quinta-feira, junho 09, 2005

Sesimbra (parte II)


Os últimos galeões a vapor da pesca de cerco

A pesca e os barcos

As minhas férias repartiam-se entre a praia, lota da tarde e a pesca.
Os pescadores de Sesimbra praticavam diversos tipos de pesca, com diversos tipos de embarcações, adaptadas a cada uma delas.
A embarcação mais característica de Sesimbra, era e é a aiola, pequeno bote muito elegante, movido a remos ou à vela, que além de servir de apoio aos barcos maiores, era muito usado especialmente na pesca à lula e ao choco.
De maior porte tínhamos as barcas a motor, da pesca ao aparelho, cujo o número de tripulantes variava conforme o seu tamanho e as traineiras, que utilizando as redes de cerco, se dedicavam à pesca de cardumes, como a sardinha, o carapau, a cavala e a sarda.
Ainda foi no meu tempo que assisti, aos últimos exemplares das barcas da armação. A armação era uma arte de pesca fixa, muito antiga. Este tipo de pesca era efectuado por diversas barcas, em conjunto, que não possuíam motor e eram levadas para o lugar onde estavam as redes fixadas, a reboque de uma barca a motor.
Quando a fortuna enchia as redes, e o peixe abundava, carregavam os porões da barca a motor e mais uma ou duas barcas, conforme a quantidade apanhada, que seguiam imediatamente para a lota, as restantes regressavam à vela. Como as redes estavam localizadas relativamente perto da costa, a meio caminho entre Sesimbra e o Cabo Espichel, a nortada da tarde fazia-se sentir e bem, proporcionando-lhes um bom andamento.
Um dos familiares, que vivia em casa do meu tio era pescador numa das armações, era só pedir e lá ia eu à pesca com eles. Não era a pesca que me motivava, pois era no meu entender muito monótona, o alar da rede, sempre acompanhado de típicas canções dos homens do mar, levava muito tempo.
As barcas, dispostas em circulo, bem distanciadas umas das outras, começavam a alar a rede, puxando-a não para bordo, mas deixando-a cair novamente para o mar, o que levava as barcas a aproximarem-se umas das outras, acabando por formarem um circulo pequeno, quando o fundo da rede chegava à superfície, com o peixe aprisionado. Diziam os mais antigos que a armação noutros tempos apanhava atuns, na época da sua migração, mas no meu tempo capturavam somente, carapau, cavala ou sarda, eventualmente sardinha.
Era o regresso, esperançado numa boa pescaria, poder vir à vela. Era o sonho, barco adornado pelo vento e eu sentado no meio dos pescadores a barlavento. O meu tio não achava graça nenhuma.

A traineira

O outro familiar trabalhava numa traineira, era só formular o desejo e lá embarcava eu para a pesca. Esta era feita de noite ao largo, entre a Costa da Caparica e Cabo Espichel. A costa vista do mar era muito bonita com todas as luzes visíveis. Quando a Lua estava cheia as águas pareciam de prata, quando peixe preso no saco da rede subia à superfície.
Detectado o cardume a rede era lançada à volta dele, formando um circo. A parte superior ficava à superfície, sustentada por bóias de cortiça, a inferior mergulhava direita, pelo peso do lastro de chumbo. Findo o cerco, a rede era fechada na parte inferior submersa, formando um saco onde o peixe ficava aprisionado, após o que o guincho puxava para a superfície a parte inferior desse saco obrigando o peixe a vir à superfície. Com os chalavares recolhia-se o pescado e metia-se porão. Tínhamos de ter cuidado, pois o convés, com o sangue do peixe ficava muito escorregadio.
Normalmente o mestre levava-me na casa do leme para eu poder ver a sonda a indicar a posição dos cardumes, e por vezes, quando estava bem disposto, deixava-me governar o barco. Que sensação para um miúdo de onze anos sentir a roda do leme na mão, e fixar os olhos na agulha para não sair do rumo. Quem pode ser mais feliz?
Pela madrugada, ao amanhecer, já no regresso, comíamos a “bóia”, era um momento estupendo de confraternização entre todos. Eu nunca levava nada para comer, comia da bóia dos outros, só não bebia era o vinho.
Mas de todas as pescas, a minha preferida era a do aparelho. Era nesta pesca que se utilizava o tipo de barco que sempre me mais fascinou. A barca de Sesimbra. De linhas esguias e harmoniosas, com a roda da proa elegantíssima, sem cabina de leme, era governado com uma cana de leme. O ruído característico do motor, um tac, tac, tac, se bem que ruidoso, era uma autêntica melodia para mim. Conhecia o nome da maior parte destas barcas, reconheci-as pelos desenhos pintados nos cascos. Havia-as de diversos tamanhos, mas as mais pequenas, equipadas somente com três pescadores, eram as minhas favoritas.
A pesca ao aparelho é a pesca com anzol. A barca quando chegava ao local escolhido, lançava ao mar uma linha com centenas de anzóis devidamente iscados. Nas barcas maiores chegavam a ser um milhar ou mais. Quando acabava de lançar, após uma pequena pausa, volta ao ponto onde iniciou o lançamento e começava a recolher a linha.
O lançamento desta linha com tão grande quantidade de anzóis, requeria uma técnica muito especial. Para sinalizar o início da aparelho, lançavam uma bóia fundeada, à qual o aparelho ficava preso. Depois com o motor da barca ao relantim, a cerca de um nó de velocidade, começavam a lançar o aparelho. Os anzóis eram levados celhas dispostos de maneira a soltarem-se com a pressão do aparelho e uma pequena ajuda dos dedos dos pescadores. A operação tinha de ser rápida e sem falhas pois o barco está em movimento. Espaçadamente vão sendo colocadas mais bóias de sinalização pelo homem que vai ao leme. Trabalho de artista de circo. Sentado na borda do barco, com um pé no convés e outro na cana do leme, para ficar com as mãos livres, lança as bóias de sinalização ao mesmo tempo que governa o barco.
Os outros dois, avante da cabine da motor, tomam conta das celhas dos anzóis.
A recolha do aparelho era um trabalho árduo, puxar sem parar toda aquela linha, retirar o peixe e colocá-lo no porão, num convés cheio de amarinhado de linhas e anzóis, requeria um enorme esforço físico. Eles pescavam o peixe espada, as corvinas, os gorazes, os pargos, as pescadas, por vezes com diversos quilos cada. Quando participava nesta pesca, a minha ajuda ficava-se por pôr o peixe no porão. Mas estar numa barca tão pequena, no meio da cava das vagas, por vezes bem grandes, já era o suficiente para mim.
A barca onde eu costumava ir pertencia a um pescador conhecido que vivia perto da casa dos meus parentes, só participava na pescaria da tarde, pois se o meu tio soubesse do meu embarque desancava o pobre do homem.
A barca seguia a rota do Cabo Espichel, quando lá chegava, mudava de rumo para Sul e fazia-se mar dentro durante algum tempo, até alcançar o seu lugar de pesca, um fundo rochoso, a que chamavam a Pedra. Como é que estes homens, sem instrumentos de marear, só por intuição, conseguiam encontrar o seu pesqueiro no meio do mar, sem qualquer ponto de referência, pois a costa não era mais do que ténue linha no horizonte? Sempre me intrigou, e quando perguntava como conseguiam encontrar o lugar, a rir respondiam que era pelo cheiro do peixe.
Também vi os últimos vapores de cerco, barcos de pesca movidos por caldeiras a vapor, antecessores das traineiras movidas a diesel, mas estes eram de Setúbal, só vinham descarregar a Sesimbra.
(continua)

Fotografias tiradas da Net