo.

Fundado na Índia por volta do século VI a.C., e inspirado nos ensinamentos de Siddharta Gautama, cognominado o Buda, o Budismo é a denominação dada pelos ocidentais ao sistema que visa à realização plena da natureza humana e à criação de uma sociedade perfeita e pacífica. Aberto a todos os grupos sociais, etnias, culturas e nacionalidades, desenvolveu-se por todo o Extremo Oriente.
Buda convencido de que a vida é cheia de sofrimento e sacrifícios, resolveu buscar a iluminação religiosa. Torna-se um monge mendicante que rompe com o bramanismo, a religião pós védica da Índia.
A sua pregação baseava-se na crença de que a existência é um ciclo contínuo de morte e renascimento. Assim, a posição e o bem-estar na vida decorrem da conduta nas vidas anteriores. Um elo liga a vida presente à passada.
O objectivo do Budismo é alcançar o nirvana, isto é libertar o humano de ciclo da vida e da morte.
Para atingi-lo, é preciso seguir a doutrina das Quatro Nobres Verdades e da Senda Óctupla. As Quatro Nobres Verdades são: 1) a dor universal; a constatação de que o sofrimento é factor inerente a toda a forma de existência; 2) ela é causada pelos desejos que alimentam a nossa vida tecida de ilusões; de que a origem do sofrimento é a ignorância; 3) suprimindo esses desejos, eliminar-se-á a dor; de que se pode dominar o sofrimento por meio da extinção da ignorância; 4) seremos nisto ajudados pela meditação e pela piedade para com todos os seres; de que o caminho que leva ao domínio do sofrimento, caminho médio entre a automortificação. O abandono dos prazeres, consiste na Senda Óctupla. Esta abrange compreensão correcta, pensamento correcto, palavra correcta, acção correcta, modo vida correcto, esforço correcto, atenção correcta e concentração correcta. Assim se atinge o Nirvana que exige pureza de fé, de vontade, de aplicação, de memória e de meditação.

Voltando ao princípio da questão, de como o ocidental poderá entender a “alma” dos orientais, quando estes, por sua vez fizeram três interpretações diferentes do Budismo, criando três grandes correntes, assim chamadas.

O Pequeno Veículo, ou Hinaiana, considera-se o mais antigo e ortodoxo e presta culto só a Buda. Suprimindo o eu e a ilusão do universo, chega-se ao Nirvana (uma espécie de indefinido nada universal, do qual tudo devém e ao qual deve retornar no final das reencarnações). Buda disse: «A nada ames, a nada odeies, nada desejes, a fim de que, soprando sobre o mundo, tu o possas extinguir.» É praticado em Ceilão, na Birmânia, na Tailândia e no Sudeste asiático até Java.
O Grande Veículo, ou Mahaiana, assegura que o Buda encarna periodicamente na Terra para salvar os homens. Conquistou o Tibete, a China, a Mongólia, a Coreia e o Japão, retomando o princípio de «libertado que, por sua vez, liberta», de Gautama.
O Veículo de Diamante, ou Vajraiana, uma terceira corrente, bastante impregnada de erotismo e de magia xivaíta, foi influenciada pela vaga tântrica.
Este conjunto comporta impressionantes paradoxos:
1) Buda nunca se apresentou como deus, nem mesmo indirectamente. No entanto, os seus discípulos divinizaram-no e alguns deles criaram hierarquias de budas divinos. Os Tibetanos acrescentaram-lhe mesmo uma abundante demonologia.
2) Nascido nas Índias como reacção contra o induismo, o budismo será quase eliminado por este último (hoje conta apenas 200.000 praticantes na Índia. Mas fora da Índia agrupa mais de 500 milhões de fiéis)
3) Nascido nas Índias, não é verdadeiramente hindu nas suas concepções. O próprio Gautama nasceu no que é o actual Nepal e é apresentado como um estrangeiro.
4) Buda falava um dialecto e não deixou nenhum ensinamento escrito, o que não impede que exista um gigantesco cânon triplo (sânscrito-tibetano-chinês) para o Grande Veículo e o Triplo Vaso para o Pequeno.
5) Tipicamente negativo na base (nada de Deus; o mundo é uma ilusão e o eu também o é), torna-se uma receita prática, positiva, de salvação.

Como vimos o Budismo não é uma coisa tão linear assim, para que qualquer ocidental o compreenda, cultural e religiosamente influenciado por uma religião, o Cristianismo, voltada para a colectividade. O Budismo não é uma religião, mas sim, uma filosofia de vida que visa unicamente a salvação individual, baseada numa conduta de certa forma transcendental para os ocidentais.
Talvez seja mais fácil um oriental compreender a cultura ocidental, do que um ocidental compreender o pensamento oriental.



terça-feira, outubro 12, 2004

Contas às claras, Justiça Fiscal

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Contas escondidas não pagam impostos

Em Portugal, não há combate à fuga fiscal. A Polícia Judiciária tem apenas dez inspectores em todo o país dedicados ao combate ao crime fiscal. Em 2003, só foram investigadas cem pessoas.

A fuga ao fisco é gigantesca: calcula-se que seja equivalente a um décimo do Produto total da economia do país, cerca de 13.200 milhões de euros (2.640 milhões de contos).

Em cada ano, afuga aos impostos rouba quase trezentos contos a cada pessoa. Combatendo a fraude podemos viver melhor.

Assine a iniciativa legislativa popular
www.contasclaras.net

sexta-feira, outubro 08, 2004

Atirar areia para...

Uma vez mais voltamos a assistir, por parte do governo, à utilização da velha técnica de atirar areia para os olhos do cidadão, na tentativa de o confundir nos seus juízos e subsequentes conclusões, neste caso, respeitantes à pertinente questão de se há ou não censura institucionalizada pelo poder político actual.
A técnica consiste em desviar a atenção do essencial, as declarações do ministro, procurando demagogicamente tornar importante o acessório, mais defensável e justificável, desinformando, lançando suspeições, calúnias, inventando o móbil com causa e efeito.
As declarações do ministro, verdadeira arma de arremesso contra ele, não podem ser ignoradas nem subtraídas nos debates públicos de opinião.
Ministro demitido de imediato, teria ilibado o governo, mas como tal não aconteceu, o governo passou a subscrever as declarações do ministro.
Se para o ministro é exigível a sua demissão, ao primeiro ministro exige-se que assuma as responsabilidades políticas como subscritor da infeliz declaração ministerial.
Termino apelando a todos para que sopremos com muita força, para que a areia que nos é atirada para os olhos, retroceda e lhes caia em cima.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Lembranças III

Após um dia de instrução, regressávamos à caserna, um banho quente para limpar a lama, trocar de roupa, e dar um pouco à perna pelo quartel para conhecer todos os cantos, preferiam uns, outros com espírito menos turístico, preferiam ficar na caserna deitados nos beliches, jogando cartas, ou conversando esperando o rancho da noite.
Estava a mudar de roupa quando reparei que o fulano que partilhava o beliche comigo e ficava na parte de cima, e com o qual ainda não tinha trocado uma única palavra se quer, estava a coxear.
Como foi isso? Aleijaste-te na instrução? Não, respondeu ele com um ar muito sério, sou mesmo assim, tenho uma perna mais curta que a outra desde nascença. Tens uma perna mais curta que a outra e foste apurado para a tropa? Exclamei eu, pensando ao mesmo tempo para comigo mesmo, porra nem os aleijados escapam. Fui apurado porque eu quis, explicou ele com um ar a passar de sério para zangado. Sou tão capaz de vir para a tropa como qualquer outro e fazer tudo o que vocês fazem. Achei melhor que a conversa ficasse por ali, não queria estar a criar conflito por uma coisa de nada. Acabei por saber que se chamava Barreiros e que no final da recruta foi destacado para atirador.
O Barreiros era uma pessoa reservada, pouco falador, o que não era exclusivo dele, pois eu também não falava praticamente com ninguém, a jovialidade dos outros sempre me pareceu um pouco a despropósito nas circunstâncias em que estávamos ali. Há sempre uns chicos espertos que gostam de se evidenciar com as suas graçolas, por vezes de muito mau gosto. Provinham das mais diferentes partes do país e de diferentes estratos sociais, formando uma amalgama de pessoas, com níveis de educação muito diferentes, que não faziam muito o meu gosto. Tínhamos de estar juntos na recruta durante três meses e o que havia a fazer era passar este período, que parecia nunca mais terminar, da melhor forma possível.
Uma vez, durante uma marcha em paço de corrida, verifiquei que o Barreiros começou a ficar para traz com dificuldades físicas devido à sua deficiência, e que teimosamente continuava a tentar acompanhar o pelotão. Aproximei-me dele e ofereci-me para transportar a sua arma para que pudesse correr melhor. Rejeitou a oferta com um palavrão e começou a correr mais depressa, não sei bem como o podia fazer a coxear da maneira que coxeava, juntou-se ao pelotão e chegou com ele ao fim da marcha.
Ao fim da tarde quando nos encontramos na caserna, falei com ele. Desculpa lá, mas só queria ajudar-te, pareceu-me que estavas com dificuldades. Não preciso da vossa ajuda quando vim para a tropa já sabia o que me esperava, respondeu irritado.
Mas se sabias que a recruta não é pêra doce porque vieste para a tropa? Toda a gente quer ficar livre e tu que tens essa possibilidade queres vir dar o corpo ao manifesto.
Olhou para mim por uns segundos e depois com a voz sem irritação mas dura, justificou. Os outros não são mais do que eu ou eu não sou menos que os outros. Não quero ser considerado um inválido, sou tão homem como vocês. Se toda a gente vai para a guerra porque não posso ir eu também. Não estou interessado em ficar a passar os dias no café lá da terra, tratado como um coitado aleijado, enquanto os outros andam aos tiros em África. Para mais concordo plenamente com a guerra, acho que devemos defender o que é nosso.
Foi a minha vez de ficar calado algum tempo, pensando ou o gajo está marado da cabeça e não passa de um complexado ou é alguém que merece a nossa admiração pela força de vontade enorme com que tenta ultrapassar a partida que a natureza lhe pregou.
(continua)