quarta-feira, setembro 15, 2004

Lembranças 1

Vi Mafra pela primeira vez, quando os meus pais, em Janeiro de 1963, me deixaram na porta de armas da Escola Prática de Infantaria, aquartelada nas traseiras do Convento de Mafra, para ir assentar praça.
O momento seria muito importante para o mancebo e respectiva família, caso o fantasma da guerra não pairasse no ar. Qual tradição espartana, era na tropa que se obtinha o estatuto de verdadeiro homem, chegando mesmo na província a ser um desprestígio ficar livre de prestar serviço militar, quando da ida às sortes.
Antes de eclodir a guerra de África, a tropa era uma espécie de colónia de férias, onde para além da aprendizagem do ofício militar, que não passava de alguns exercícios de ginástica sueca e o romper das solas na parada dos quartéis em exercícios de ordem unida, era também a sábia escola da vida onde os recrutas mais ingénuos aprendiam tudo o que um homem devia saber com os malandros mais manhosos e sabidos que por lá apareciam.
A disciplina era complacente e o modo de vida, depois de efectuada a recruta e respectiva passagem a pronto, isto é, militarmente preparados para todas as guerras, e civilmente com a formação completa na escola da malandragem, a espera pela passagem à peluda decorria entre desenrascansos, desenfianços e todos os anços possíveis.
Era uma alegria estar na tropa, sendo até para muitos o melhor tempo da sua vida. O estado promovia a felicidade militar criando a imagem do magala sopeirento, adjectivo não relacionado com a sopa do rancho, mas sim com a boa vida que levava atrás das sopeiras. Era uma descriminação hierárquica, meninas de bem para os senhores oficiais, as respectivas sopeiras para os magalas, ou os galões não servissem para outra coisa. Quem não se lembra do João Ratão?
Era uma tropa não só de bons e brandos costumes mas de educação também, pois para muitos recrutas era a oportunidade de aprender a ler e a escrever e eram muitos e muitos os que beneficiavam desta benesse militar.
O armamento composto da recuperação da sucata da última guerra, cedido pelos aliados, cuja operacionalidade era duvidosa, estava sempre com impecável ar luzidio. Era a menina dos olhos dos oficiais. Coitados, era com uma grande mágoa que dispunham de armas tão obsoletas, tinham de salvar as aparências, ordenando que as armas fossem limpas e polidas vezes sem fim, para pelo menos darem a ilusão de serem novas, quando fossem exibidas em qualquer parada militar, para o pagode ver, que de operacionalidade a única que conheciam era a de mirones. A aparência foi sempre o nosso forte.
Quem não tem dinheiro não tem vícios, lá diz o ditado popular, então, se não havia dinheiro, se calhar não devia haver exército.
O ditado popular é sempre sábio, mas neste caso, temos de abrir uma excepção: sem exército, mesmo só de aparência, como se podia aguentar o poder? Um povo que não é versado na operacionalidade das armas, podia facilmente ser enganado com qualquer esquema faz de conta. Penso que tínhamos um exército de acordo com o país: a aparência e o faz de conta.
Mas independentemente da aparência e do faz de conta, infelizmente a existência de exército é inquestionável. Quem pensa que os povos podem viver sem exércitos ou é ingénuo ou demonstra um desconhecimento total da natureza humana.
O resultado da lenta evolução dos hominídeos durante cerca de seis milhões de anos, é um ser eminentemente predador da sua própria espécie de tal maneira que existência de uns implica a subserviência ou mesmo a aniquilação de outros, o que leva a vivermos num constante alerta, que é personificado pelo exército.
(continua...)

10 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Não sou desse tempo mas gostei da história. Tem continuação.
Abraço
PFB

11:57 da manhã  
Blogger chemistry said...

Gostei imenso de ler esta história. São mesmo vivências da/o miss ou nem tanto?
Gosto muito da maneira como escreve. Já pensou escrever um livro ou já escreveu?
Se tem livro publicado queremos saber quem é a verdadeira/o miss.
Beijo ou abraço, conforme o caso. ;)

1:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Tropa como alguns de nós conhecemos. Velhos tempos! Ás vezes tenho saudades.
Jpn

5:21 da tarde  
Blogger AnaP said...

Vi a tropa estragar a vida a alguns amigos, mas também a vi salvar a vida de alguém de quem gosto muito. Agora, quem quiser ir para o tropa tem de se voluntariar. Sinceramente, não sei no que isto vai dar. Entretanto, vou esperar pela continuação da história. Beijos***

1:17 da tarde  
Blogger augustoM said...

PFB - obrigado pela visita. A história tem continuação. Um abraço. Augusto

7:04 da tarde  
Blogger augustoM said...

Wearetwo - Obrigado pelo seu amável comentário. Nunca escrevi um livro com ideia de publicar. Não tenho engenho literário para tanto, limito-me a compilar ideias. Quanto à história ser própria ou não, a resposta é obvia num dos próximos textos.
Um abraço. Augusto

7:08 da tarde  
Blogger augustoM said...

Jpn - Eu da minha tropa não tenho, infelizmente, muitas saudades, como se poderá verificar em próximos textos.
Um abraço. Augusto

7:10 da tarde  
Blogger augustoM said...

AnP - Posso parecer um pouco desajustado no tempo, mas a tropa para o bem ou para o mal, é uma instituição, pela qual todos deviam passar, homens e mulheres.
Um abraço. Augusto

7:12 da tarde  
Blogger takitali said...

Apreciei um comentário seu na "Casa de Sarto". Em boa hora resolvi vizitá-lo. Recordei o que se passou comigo dois anos depois em Setembro. Apreciador da 'blogsfera' desde início como leitor sob pseudónimo. Parabéns pelo seu blog. Bem haja!

12:35 da manhã  
Blogger 日月神教-任我行 said...

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7:15 da manhã  

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