sexta-feira, setembro 10, 2004

Esquerda, Direita....volver

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A utilização dos termos esquerda, centro e direita, sem se saber muito bem a sua origem e o que representam na realidade, leva por vezes a situações de puro equívoco.
O entendimento destes termos é fundamental para que melhor possamos efectuar as nossas opções, na esperança de não errarmos na escolha dos nossos representantes.
A terminologia provem das posições, no espaço físico, que as diversas classes sociais ocupavam nos “Estados Gerais” durante a Revolução Francesa.
Em 1789, quando teve início os trabalhos para a elaboração da primeira Constituição francesa, os deputados (representantes políticos ), posicionaram-se geograficamente nos assentos do plenário da seguinte forma.

À direita do plenário instalaram-se os representantes da alta burguesia chamados de Girondinos, nome devido ao facto de os seus principais líderes (Brissot e Condorcet) provirem do departamento de La Gironde. Apoiados pela burguesia mercantil, constituíam um grupo bem conservador, que procurava defender os seus privilégios e evitar que as classes populares pudessem chegar ao poder ou tivessem as suas reivindicações atendidas. Não pretendiam grandes mudanças mas sim reformas que os beneficiassem.

À esquerda posicionavam-se os representantes da baixa burguesia, os trabalhadores em geral e os representantes das camadas mais oprimidas. Este grupo reunia-se num partido denominado de Jacobinos, assim chamados por terem o seu lugar de reunião no Convento Dominicano de Saint-Jacques de Paris. Republicanos radicais, eram dirigidos por Robespierre.

No centro do congresso sentavam-se os membros de um grupo, de composição variada, representando uma parte da alta burguesia, parte da pequena e média burguesia e alguns membros da aristocracia. Não eram radicais e procuravam uma conciliação. Ora apoiavam a esquerda, ora apoiavam a direita. Não se comprometiam. Pode-se dizer que viviam de acordo com a sua conveniência do momento.

Como podemos ver, estes termos, esquerda-centro-direita, tinham, a princípio uma conotação espacial. Posteriormente foram adquirindo um perfil ideológico como na actualidade. O caminho que levou esses grupos a se tornarem ideologicamente distintos foi percorrido durante o século XIX em decorrência da reacção das classes oprimidas, o proletariado, emergentes da revolução industrial, contra a burguesia opressora.
Durante o século XIX vários movimentos proletários hasteiam uma bandeira política, provocando em contrapartida uma contra-reacção da burguesia que assume, com mais ênfase, uma posição de radicalismo defensivo de forma a combater aqueles movimentos e manter as velhas prerrogativas ameaçadas.

Em face da definição de esquerda, de direita e de centro, é com apreensão que verificamos o equívoco de muitos eleitores ao se posicionarem na escolha dos seus representantes.

Eleitores de condição social de direita aderirem à esquerda, é coisa tão rara que na prática constitui um facto inverosímil.
Já o contrário não partilha, infelizmente, dessa raridade. É confrangedor ver tantos eleitores, inseridos na condição da esquerda, elegerem o campo oposto como o preferido. O facto deve-se fundamentalmente a três factores; o desconhecimento da sua própria condição no contexto social, a conexão de esquerda com formações políticas radicais, como se estas fossem só por si próprias a esquerda e o assédio habilidoso da direita.

Só a direita, o que até é um paradoxo compreensível, tenta conquistar votos no campo contrário (esquerda), não fosse esta a maior parte do eleitorado.
Qual lobo do Capuchinho Vermelho, disfarça-se de paladino dos pobres, dos velhos (que actualmente já são muitos), dos injustiçados e de todos que vêm as suas ambições quotidianas frustradas.
Veste-se a rigor, maquilha-se de Zé Povinho e até usa boné vejam lá. Entre beijos e abraços, vai perguntando do que é que as pessoas precisam para serem felizes. Ingénuo, o povo abre o coração e vai fazendo um rol sem fim de pedidos aos quais ela responde sempre, que, se for eleita dará muito mais do que é pedido pois o povo merece, e ela só quer ser eleita para fazer o bem ao povo.

É fácil de compreender que quem tem tão pouco se deixe iludir com alguma facilidade, caindo no logro, para o qual tem quatro anos para se lamentar.

Procurando impingir uma falsa esperança de melhoria de vida, que normalmente traduz exactamente o contrário dos seus objectivos políticos, a direita mente com quantos dentes tem na boca e por vezes precisa de pedir alguns emprestados.
Hoje, para ganhar o voto promete-se tudo, amanhã, ganho o voto, para não dar nada diz que se está de tanga. Esta é e será sempre a maneira da direita fazer política. As minorias só vencem pela astúcia utilizando em seu favor as tropas contrárias mal posicionadas e a má memória do povo.

E então no que diz respeito aos……?

Claro que o povo também sofre com os outros posicionamentos políticos, mas esses ficam prometidos para um próximo texto.

12 Comments:

Blogger polittikus said...

A Defenição do conceito de Direita/Esquerda está correctissima, mas a noção de posição politica em relação à sociedade nem tanto...

9:39 da tarde  
Blogger AnaP said...

Todos prometem o mesmo e não fazem nada... E esta é que é a realidade!...

11:27 da tarde  
Blogger dinah said...

Belissimo e clarissimo texto, :) parabéns.
Sabe é engraçado pensarmos que a extrema direita é, neste momento, o movimento político mais inovador, na medida em que a esquerda tem posições que não são novas, luta pelo mesmo que lutava há cem, cento e cinquenta anos ao passo que a direita fez essa torção ideológica a respeito do povo-demagogia populista, eu diria. A questão, Miss, é sempre a mesma- a de a esquerda estar demonizada demais aos olhos do cidadão comum para sequer pararem para ouvir. Porque se parassem para ouvir e reflectir se calhar viam o engodo por detrás do populismo, viam que se calhar a esquerda até tem uma certa razão. Mas parar para pensar e formar opinião é uma coisa que não passa pela cabeça de muita gente. Para quê parar para pensar quando têm o Marcelo Rebelo de Sousa e outros comentadores (de direita todos, estranhamente, lol) para lhes dizer o que pensar?

9:21 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá dinah
Obrigado pela sua visita e pelo seu comentário. Tem toda a razão em relação à esquerda, alguma dela parou no tempo.
Marcelo Rebelo de Sousa, com o seu engodo, pseudo-independente, é a prova mais sórdida de como a direita actua. Qualquer cidadão mais desprevenido cai na esparrela do comentário do professor. Até fala contra o governo, vejam só!

9:16 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá Anap
Pois é, na promessa é que vai o ganho deles. Sendo a democracia o melhor sistema político conhecido até hoje, é uma vergonha a maneira como a usam.

9:23 da manhã  
Blogger augustoM said...

Olá polittikus
O que é prometido é devido.
Comprazer tenho verificado que é muito perspicás nos seus comentários, o que acho óptimo, denotando que faz um bom aprofundamento das questões.
Quanto à posição política em relação à sociedade, há que distinguir entre o discurso e a ideologia, que normalmente não são compatíveis.
Um abraço.

9:36 da manhã  
Blogger chemistry said...

Está magnífico o seu texto, só que eu pertenço a uma esquerda que ainda acredita nos valores essenciais, bem como na solução para as questões sociais mais prementes.
O nosso país está cheio de trinta e um da treta. Estes que estão lá agora só de "carrinho".
Abraço e boa semana de trabalho, se for o caso, pelo menos o meu assim será.
Paulo

10:47 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Paulo Obrigado pela sua visita e pelo seu amável comentário. Felizmente que ainda existe uma esquerda alicerçada nos princípios humanistas, lutadora por aquilo que acha ser o funfamental da dignidade humana.
Um abraço. Augusto

8:38 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Muito interessantes os seus pontos de vista, não há dúvida que há uma certa parte da blogosfera que se enriquece, não importa que seja esquerda ou direita, já estamos a começar a estar fartos de ler sempre as mesmas lamechices, poemas deste e daquele, falta de imaginação e etc...
Fique bem
PFB

6:58 da tarde  
Blogger polittikus said...

Ideologia??? Acho que já não há ideologias como antigamente, há pessoas que falam nela quando lhes convém tipo Manuel Alegre agora em campanha, mas pouco mais...

8:01 da tarde  
Blogger augustoM said...

Obrigado PFB pela sua visita, e pelo amável comentário. A ideia que eu tenho dos blogs é servirem de veículo transmissor das ideias pessoais dos que neles escrevem, é o que eu procuro fazer, contudo cada um é livre de escrever o que entender. Na minha opinião há blogs óptimos.
Um abraço Augusto

8:35 da tarde  
Blogger augustoM said...

Caro polittikus.Claro que já não há ideologias como antigamente, tudo tem o seu tempo.
À medida que o povo foi perdendo a virgindade política, a idealogia para não perder a sua força mobilizadora, foi também alterando o seu discurso, isto é, foi-se adaptando conforme as necessidades. Um bom exemplo disso é o PS.
Olhemos o que está a suceder ao PC por teimosamente não querer adaptar a sua ideologia.
Quanto ao Manuel Alegre, sempre o achei um presunçoso alegre.
Um abraço Augusto

8:57 da tarde  

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