segunda-feira, agosto 23, 2004

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
ratos

Alexandre O'Neil

8 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Como ratos já somos. Bem escolhido o poema do Alexandre e o Escher. Boa estreia, seja benvindo/a

3:34 da tarde  
Blogger stillforty said...

Este poema é extraordinário, muito bem escolhido para quem se "estreou" há tão pouco tempo.
O Esher foi m bem escolhido
Fica bem

5:41 da tarde  
Blogger aba said...

Olá! :)
Obrigado pela visita..
Parece que gostas de fotografia! ;)
É um bom adereço, não é? ;)
Um conselho, se me é permitido: começar um blog com polémicas ou mal-entendidos com alguém, se não forem direccionadas para um tema específico, pode causar estragos num relação que se quer cordial entre as pessoas.. ;)
Saudações

12:02 da manhã  
Blogger chemistry said...

Medo do medo de ter medo.
Não conhecia este poema do O'Neil.
Simplesmente tão actual que até dá medo.Medo do medo que ele teve e medo do medo que é o nosso.

12:13 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Este sistema de comentários mete-me medo, mas tinha que dar o passo e comentar porque gostei. Passo a apresentar-me o meu nome é Zenhas, AZenhas ( http://azelhasdomar.blogs.sapo.pt ) e gostei de passar por cá. Li nos comentários que o blog é recente, mas não se nota nada. Não tens medo. Isso é bom. Parabens. Da minha janela, um abraço.

4:29 da tarde  
Blogger augustoM said...

Anonymous
Obrigado pela sua visita.Concordo que actualmente se ainda não somos ratos para lá caminhamos uma vez mais.

8:40 da tarde  
Blogger augustoM said...

Obrigado stillforty. Escolhi este poema pela revivência que ele encerra.

iluminado
Os conselhos são sempre bem vindos. Gostei do seu comentário. Obrigado

8:43 da tarde  
Blogger augustoM said...

wearetwo
Foi o que eu pensei ao ler o poema, por isso gostei de o partilhar. Obrigado pela visita.

Zenhas
Tenho muito prazer na sua visita, mas falta de medo é coisa que eu não tenho. Tenho até muito medo de vir a ter medo do medo.

8:51 da tarde  

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