domingo, setembro 19, 2004

A criação

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Quando o homem obteve a consciência da sua própria existência e adquiriu a faculdade de raciocinar, diferenciou-se do contexto de um todo universal sem princípio nem fim.
Condicionado pelo mundo dos sentidos, não tem capacidade para conceber o quer que seja fora do âmbito deles. A abstracção pura é inatingível para ele.
O desconhecimento da sua limitação sensorial, leva-o a julgar-se o ser superior de toda a existência sensível e, como tal, a medida padrão para tudo o que os seus cinco sentidos podem conceber.
Em consequência disso cria a noção de espaço e tempo, transformando o intemporal da abstracção em temporal dos sentidos.
Será este o pecado original que a Bíblia menciona no Génesis, quando Adão e Eva, após tentarem comer o fruto da sabedoria, castigados por Deus, passam a ter consciência da sua existência, ao reconhecerem a sua própria nudez?
A noção de espaço e tempo implica inexoravelmente a existência de um princípio e fim para as coisas.
O princípio e o fim das coisas coloca por sua vez ao homem uma questão fundamental. Quem as criou?
Prisioneiro do tempo e do espaço, desconhecedor do infinito em que está inserido, concebe um criador perceptível no âmbito dos sentidos, por isso mesmo limitado.
Limitar tudo a um criador é limitar o que não tem limite.
Esse criador só pode ser concebido à própria imagem do homem, com tudo o que este tem de bom e de mau, ou seja faz mergulhar o criador no mundo dos sentidos.

O Génesis da Bíblia corrobora este raciocínio: 26* Deus, a seguir, disse: «Façamos o homem à nossa imagem, à Nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre os répteis que rastejam pela terra. 27* Deus criou o homem à Sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.

Deus só existe porque o homem existe. O homem tornou-se, assim, o criador do seu próprio criador.

No mundo dos sentidos o maior temor é o finito previsível para o qual a única explicação que conhece é a criação. Tudo o que é destruído teve de ser um dia criado.
Co-responsabilizando o criador pela criação e destruição passa a temê-lo. Procurando agradar-lhe, o que só consegue fazer no âmbito do seu mundo dos sentidos, cria para tal as diversas religiões.

11 Comments:

Blogger dinah said...

E também para o ajudar a lidar com a questão da sua própria finitude. Porque a consciência trouxe também a noção da morte...

10:38 da manhã  
Blogger Yardbird said...

Muito bem explanado. E é por isso que cada vez mais convivo melhor com as minhas dúvidas de agnóstico

8:25 da tarde  
Blogger AnaP said...

Vi uma vez num filme do Woody Allen (crimes e escapadelas) este conceito: Deus foi criado à imagem do Homem, e tanto é assim que o Homem não conseguiu criar um Deus de Amor, mas um Deus punitivo e cruel. Esse Deus que pede como prova de fé que Abraão sacrifique o próprio filho. Achei interessante... E o que tu dizes vem de encontro a esta teoria. No entanto, apesar de não acreditar nas imposições das várias religiões e das atrocidades que se fazem em nome desse Deus, sinto dentro de mim uma crença nesse ser Superior. Mas Deus para mim é uma entidade complacente, paciente e boa. Coisas que ficam enraízadas, acho. Mas questiono muitas coisas, inclusivamente a razão desta minha crença. Beijos***

9:40 da tarde  
Blogger polittikus said...

A biblia é cada vez mais um dogma ao conhecimento humano... Ou seráo contrário? Percebo cada vez menos a teologia...

2:34 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá dinah obrigado pela visita.
Porque a consciência trouxe também a noção da morte...
Certíssimo, só que a única explicação que encontrou é na própria criação.
Um abraço Augusto

7:57 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá yardbird Faz muito bém em ser agnóstico. O agnosticismo é o termo exacto para as nossas limitações humanas. Ultrapassa-lo era ser o criador.
Um abraço Augusto

8:05 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá yardbird Faz muito bém em ser agnóstico. O agnosticismo é o termo exacto para as nossas limitações humanas. Ultrapassa-lo era ser o criador.
Um abraço Augusto

8:05 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá AnaP Gostei do comentário que fez ao meu texto, obrigado.
Não critico as crenças dos outros, todos têm o direito de as ter. Contudo, segundo o meu ponto de vista, o questionar a sua creça já um sinal bastante positivo.
Um abraço Augusto

8:14 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá politticus A Bíblia não é dogma ao conhecimento humano. A Bíblia é um livro de história, onde na primeira parte, O Antigo Testamento, narra a história do povo judaico e na segunda, O Novo Testamento, narra a vida e a doutrina de Jesus. Qualquer dogma não é parte constituinte da Bíblia, mas somente algo apresentado nela.
Um abraço Augusto.

8:22 da tarde  
Blogger polittikus said...

Como já dise não gosto nem percebo de teologia, mas porque motivo então a "igreja" não mostra ao publico em geral a totalidade do velho testamento? Os chamados documentos do Mar Morto? Já foram descobertos há mais de 15 anos... mas eu sou um ignorante na matéria por isso é melhor eu calar-me.

11:58 da tarde  
Blogger augustoM said...

A ligação da Igreja ao Antigo Testamento deve-se só ao facto de Jesus e os seus seguidores no princípio não serem mais do que uma seita judia. Só com S.Paulo é que se deu a separação, para poder formar uma Igreja cristã individualizada e não dependente da lei judaica.
Para os cristãos a Bíblia só deveria conter o Novo testamento. Falar do Antigo Testamento é coisa que não interessa à Igreja, pois iria associá-la ao mundo judaico, coisa que ela não quer de forma nenhuma.
Um abraço Augusto

12:12 da tarde  

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