sexta-feira, setembro 24, 2004

Lembranças II

Após ter-me despedido dos meus pais, entrei no quartel, o que fazia pela primeira vez na minha vida, e logo verifiquei que o exército faz de conta tinha sido substituído por um exército com um espírito novo, consentâneo com as circunstâncias da altura: estado de guerra e com o lema, aprender a matar e não se deixar matar porque cada soldado ficava caro ao Governo.
Depois da praxe militar da apresentação ao oficial de dia, ao sargento de dia, ao cabo de dia chegou a vez do amanuense de dia que nos distribuiu todo o enxoval necessário para a nossa estadia, desde as cuecas à respectiva arma.
Em seguida, precedidos por um sargento com voz autoritária, o contrário não ficaria bem, escada acima cerca de 200 degraus, fomos instalados, cerca de cem homens no sótão do convento, não havia mais casernas disponíveis para alojamento, tal era o tamanho da incorporação. O que vale é o sentido prático do desenrasca no exército.
A caserna era uma espécie de corredor muito comprido em forma de túnel, com beliches duplos, um por cima outro por baixo, colocados ao longo dele formando um apertado corredor central, que viria a tornar-se no futuro, na via mais engarrafada do quartel o que não é difícil de imaginar.
Um único balneária com dez lavatórios e dez duches para cem homens, que tinham cerca de meia hora entre o toque da alvorada e a apresentação na parada, para fazerem a sua higiene matinal, era a maior confusão que se possa imaginar, dando por vezes origem a conflitos, pois levantar aquela hora da manhã até punha um santo mal disposto. Felizmente, sempre fui um galo da manhã e levantava-me uma hora antes do toque da alvorada para tranquilamente ir para o balneário.
Ao princípio era um dos primeiros a apresentar na parada, mas depois passei a ser dos últimos, ainda que o primeiro na higiene matinal. Abrigava-me nos claustros do edifício aguardando a chegada de todos, então ingressava na formatura. Àquela hora da manhã, ainda noite cerrada, o frio era tanto tanto que ficávamos completamente enregelados para o dia todo. Os gajos tinham a lata de nos obrigar a vestir o fato de instrução, em cima do pelo sem qualquer outro agasalho por baixo dele. Por falta de verba militar ou mau gosto do estilista, num cheguei a saber, o dito fato de instrução não passava de um horroroso fato macaco que nos dava mais um ar de aprendizes de mecânico do que propriamente um aspirante a hoplita.
O rancho, não tivesse eu boa boca e muita fome, estava feito, mas felizmente se alguma coisa me deixou boa recordação desta estadia, foi o casqueiro, especialmente de manhã bem besuntado com margarina acompanhado com banacau quente. Comigo o despenseiro nunca se safou, tomava dois pequenos almoços todos os dias, havia sempre uns bem aventurados esquisitos que preferiam comer umas bolachas que traziam de casa.
Depois do pequeno almoço, seguia-se a instrução militar, que era ministrada por um alferes de carreira, recém formado na Academia Militar, desejoso de demonstrar as suas habilidades e saberes militares. Rapaz da nossa idade, sem qualquer experiência de comando, quanto mais de guerra, procurava superar a dificuldade em se impor ao pelotão, com uma gritaria quase patética, o que aliás é apanágio dos exércitos. A surdez deve ser um sindroma de todos os recrutas em todos os exércitos, pois não há outra explicação para os instrutores não saberem dar ordens ou explicar o que quer que fosse sem ser a gritar.
Depois do rancho do almoço, a instrução lá continuava pelas matas da tapada, entre correrias, rastejadelas, passagens a vau e algumas sessões de tiro para afinar a apontaria. O treino terminava por volta das cinco da tarde, ficando o resto do tempo por nossa conta. (continua)

8 Comments:

Blogger AnaP said...

Tirando a parte da guerra iminente, o texto é muito parecido com a primeira carta que o meu irmão enviou da tropa. Os gritos, as paradas, tudo aquilo... Ainda por cima com mulheres na tropa, os sargentos faziam questão de humilhar os homens, dizendo que elas fazem melhor. Eu sou mulher (como se vê pelo nome) mas não gosto de qualquer tipo de discriminação. Fico à espera da continuação.
Ah, gostei do diálogo mantido no post anterior. A resposta aos comentários.
Beijos!

3:20 da tarde  
Blogger Marta said...

Ó meu amigo, não me fale de coisas tristes!
Comigo passou-se esta:
Regimento de Artilharia de Costa, há um par de anos atrás, em Dezembro:
O sargento-ajudante:
Tu ó 609 vai regar a relva.
O 609, que era eu:
Mas, meu sargento, está a chover!
O sargento-ajudante:
Não faz mal, veste uma capa de oleado!

E fui regar a relva debaixo de chuva!!!

Um abraço
http://os-caes-ladram-e-a-caravana-passa.weblog.com.pt

7:21 da tarde  
Blogger polittikus said...

Um texto denso para o fim de semana... gostei.

2:44 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Gostei da maneira como explanou as suas vivências na "tropa". Não sou desse tempo, por isso li com crescente interesse o seu texto.
Já tem aqui um leitor assíduo.
Gostei particularmente do balneário com dez lavatórios e dez duches para cem homems. Bonito! Devia haver quem não se lavasse, por falta de tempo, e então, o cheiro na caserna não se devia suportar.
Também gostei do casqueiro, até faz crescer água na boca, o pão de hoje é quase sintético.
Gostei muito.
Abraço
wearetwo

11:18 da tarde  
Blogger Yardbird said...

Um dia ainda me decido a contar das maldades que sofremos nos 3 meses que passei em Santarém. Num fim de Verão já longínquo. Abraço

10:47 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Oi!!
Vim retribuir a visita de Miss Wyouming, mas n sei bem se és mm tu!!!!
De qualquer maneir agostei mto do blog e do post!!! Eu n aguentaria ir para um colegio militar ou pa tropa ou o que é!! N mm!!!
De qualquer maneira gostei de ler aquele "Poema pouco original do medo", é um dos meus poemas preferidos, mas que já n lia há mto tempo!
Xau xau
Filipa
www.almasdopurgatorio.blogdrive.com

1:31 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá AnaP
Tem razão, muitas vezes na tropa a prepotência toma o lugar da competência.
Um abraço Augusto

Olá Canzoada
Obrigado por ter visitado o meu blog. Na tropa por vezes temos de gramar uma cambada de "cromos".
Um abraço Augusto

Olá Polittikus
Ainda bem que gostou, quanto ao denso ainda vamos no princípio.
Um abraço Augusto

Olá wearetwo
Quanto ao cheiro acertou. Quanto ao casqueiro, pode ter a certeza que era uma das poucas coisas boas que tinhamos.
Um abraço Augusto

Olá yardbird
Venha lá essa história, não hesite.
Um abraço Augusto

Olá Filipa
É com muito gosto que vi a sua visita, espero que goste dos temas que vou publicando.
Um abraço Augusto

8:18 da tarde  
Blogger 日月神教-任我行 said...

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7:15 da manhã  

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